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Política

É urgente formar uma frente contra o retrocesso

por Gilberto Maringoni — publicado 31/03/2015 03h40, última modificação 31/03/2015 14h22
Dilma conseguiu um feito de difícil construção: diante de um ataque da direita, consegue ser repudiada pela esquerda; nenhuma voz de peso vem a público defender o kit ultraortodoxo que apresenta
José Cruz/ Agência Brasil

Em debates públicos realizados nos últimos dias em São Paulo, surgiu a ideia de constituir uma frente política para se contrapor à maré reacionária que se espalha pelo País.

Os sinais mais evidentes dessa vertente foram as impressionantes marchas do dia 15 de março, em diversas cidades brasileiras, com destaque para a capital paulista. Colhendo um descontentamento crescente com a política econômica adotada pela gestão Dilma Rousseff, as agitações sequer tocam nesse tema. Seus focos são a corrupção e a perspectiva de se iniciar um processo de impeachment.

Parêntesis. As descobertas da operação Zelotes, um rombo equivalente ou superior ao da Petrobrás, estão sendo devidamente enviadas para o subterrâneo do noticiário. Roubar o Estado sem que os ladrões sejam petistas ou aliados rapidamente vira não notícia, em mais um caso de udenismo seletivo. Fecha-se parêntesis.

A pregação conservadora recebe ampla cobertura midiática e tem ecos no Congresso Nacional, onde os presidentes do Senado, Renan Calheiros, e da Câmara, Eduardo Cunha, operam uma verdadeira motoniveladora parlamentar visando emparedar o Poder Executivo. Com sucesso, diga-se de passagem.

Além de desfraldarem a bandeira de uma reforma política pró-mercantilismo eleitoral, o duo coloca em pauta a supressão de vários direitos trabalhistas – via MP 4330, que legaliza as terceirizações na contratação de mão de obra -, monta a CPI da Petrobrás, decide convocar semanalmente cada um dos 39 ministros para depor em plenário, ameaça a nomeação de juízes para o STF, clama por mais ministérios (pregando a necessidade de reduzir o número dos mesmos), ameaçam votar a redução da maioridade penal, bloqueiam o avanço de temas como a criminalização da homofobia e a legalização do aborto e por aí vai.

Diante de um governo que voluntariamente se entregou a uma espécie de haraquiri político para ganhar a confiança do “mercado”, a dupla dinâmica parlamentar pinta, borda e ainda costura para fora. Ou seja, de membros da chamada base aliada, flertam e articulam cotidianamente com a oposição de direita, PSDB, DEM e PPS à frente.

Como pano de fundo, há uma espetacular recessão em construção, autorizada pela presidente e por seu partido. A obra é tocada pelo ministro da Fazenda Joaquim Levy. Contração do PIB, desemprego, queda da renda, cortes orçamentários, juros nas alturas e o conhecido rosário ultraliberal são apresentados como a maravilha curativa para os males nacionais.

Em tempos de fundamentalismo religioso, nada melhor que a promessa de sacrifícios dolorosos para uma redenção na forma de bonança econômica mais adiante.

O curioso é que não há plano algum. Brande-se o abismo de onde nascerá a luz. Prega-se a contração como saída para a expansão. Até agora, a única resultante efetiva, a desvalorização cambial que pode aumentar a competitividade dos produtos brasileiros no exterior, não necessitaria de tamanho solavanco para ser implementada.

Rodeando a cena, há um gigantesco escândalo de financiamento a partidos políticos, cujo centro é 13% do PIB, codinome da Petrobrás.

Ataque da direita, repúdio da esquerda

Dilma conseguiu um feito de difícil construção: diante de um ataque da direita, consegue ser repudiada pela esquerda. Nenhuma voz de peso – nem mesmo seu antecessor ou membros de seu partido – consegue vir a público defender o kit ultraortodoxo que apresenta. O arrocho é repudiado até mesmo pela manifestação convocada pela CUT, MST e UNE, que reuniu 40 mil pessoas debaixo de chuva na tarde paulistana do último dia 13. É parcela microscópica do impressionante eleitorado de 54 milhões de brasileiros que acreditou em sua pregação desenvolvimentista de campanha.

Gramsci cunhou a expressão “empate catastrófico” para situações de dualidade de poderes. Em 2015, evoluímos para o enrosco catastrófico.

A presidenta comprou o peixe de que a situação estaria calamitosa no final do ano e deu corda para que um representante de um dos maiores bancos privados do mundo ditasse as regras da economia. E o incrível: defende o auxiliar de forma enfática.

Para isso, ensaia voltar atrás em legislação sancionada em 2014, que cria novo indexador para o pagamento das dívidas de estados e municípios. Compra briga com os prefeitos de São Paulo, Rio e de centenas de municípios e de alguns governadores.

Com a erosão de sua base original – os trabalhadores urbanos e os pobres – a mandatária apega-se assim à única marca de sua gestão com possibilidade de sustentá-la, o ajuste fiscal.

É fantástico. Ela vê como salvação o que seus eleitores majoritariamente veem como perdição.

A insatisfação popular com Dilma, seu governo e seu partido ainda não atingiu o pico. Com a deterioração da situação econômica, o desalento e a insatisfação podem se transformar em raiva.

O novelo está tão embaraçado que se torna quase impossível saber onde está a ponta - ou as pontas – a puxar para desatar as dezenas de nós na linha.

Nesse imbróglio, uma pergunta: como formar a frente contra o retrocesso, a direita e o fundamentalismo golpista? Quem participa? Propostas surgem. Este pode entrar, aquele também, o outro ali não, fulano é bem vindo, sicrano nem pensar...

Não é um bom começo começar as tratativas tendo comportamento de bedel para ver quem pode ou não passar pela catraca dessa necessária aliança. Melhor é verificar os pontos que podem unificar um grande e variegado contingente de forças políticas, entidades, partidos, personalidades etc. Para começar, o que vai ser defendido? O que vai ser combatido?

O retrocesso seria o PMDB, o PSDB, o DEM, os monopólios de comunicação, o mercado financeiro e outros quetais? O avanço seria o governo Dilma? É possível para a esquerda aceitar o ajuste levyano em nome da conquista de direitos sociais? De fato, o enrosco é grande. Nessas horas, vale a pena verificar quem já lidou com situações tão ou mais dramáticas quanto.

O maldito Mao

Vamos a um autor maldito e demonizado nas últimas décadas. Ele está longe de ser unanimidade, mas teve inegável êxito no que fez. Vamos ao velho Mao Tsétung.

Em agosto de 1937, no verdor de seus 44 anos, o dirigente chinês pronunciou uma conferência na Academia Militar e Política Anti-Japonesa de Ien-na. Embora não fosse colônia, seu país vivia sob o espectro da dominação nipônica, doze anos antes da revolução socialista. O conteúdo da intervenção foi transformado num livreto que se tornou um clássico da tática política, chamado Sobre a Contradição.

A certa altura, o camarada Mao comenta:

“No complexo processo de desenvolvimento de um fenômeno existe toda uma série de contradições. Uma delas é necessariamente a contradição principal, cuja existência e desenvolvimento determinam a existência e o desenvolvimento das demais contradições ou agem sobre elas”.

Mais adiante, ele emenda:

“Não se devem tratar as contradições de um processo como se fossem todas iguais. É necessário distinguir a contradição principal das contradições secundárias, e mostrar-se particularmente atento na descoberta da contradição principal”.

A conclusão do líder comunista é meio lisa, mas aqui vai:

“Uma vez dominada a contradição principal, todos os problemas se resolvem facilmente”.

Pode ser que os problemas de se fazer expulsar um exército invasor, realizar uma revolução em um imenso país atrasado, construir um novo Estado e acabar com a fome endêmica de centenas de milhões de pessoas fosse algo mais tranquilo do que lidar com o “mercado” e com Eduardo Cunha. Há controvérsias sobre esse ponto.

Nada é fácil no País de Dilma

Nada é fácil no Brasil de Dilma Rousseff, a começar pelo gênio que contam ter a mandatária.

É preciso verificar, em meio ao cipoal de problemas e – vá lá – contradições, o que pode unificar uma base social progressista.

Certamente não é o “Fora Dilma”. O “Fora PMDB” nada resolve neste momento.

A presidenta está fragilizada. Mas ela precisa reunir mercadoria em falta no Planalto – coragem – para dar um salto.

A direita quer o ajuste fiscal, mas não quer Dilma.

A presidenta não ganhou a simpatia do capital financeiro com seu ajuste destinado a conquistar sua confiança. A indústria está apreensiva com os rumos do aperto geral. Prefeitos e governadores aos poucos sentem nas contas públicas as maravilhas do arrocho. E o povo começa a ver em Dilma a encarnação do estelionato eleitoral por causa do ajuste.

Onde estaria a tal “contradição principal” nessa geleia toda? A contradição principal não está no Congresso. A contradição principal não está no ministério de direita. A contradição principal não está no escândalo da Petrobrás. A contradição principal é o ajuste.

É ele que fragiliza o governo, confunde seus apoiadores, deteriora a situação social, traz desalento à população e abre espaço para a direita ganhar as ruas.

O ponto programático a ser definido para se compor uma frente contra o retrocesso é a oposição radical ao ajuste ultraliberal, com seu pacote de redução de direitos, recessão e alta dos juros. Trata-se de unificar forças para riscá-lo da agenda nacional.

A presidenta terá coragem para mudar de rota e demitir seu auxiliar nomeado pelo Bradesco? Não se sabe. Mas somente o fim do ajuste pode desanuviar o ambiente, entusiasmar os setores populares e dar curso à resolução de outros problemas. O resto pode vir mais ou menos facilmente, como lembrava o velho autor maldito.

* Gilberto Maringoni é professor de Relações Internacionais da UFABC e ex-candidato a governador de São Paulo pelo PSOL, em 2014