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Ecos de um império enfraquecido

por Coluna do Leitor — publicado 27/09/2010 16h13, última modificação 27/09/2010 16h55
Daniele Barizon, leitora de CartaCapital, dá sua contribuição ao site com um artigo sobre o andamento da corrida eleitoral e a mídia

Por Daniele Barizon*

Os veículos de comunicação sempre tiveram destaque na estrutura do discurso político, seja como instrumentos de campanha e/ou ferramentas para manutenção de governos. Na Idade Média, o poder da burguesia sobrepôs-se às leis e aos privilégios da ordem feudal absolutista, impulsionando o desenvolvimento de vastos centros urbanos. Tal conformação, por sua vez, obrigou a uma readaptação à hierarquia vigente, em que os MCM – jornais, revistas, rádio e mais tarde, a TV – assumiram papel preponderante. Dilatava-se o alcance, ao mesmo tempo em que apurava-se novos e eficientes métodos de se fazer política.

No século XX, a mídia seria eficaz nas mãos de regimes totalitários, desde a revolução bolchevique ao nazismo e o fascismo, nos quais o culto da personalidade, aliado ao domínio da imprensa, garantiu-lhes a soberania. Por aqui, sob a batuta de Vargas, cabia ao DIP desempenhar a função de censor.

Após a II Guerra, entretanto, quando o ambiente democrático franqueava a possibilidade de escolha em várias partes do mundo, os discursos autocráticos tiveram que dar lugar aos de persuasão. Necessitava-se, portanto, convencer o eleitorado de que o programa apresentado era o que melhor se adequava aos anseios daquela
época.

Verdade e honestidade, através de cobertura imparcial e utilitária, porquanto fossem o caminho sensato ao jornalismo, passaram longe das estratégias de grandes conglomerados, assim como dos que viriam a se tornar grandes ao favorecer o retorno de sistemas autoritários. A ditadura militar brasileira de 64 a 85, como é fartamente documentado, beneficiou seus fiéis colaboradores – alguns dos quais, por reconhecimento, suponho, já lhe auferiram o status de “ditabranda”.

Mesmo no período posterior, as relações continuaram estreitas. Concessões de rádio e TV foram distribuídas, proliferaram campanhas de desqualificação de candidatos esquerdistas, debates eram estrategicamente editados ou desapareciam da pauta.

A tese apocalíptica da agulha hipodérmica (em que os meios possuem total controle sobre o pensamento e as ações da massa) certamente já caiu em desuso. O que se busca, hoje, é produzir impacto capaz de alterar o rumo natural dos acontecimentos. Ocorre que a sucessão de absurdos faz a credibilidade decrescer. A simbiose entre empresas de comunicação e poder prevalece. O cenário, por outro lado, é distinto. O espectador não é e não será mais passivo, vozes dissonantes se ampliam em defesa da liberdade e das instituições. A Internet surgiu no contexto e ajuda a potencializá-las.

A velha guarda se agita, tentando recuperar o prestígio enfraquecido. Os limites da ética, sempre por um fio, são jogados a escanteio, principalmente, em ocasião eleitoral. Povoam-se os noticiários de escândalos, alguns requentados de anos anteriores, na esperança de desconstruir a imagem de um governo com índices altíssimos de aprovação, que tem a seu favor a estabilidade econômica, o acesso ao crédito e a inclusão social. Espalham-se, a cada dia, rumores terríveis sobre as peripécias de um déspota soberbo, unido a uma terrorista sanguinária e assassina, para perpetuar sua ascendência. Personagens risíveis, nascidos da mente da fina flor da ‘intelectualidade’ girondina, que trabalha em ritmo frenético assinando manifestos, comparecendo a atos de repúdio – que ironia! – em clubes militares e propalando artigos fartos de mentira e de ódio.

Dos que acolhem os argumentos, ouve-se a repetição de expressões como “o povo não sabe votar”, “quem tem mais escolaridade vota em Serra” e “as cabeças pensantes estão com Marina”, entre outros ditos carregados de prepotência, arrogância, preconceito e ignorância. Menosprezo ao julgamento de 80% da população que respalda a atual administração e à opção de nada menos que 60 milhões de votantes.

Quer se admita ou não, estamos vivendo um momento histórico. O povo, este povo depreciado pela ‘minoria sábia’, nunca esteve tão consciente quanto nos últimos anos, em que ousou superar o medo e dispensar as ‘sugestões’ dos diletos ‘formadores de opinião’. O Brasil nunca foi tão nosso. Muito, é obvio, ainda precisa ser feito. O processo de evolução é contínuo. Pleito definido, a batalha estará só começando. Será dura, será suja. Mas havemos de nos sair bem.

*Daniele Barizon é graduanda em comunicação social e editora do blog www.neointerativo.com

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