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"Em batalha de esfarrapados, Dilma tem ligeiro favoritismo"

por André Barrocal publicado 21/09/2015 06h23, última modificação 21/09/2015 12h45
Para cientista político e filósofo Marcos Nobre, sistema político retoma impeachment graças a racha empresarial, Temer e Lava Jato
Wilson Dias/Agência Brasil (17/09/2015)
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A filha de Hélio Bicudo, Maria Lucia Bicudo, e o jurista Miguel Reale Jr. entregam a Eduardo Cunha o pedido do impeachment de Dilma, sob os olhos de Carlos Sampaio, líder do PSDB na Câmara

Os deputados estão prestes a decidir se instauram ou não uma comissão para examinar um pedido de cassação de Dilma Rousseff. Uma reviravolta em Brasília. No fim de agosto, os líderes do “Fora Dilma” tinham resolvido centrar fogo no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), onde há uma tentativa de impugnar a candidatura da presidenta. O plano havia sido refeito por falta de apoio no Congresso e, principalmente, por resistência de empresários importantes. O que teria acontecido agora? 

“O sistema político partiu para confrontar o PIB, é surpreendente”, diz o cientista político e filósofo Marcos Nobre, ao enxergar a explicação em uma teia de interesses relacionados à política, aos desdobramentos da Operação Lava Jato e à economia. Uma combinação influenciada, segundo ele, pelo comportamento dúbio por parte do vice de Dilma, Michel Temer.

No campo político, Nobre vê “perda de paciência” com a incapacidade do PSDB de resolver seu racha interno. Os presidenciáveis tucanos Aécio Neves, José Serra e Geraldo Alckmin têm posições diferentes. Aos dois primeiros, convém a queda de Dilma. Serra sonha em ser protagonista em um governo Temer, enquanto Aécio quer nova eleição para chegar ao Planalto. Para Alckmin, melhor mesmo é esperar por eleições normais em 2018.

Por trás da impaciência com os tucanos, talvez esteja aquela massa amorfa de partidos batizada por Nobre de “peemedebismo” no livro Imobilismo em Movimento. O “peemedebismo” junta políticos de vários partidos adversários de transformações sociais e que só cuidam de seus próprios negócios em Brasília. A exata descrição de uma penca de parlamentares enrolados em falcatruas na Petrobras.

No Congresso, há quem aposte ser possível domar a Lava Jato e salvar parlamentares, a começar pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha, na hipótese de Dilma ser cassada. “A Lava Jato tem sido um desorganizador do poder, é um dos elementos nesta nova onda do impeachment. Mas não vejo possibilidade de ela ser abafada. Do ponto de vista social, isso não será aceito”, afirma Nobre.

Os impacientes parecem ter se animado com os movimentos de Temer desde que este tomou umas cotoveladas de Dilma e perdeu o comando da articulação política do Palácio do Planalto. Magoado, Temer não hesitou em participar de um encontro organizado por um movimento engajado no “Fora Dilma”, ocasião em que disse ser difícil terminar um mandato presidencial com a alta impopularidade da petista.

Os passos de um aliado empresarial de Temer reforçaram a desconfiança de que o vice estaria pronto para assumir o lugar de Dilma. Paulo Skaf, da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), converteu-se em um militante crítico do governo, a ponto de colegas de PIB apontarem nele, nos bastidores, excesso de ativismo político. “Houve uma racha no empresariado, e a Fiesp é parte disso”, afirma Nobre.

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Dilma durante visita às obras da Ferrovia Transnordestina, no Piauí, no último dia 11
Este racha empresarial, segundo o filósofo da Unicamp e do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), é um dos fatores a fomentar o impeachment entre os deputados. Há algumas semanas, empresários como Luiz Carlos Trabuco (Bradesco), Roberto Setúbal (Itaú) e Paulo Cunha (Grupo Ultra) manifestaram-se publicamente contra o “Fora Dilma”.

Agora já há quem não tenha pudor de defender o impeachment. Em entrevista recente ao Estado de S. Paulo, Flavio Rocha, da Riachuelo, disse que tirar Dilma do cargo seria a melhor saída para atual crise econômica e política: “Uma agonia curta seria um trauma menor”.

Ex-deputado constituinte, Rocha tem vínculos com setores do PMDB. É amigo do ministro do Turismo, seu conterrâneo potiguar Henrique Alves, um ex-presidente da Câmara sem apreço pela chefe. Na última eleição, a Riachuelo doou 300 mil reais. Berço de Cunha, o PMDB do Rio ficou com 100 mil. Outros 160 mil foram para Skaf, o aliado de Temer que disputou o governo paulista.

Apesar da retomada do projeto impeachment por parte de políticos e, ao que parece, de certos empresários, o cenário confuso tenderia a beneficiar a presidenta, segundo Nobre. O acúmulo de divisões entre os adversários seria, aliás, o único meio de uma enfraquecida Dilma sobreviver. “Há uma batalha entre dois exércitos esfarrapados, mas a Dilma ainda tem um ligeiro favoritismo. Todo mundo que está no governo leva vantagem, mesmo que cometa erros.”