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Política

Primavera do Rio

Entre o sombrio e o patético

por Edgard Catoira — publicado 01/10/2011 12h35, última modificação 01/10/2011 12h36
Jornalista fala do clã Garotinho, do fechamento pelo tráfico da Unidade na Favela da Maré, e do discurso dos vereadores em 2012

O poder do clã Garotinho

Com a chegada da estação das flores no Hemisfério Sul, o Brasil ganhou um novo partido – o PDS, de Gilberto Kassab. Os arautos do novo partido chegaram ao Rio cheios de euforia, bradando que vão derrubar o prestígio da família Garotinho no Estado. Justamente quando uma decisão judicial afastava da Prefeitura de Campos dos Goytacazes, importante cidade do norte fluminense, sua prefeita. Nada menos que Rosinha Garotinho.

Enquanto, no dia 30 de outubro, pregavam seus novos ideais, mostrando que teriam a maior bancada da Assembleia Legislativa e que estavam conquistando deputados evangélicos – que formam uma das colunas de sustentação dos Garotinhos no Estado, uma liminar devolveu a prefeitura de Campos à prefeita.

Rosinha cumpriu o prometido de que só sairia do acampamento feito em frente à prefeitura se fosse presa ou retornasse, legalmente, à chefia do executivo campista. Ela sabia o que estava dizendo. Voltou, provando a força de sua família no Estado. Seu cunhado, que a substituía, devolveu o cargo a ela, e tudo continuou em família.

O que o PDS não grita é que, fora da capital fluminense, onde a família Garotinho realmente é bastante rejeitada, o clã continua com prestígio alto. Basta atravessar a ponte Rio Niterói e chegar a São Gonçalo, segundo maior colégio eleitoral do Estado, e conversar nas ruas: a grande maioria do povo é evangélica e adora o deputado federal Anthony Garotinho, marido da prefeita de Campos e pai da descoladíssima deputada estadual Clarissa Garotinho.

O presidente regional do PDS, Índio da Costa, apregoa que não faz aliança com o DEM, partido pelo qual tentou se eleger vice-presidente da República nas últimas eleições. Assim, perde também o forte apoio do antigo parceiro Cesar Maia.

Agora, para ganhar novos eleitores – que se somarão às milhares de velhinhas de Copacabana que não negam seus votos a um garotão lindo que elas adorariam ter como genro, ou algo semelhante – Índio vai ter que dançar muito ao som dos atabaques indígenas da terra de Arariboia.

Ordem governamental versus ordem real

O novo comandante da PM do Rio, coronel Erir Ribeiro da Costa, tem uma investigação urgente a ser feita, ainda que secretamente, nos bastidores da política.

Deve saber de quem partiu a ordem de fechar uma UPA, Unidade de Pronto Atendimento, na Favela da Maré. Oficialmente, apesar de ser palco para a instalação, a curto prazo, de mais uma das badaladas áreas pacificadas do Rio, a UPA foi fechada por apresentar pouca segurança a profissionais que trabalham nela e à população em geral.

O Governo do Estado, logo que a notícia apareceu nos jornais, mandou reabrir o posto de Saúde e mostrou que, a partir de agora, o policiamento seria ostensivo na área.

Tudo muito bonito. Povão e imprensa de acalmaram. Mas, quem está no meio de um invisível tsunami conta que a ordem de fechamento teria vindo do tráfico. E com o tráfico, diferente dos banqueiros de bicho, não vale o escrito. Portanto, os policiais de plantão na UPA que se cuidem.

Eu, particularmente, não iria me consultar na UPA nem com o apoio de tropas federais.

Repeteco da História

Quando era Ministro das Minas e Energia do governo João Figueiredo, o coronel César Cals, enquanto acompanhava o presidente para um tratamento em Atlanta, EUA, fez importantes pronunciamentos sobre o Brasil, criando um forte ambiente de tensão interna. Era ainda época da ditadura nacional.

O jornalista Marcos Sá Corrêa, então diretor do poderoso Jornal do Brasil, escreveu um brilhante editorial esclarecendo a população. Abrindo o texto editado ao lado de uma foto do ministro em Atlanta, Sá Corrêa lembrava que, antes de se ler alguma declaração sobre autoridades brasileiras, seria necessária uma foto do personagem. E a foto mostrava o ministro, famoso pelas enormes orelhas de abano, com um terno claro, de linho totalmente amarrotado e mal cortado, diante de um Cadillac preto, último modelo.

Marcos Sá Corrêa tinha razão: não era para levar a sério qualquer palavra que ele proferira.

Neste dia 1 de outubro, lendo a missiva de saudação do Coordenador Especial de Assuntos Legislativos da Secretaria Municipal da Casa Civil do Rio de Janeiro, acabei me lembrando do editorial do JB. Citando Winston Churchill e o estrategista militar prussiano Carl von Clausewitz, ele cumprimenta os parlamentares cariocas e, a título de sugestão, desfila uma série de frases dos dois estrategistas internacionais, que poderão ser utilizadas pelos políticos da Câmara nas próximas eleições, no ano que vem. E, literalmente, cita:

"Problemas que vêm com a vitória são mais agradáveis do que os da derrota, mas igualmente difíceis."

"Vocês perguntam: 'Qual é a nossa meta?' Posso responder numa única palavra: 'Vitória!' Vitória a todo custo, vitória apesar de todo o terror, vitória por mais longo e difícil que o caminho possa ser, pois sem vitória não há sobrevivência."

"Não adianta dizer: Estamos fazendo o melhor que podemos. Temos que conseguir o que quer que seja necessário."

"Isto não é o fim. Não é sequer o princípio do fim. Mas é, talvez, o fim do princípio."

"A democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos."

"Política é quase tão excitante quanto a guerra, e quase tão perigosa. Na guerra você é morto uma vez, mas, em política, várias vezes."

"Não passamos de minhocas. Mas acredito ser uma minhoca que brilha."

"Sou um otimista. Não parece adiantar muito ser outra coisa qualquer."

"Um fanático é uma pessoa que não pode mudar de opinião e que não muda de assunto."

Após ter lido esse fantástico arsenal verborrágico que deverá ser usado pelos senhores vereadores nas batalhas para suas campanhas em 2012. Para evitar constrangimentos, convido os leitores a entrarem no site oficial da Câmara – camara.rj.gov.br. Vejam as fotos dos senhores edis e tentem adivinhar quantos deles saberiam como usar qualquer das frases sugeridas. Garanto um jogo hilário!  Ou que saibam algo sobre Churcill ou Clausewitz.

Vejo que a história, realmente, se repete sempre, principalmente neste alegre país tropical.

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