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Política

Crise da água

E Alckmin inaugurou o volume morto da Cantareira

por Luis Nassif publicado 16/05/2014 11h11, última modificação 16/05/2014 11h40
Melhor do que esse episódio foi apenas José Serra, na campanha de 2010, inaugurando uma maquete que ligaria Santos a Guarujá. A obra jamais saiu do papel
Governo do Estado de São Paulo
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O governador Geraldo Alckmin durante a inauguração do "volume morto" do Cantareira

Há um vício atávico no jogo político brasileiro: a falta de hábito de trabalhar com indicadores consolidados de análise de desempenho de governantes. Existem muitos indicadores, mas há um uso torto da oposição - em nível federal ou nos estados - estimulado por um padrão de crítica midiática.

Hoje em dia, há  indicadores confiáveis de saneamento, educação, saúde, mortalidade infantil, de renda, de segurança, indicador para cada gosto.

No entanto, para quem quiser criticar, o padrão de acompanhamento de indicadores é o seguinte:

Indicadores de obras: se 80% das obras estiverem prontas, dê destaque para os 20% incompletos.

Quando se contrata uma obra, o pagamento é feito após a entrega de cada trecho contratado. Em vez de acompanhar o desempenho físico da obra, acompanhe a liberação orçamentária. Ela sempre estará mais atrasada que o ritmo de construção.

Apresente as estatísticas quantitativas das obras. Uma grande obra completa vale o mesmo que a pequena obra que não saiu do lugar.

Se um estádio estiver com as obras estruturais prontas, com o acabamento completo, com as arquibancadas entregues, com a área social reluzindo, mas ainda não retirou os tapumes, considere como obra incompleta e não entregue.

Na outra ponta, se quiser turbinar as obras, o roteiro é o seguinte:

Mostre o volume total de recursos liberados. Uma obra gigantesca - como a de Belo Monte - compensará centenas de obras que não saíram do papel.

Inclua nas estatísticas gerais de obras programas que nada tenham a ver com investimentos públicos, como financiamentos habitacionais.

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Na falta de uma crítica técnica e de um acompanhamento sistemático da gestão pública, o que vem ocorrendo é o reforço de um jogo político antigo, o das inaugurações. É o momento palpável, em que o governante tem a mostrar algo concreto e a mídia cobre.

Nesse universo de inaugurações vazias, no entanto, o campeonato do ridículo foi batido, ontem, pelo governador paulista Geraldo Alckmin.

Seca recorde e falta de planejamento obrigaram a Sabesp (a companhia de saneamento do estado) a recorrer ao volume morto de água do sistema Cantareira. Recorre-se a ele apenas em situação de emergência.

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Em vez de tratar a questão com a gravidade que o assunto exigia, inclusive com manifestações de autocrítica e pedidos de desculpa à população, Alckmin programou uma grande festa comemorativa do primeiro jorro do volume morto nos encanamentos da Sabesp.

Foram distribuídos convites para convidados VIP, convidando "para o início do bombeamento da reserva estratégica de água para o sistema Cantareira".

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Os telejornais deram espaço nobre às palavras de Alckmin, à sua postura grave, mostrando como, graças à eficiência do governo do estado, o paulistano terá mais 6 meses rezando para as chuvas venham. Se não vierem, nem todos os caminhões pipa do país darão conta da tragédia.

Melhor do que esse episódio foi apenas José Serra, na campanha de 2010, inaugurando uma maquete que ligaria Santos a Guarujá. A obra jamais saiu do papel. Mas a maquete está impávida nos arquivos dos telejornais, para quem duvidar.