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Política

Eleições 2014

Em Hortolândia, o PSDB não tem vez

por Marsílea Gombata publicado 14/10/2014 05h08, última modificação 14/10/2014 11h15
Por que o município do interior de São Paulo, polo industrial e tecnológico próximo à capital, disse não a Alckmin
Joseh Silva
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Uma das entradas da cidade de Hortolândia, emancipada em 1991

Botão Eleições 2014De Hortolândia

Quem passasse há dez anos por Hortolândia encontraria outra cidade. Além de 60% das ruas não serem asfaltadas, o município tinha seu esgoto correndo por mais de 90 mil fossas. A maior parte dos condomínios em construção e das indústrias, que fizeram a economia de Hortolândia crescer de forma acentuada, não existiam. A cidade tinha uma fama ruim por conta do complexo penitenciário Professor Ataliba Nogueira, apelidado de “Carandiru Caipira”, e pelo estigma de ser uma cidade dormitório para quem trabalhava em municípios vizinhos, como Campinas.

As mudanças vivenciadas nos últimos anos tiveram um reflexo claro no dia 5 de outubro, primeiro turno das eleições deste ano. O município de 62 km² e 212 mil habitantes, emancipado em 1991, foi o único dos 649 municípios paulistas que votou contra a permanência de Geraldo Alckmin e do PSDB à frente do governo de São Paulo – o petista Alexandre Padilha obteve 3.455 votos a mais que o rival tucano, registrando 38,6% dos votos, contra 34,88%. A presidenta Dilma Rousseff também ficou à frente de Aécio Neves, candidato à Presidência pelo PSDB, na cidade: foram 42% dos votos válidos contra 23%.

Diante dos resultados, e da discrepância com o resultado geral das eleições (Alckmin obteve 57,31% dos válidos, contra 18,22% de Padilha), muitos se indagam sobre o que fez de Hortolândia um ponto petista em meio a mais de 600 municípios “tucanos”.

Para muitos, a bem avaliada gestão municipal do PT, inaugurada em 2005, é parte da resposta. “Moro na cidade há 20 anos. Na época em que Jair Padovani (PSDB) governou não fez quase nada, pavimentação, saneamento, nada. Quando Ângelo Perugini (PT) assumiu fez muita melhoria para a população”, disse Sérgio Luciano, 40 anos, taxista. “Acho que Alckmin não foi vitorioso aqui porque a prefeitura fez um trabalho decente”.

Da mesma posição compartilha o gráfico João Marcos Estefaneli, 33 anos. “O prefeito prometeu e fez: tirou todas as fossas e construiu uma rede de esgoto. Em relação ao asfalto também: em São Sebastião, bairro onde moro, era tudo esburacado, mas ele deu um jeito. Sem falar do jeito que Hortolândia vem crescendo”, disse. Estefaneli se referia às fábricas que se instalaram na cidade nos últimos anos. O capital de empresas como Magneti Marelli, Wickbold, Dell e IBM, integrantes do polo tecnológico que fez Hortolândia florescer, contrasta com a simplicidade interiorana das ruelas semi ou recém-asfaltadas, das carroças de verdura que passam vendendo pés de alface nas casas, assim como das fachadas semiacabadas, com muros de tijolo e cimento que anunciam em letras pintadas à mão a venda de picolés e “chup chup”.

No centro de Hortolândia, povoado por lojas de eletrodomésticos, farmácias e lanchonetes, alto falantes anunciam desde promoções de almoço a ofertas de fraldas. Ali é possível encontrar quem esteja ciente de desvios éticos atribuídos ao PSDB: “Mas, espera aí. Esse Alckmin não faz parte daquele grupo que superfaturou o trem lá de São Paulo? E ainda quer que vote nele?! Acho que o povo tá um pouquinho mais esperto e cansado da mesma conversinha, não é?”, disse, com raiva, o vigilante Marco Antônio da Costa, 40 anos. As críticas ao PSDB não o fazem um adepto do petismo. “Não votei no Alckmin e nem ninguém. Nem sei quem é Padilha. São tudo farinha do mesmo saco! Só votei mesmo foi na Dilma”.

Eleitor insatisfeito de Alckmin, o divulgador Eduardo Luiz de Souza, 33 anos, disse que as pessoas deixaram de votar no governador tucano devido à crise da água. “Está aí para quem quiser ver: existem bairros na periferia aqui que já não têm água. Na vizinha Sumaré há racionamento direto. Cada dia mais vem crescendo essa insatisfação”, afirma.

Além da polêmica em torno da má administração dos reservatórios do Sistema Cantareira, a educação também é vista como um ponto fraco dentro da gestão pessebista do estado. Entusiasmada com a primeira eleição da qual participou, a estudante Yohana Reis, 16 anos, disse ter se inspirado na opinião da mãe, professora, para votar. “Votei no [Paulo] Skaf [candidato do PMDB] porque Alckmin não vai bem quando se trata de educação. Minha mãe é professora da prefeitura, mas não concorda com o regime de trabalho ao qual seus colegas do estado são submetidos. Eu também já estudei em escola do estado e sei como é”.

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Enoque Leal Moura, presidente do PSDB em Hortolândia

Presidente do PSDB em Hortolândia, Enoque Leal Moura atribui à derrota da legenda na cidade à comunicação deficiente e a alguns erros estratégicos do partido. “O PT investe muito em informação e é muito forte na divulgação daquilo que faz. Eles têm uma base partidária muito forte na região, enquanto nós somos um partido frágil aqui, sem sede do diretório municipal. Acabamos falhando nessa comunicação com a população de Hortolândia", diz. "Além disso, não tivemos nenhum candidato em 2008 e 2012, ficando a militância sem poder votar no 45 para prefeito”, observou o maranhense nascido na cidade de Imperatriz.

Em uma tentativa de desafiar a hegemonia do PT em Hortolândia, ilustrada pelas dezenas de outdoors protagonizados por Dilma ao lado do ex-prefeito Perugini e de sua mulher, Ana, candidatos a deputado estadual e federal, Moura adota táticas inusitadas. Ele dirige seu Escort equipado com uma caixa de som no teto do veículo e com fé no partido: as dezenas de adesivos de Aécio e dos candidatos a deputado tucanos comprovam isso.

Orgulhoso, Moura faz questão de mostrar obras de escolas, postos de saúde e urbanização que teriam ajuda do governo do estado. “Sem contar o Corredor Noroeste, que liga Campinas até as cidades de Americana e Santa Bárbara d’Oeste. O governo do estado faz muitas coisas boas para nós”, afirmou Moura em frente à casa simples em que mora com os filhos e a esposa, na rua 24 de Maio, na Vila Guedes.

Para o atual prefeito de Hortolândia, Antonio Meira (PT), sucessor de Ângelo Perugini, o PSDB teve chance de fazer mais por Hortolândia, mas não fez. “Aqui em Hortolândia, eu diria, quase tudo o que o estado deveria fazer ele não faz. O PSDB teve a oportunidade na cidade. Foi governo municipal na mesma ocasião que era governo também em âmbito estadual e federal”, afirmou. Meira lembra que, durante a gestão tucana na cidade, o governo do PSDB mandou para Hortolândia “um presente de grego”: o presídio Professor Ataliba Nogueira. “Na gestão petista, eles quiseram mandar ainda as oito unidades da Febem para cá, e a população foi às ruas gritar “Não”. Hortolândia não ia aguentar mais oito unidades da Febem aqui, aí a gente ia desanimar”, disse Meira, que foi eleito em 2012 com 58,47% dos votos. “A nossa população vivia aqui com a autoestima baixa, pelo problema grave de segurança pública, pelo desemprego de 17%. Hoje, o desemprego fica em torno de 2%, depois de programas de incentivo a novas empresas na cidade”.

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Antonio Meira, prefeito de Hortolândia pelo PT

Hoje, a prefeitura – Meira fez questão de reforçar ao lado das assessoras, que estavam animadas com o fato de Hortolândia ter ‘entrado no mapa do Brasil’ por ter ido na contramão dos municípios paulistas –, atua principalmente nas áreas de saneamento, desenvolvimento econômico e infraestrutura, como a construção de três reservatórios contra enchentes, a pavimentação de 98% da cidade e o transporte social, cujo bilhete reduz o custo da passagem de ônibus de 3 para 2 reais. Somam-se a tais projetos iniciativas do governo federal como o Minha Casa Minha Vida, que chegou a um total de 3 mil unidades habitacionais em sua gestão, e o programa Mais Médicos, que levou para as cidades vizinhas de Sumaré e Campinas 27 médicos estrangeiros, a maioria cubanos.

Apesar das melhorias que o PT realizou em Hortolândia, o partido não é unanimidade. Maria Aparecida da Cruz, 58 anos, reconhece o trabalho da prefeitura, mas disse não ter votado em Alexandre Padilha por não concordar com alguns benefícios concedidos pelo governo: “Sou contra o Bolsa Família, e, para mim, a maioria apoiou o PT por causa dele”, disse sobre o beneficio, que atende 7.581 pessoas em Hortolândia, equivalente a 3,56% da população. “Acho que esse dinheiro é um incentivo para as mães ficarem em casa sem trabalhar. Eu, como nunca tive isso e sempre trabalhei, acho que todo mundo deveria ser assim. A gente tem que conseguir as coisas trabalhando mesmo, como aconteceu comigo”, observou a mineira nascida Araxá, dona de um bar no bairro de Jardim Santiago.

O acaso também pode ter ajudado o PT a derrotar o PSDB em Hortolândia. Fã do ex-governador José Serra, a cozinheira Nilza Pereira, 35 anos, lamenta não ter votado em Alckmin. Quando chegava à zona eleitoral onde vota, Pereira lembrou de ter deixado a “colinha” com o 45 de Aécio e os números dos candidatos tucanos em casa. Pediu uma indicação para a amiga, que lhe entregou um folheto de campanha com caricaturas e números de Dilma e Padilha. “Eu sabia que eles eram do PT, mas queria ter votado no Aécio e no Serra”, contou. Acabou votando no 13.

Como celebraram as assessoras do prefeito, ser um ponto vermelho na imensidão azul que concedeu vitória ao PSDB no estado, chamado jocosamente de "tucanistão", colocou Hortolândia no mapa. Para Meira, o atual prefeito da cidade, o resultado do último dia 5 funcionou como um aviso para Alckmin: “Creio que foi um sinal amarelo, que é para ele olhar um pouco mais para nós aqui”.