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Política

Marcos Coimbra

Drible nas crises

por Marcos Coimbra publicado 28/12/2011 09h30, última modificação 29/12/2011 08h14
Ministros em queda e cena europeia exigem esforço extra para manter o prumo
dilma

Dilma terá de lidar com o maior problema de política pública: um sistema de aposentadoria voraz, que ameaça estourar o orçamento e danificar a economia..Foto: AFP / Nikolay Doychinov

O ano de 2011 foi bom para o governo. Mas poderia ter sido melhor. Para a oposição, trouxe principalmente más notícias.

Quando começou o ano, o maior desafio que Dilma Rousseff tinha pela frente era assumir o lugar de Lula e não deixar que a maioria da população, que o aprovava enfaticamente, sentisse saudade. Ficasse com a sensação de haver perdido algo que prezava.

Isso, ela conseguiu e não foi um feito desprezível.

Se Lula tivesse terminado o mandato com perto de 90% de aprovação popular “apenas” pelas realizações objetivas de sua administração, a tarefa de Dilma já seria grande. Mas ele era também um presidente querido. O País sentia por ele afeição, seja pela história de vida, seja por sua capacidade de estabelecer uma comunicação calorosa com o cidadão comum. Para qualquer político, por mais experiente e habilidoso que fosse, seria um problema suceder alguém como Lula. Imagine-se para ela.

 

No exterior, Dilma é considerada uma importante liderança, que assumiu com naturalidade o papel de porta-voz de um Brasil com mais protagonismo. Dentro do País, seu trabalho à frente da Presidência é aprovado por cerca de 80% dos brasileiros. Quatro em cada cinco estão satisfeitos com o que ela faz. Os que reprovam o governo representam algo perto de 10%, um cidadão em cada dez.

Dilma chega ao fim de 2011 com muito que comemorar.

Resistiu ao desgaste de uma série de problemas que começaram em junho, com a demissão do ministro-chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, e continuaram durante todo o segundo semestre. Seis ministros acabaram substituídos, quase todos por suspeita de irregularidades, algumas graves, outras menores. Em nenhum episódio foi vista como conivente ou tolerante. Atravessou-os como a maior interessada no seu esclarecimento, como quem queria aproveitar cada um para aprofundar a “faxina” na administração federal.

 

Enfrentou uma campanha para fazer da corrupção um tema capaz de mobilizar a opinião pública contra o governo. Não faltaram patrocinadores, das grandes corporações da mídia a algumas associações empresariais e grupos de pressão da direita. Fazia tempo que não se via tanta gente, nos principais veículos de comunicação, batendo, ao mesmo tempo, na mesma tecla.

Reagiu com competência ao agravamento da crise internacional ao adotar políticas destinadas a manter o consumo interno e aproveitar as oportunidades para impulsionar o crescimento da economia brasileira.

A maioria da população esperava que Dilma fizesse um governo de continuidade. Mais da metade votou nela por isso e muitos de seus não eleitores desejavam o mesmo. Não foi, aliás, por outra razão que seu adversário no segundo turno procurou se caracterizar como igualmente comprometido com a preservação do que Lula tinha feito. Enquanto manteve sua campanha em nível racional, Serra bem que tentou assumir o papel. Quem não se lembra dele dizendo que era o “Zé que vai continuar a obra de Lula”?

Prosseguir o trabalho de Lula tinha diversos significados: não interromper políticas claramente vinculadas a ele (como o Bolsa Família, o Prouni, o Minha Casa Minha Vida), insistir em uma política econômica comprometida com a elevação do consumo, continuar o esforço em prol da expansão do emprego e da renda. Se a expectativa era essa, Dilma a atendeu: chegamos ao fim de 2011 do modo como a população, no essencial, queria.

Em relação à economia, as pessoas se sentem razoavelmente tranquilas. De forma geral, acreditam que o nível do emprego será preservado e esperam que as condições da vida familiar melhorem nos próximos meses. A maioria sabe que existe uma crise internacional e se inquieta com ela, e teme a inflação. Mas tende a concordar com o que diz a mídia internacional, que estamos em condições mais favoráveis do que quase todo o mundo para enfrentá-la.

Quem olha as pesquisas de opinião espanta-se com o quase desaparecimento do desemprego como preocupação nacional. Hoje, é significativo apenas em regiões muito pobres, e tende a se tornar o quarto ou quinto no ranking dos problemas do País.

 

Enquanto permanecem preocupadas com a saúde e a precariedade da infraestrutura de transportes, os principais desafios dos governos, da União aos estados e municípios, as pessoas se interessam cada vez mais pela educação de qualidade. E na maioria tendem a dizer que o acesso a ela melhorou com Lula.

O que é realmente importante na avaliação de um governo?

Se o País vai fundamentalmente bem, se o desemprego cai, a educação cresce, existe um programa habitacional de grande escala, a população carente tem acesso a programas de complementação de renda, se as pessoas estão confiantes em relação ao futuro, qual é a surpresa de termos um governo aprovado? Qual o mistério do governo Dilma ser um dos mais bem avaliados do continente?

Há quem se espante com a falta de “indignados” em nossa paisagem política. Sua inexistência é lamentada por alguns, desde os que supõem que o Brasil teria uma espécie de obrigação de tê-los, pois estão na moda nos países desenvolvidos, aos que gostariam que enchessem as praças para enfraquecer o governo.

Mundo afora, “indignação” rima com o sentimento de que o governo não responde à população, se coloca contra ela. É esse o combustível que levou tanta gente aos protestos em diversos países. E é o que não temos no Brasil. Salvo as exceções de praxe, a sociedade brasileira não se sente alijada do governo Dilma, não se percebe em antagonismo a ele, não vê a presidenta como inimiga. “Indignar-se” contra quem, se ela é aliada?

 

Para a maioria, se Dilma tivesse se limitado a continuar o que herdou de Lula já estaria bom. Mas não seria justo dizer que o governo só fez isso. Apesar dos problemas do ano, algumas inovações foram ensaiadas. Na área social, com um aprofundamento do Bolsa Família por meio do Brasil sem Miséria. Na política econômica, com uma nova política industrial. Recebida com má vontade por alguns setores, ela tem se mostrado correta, exatamente onde tinha sido mais condenada, na indústria automobilística. Ao que parece, terá sucesso na atração de novos investimentos de larga escala.

O ano de 2011 não foi bom para as oposições. A eleição de 2010 havia sido negativa. As vitórias nas disputas esta-duais, onde basicamente mantiveram (ou reconquistaram) alguns governos, não compensaram a terceira derrota para o PT na presidencial, a perda de espaço na Câmara e a redução das bancadas no Senado. Sua presença na política nacional diminuiu e elas se estadualizaram.

O mau desempenho continuou a provocar consequências ao longo do ano. A mais nítida é o tamanho que alcançou o PSD, criado por Gilberto Kassab com o intuito principal de acomodar a parcela serrista do DEM, mas que cresceu muito além disso. Tornou-se um desaguadouro para diversos tipos de políticos, em especial os que queriam se aproximar do governo federal. Com isso, de 109 deputados que, juntos, PSDB, DEM e PPS haviam elegido, os três foram a 87. Sua participação na Câmara caiu de 21% para 17%. Somados, ficaram do tamanho que sozinho o PT tem.

No PSDB, esse enfraquecimento foi acompanhado por conflitos internos cada vez mais explícitos. O aecismo venceu o confronto com o que restava da ala ligada a Serra pelo controle da máquina partidária, mas a briga não terminou e vai longe.

Menor e dividido, o PSDB confunde-se na procura de um discurso. Ora se imagina pronto para expressar o “Brasil pós-Lula”, ora acha que precisa viver em permanente homenagem às “realizações do governo Fernando Henrique”. Não sabe se vai adiante ou se volta atrás 20 anos.

Talvez apenas para consumo externo, suas lideranças dizem crer que sofreram três derrotas para Lula por não haver feito a devida valorização da “herança de FHC”. Que o erro teria sido não lhe dar o merecido destaque.

 

A premissa é equivocada. Ao contrário do que pensam, a população conhece e tem uma avaliação da “herança de FHC”. Dela inteira e não apenas das partes “boas”, como o real, a responsabilidade fiscal, alguns aspectos da política de saúde e de educação. Ela pôs tudo na balança, os acertos e os erros, o lado bom e o mau de Fernando Henrique Cardoso, o que lembrava do Brasil que éramos, e fez o julgamento negativo que conhecemos.

Serra e Alckmin sabiam disso e não foi por outra razão que suas campanhas deixaram de lado a rememoração dos governos de FHC (especialmente do segundo). É difícil imaginar que os tucanos sustentem a tese até 2014. Mas, se a levarem mesmo a sério, teriam uma dúvida a menos: o candidato a presidente do PSDB seria óbvio. Se a intenção é reescrever o passado, para valorizar a herança de Fernando Henrique, ninguém melhor que o próprio para fazê-lo. Por que precisariam de um preposto?

O ano de 2012 será de eleições municipais. O que tende a ser positivo para o governo federal (e os governadores). O motivo é que o interesse e a atenção da população muda de foco e passa a se concentrar na cidade e seus problemas. Em vez de se preocupar com o que fazem presidente e governador, o assunto principal passa a ser o prefeito.

De FHC para cá, a consequência é que os presidentes sempre melhoraram de avaliação nos anos de eleição municipal. Em 1995, ele terminou com 41% de avaliações positivas, e chegou ao fim de 1996 com 47%. No segundo mandato, o mesmo se repetiu, apesar do patamar mais baixo: teve 16%, em dezembro de 1999, e foi a 24%, um ano depois.

No primeiro mandato de Lula, a melhora entre o fim do primeiro e do segundo ano, quando aconteceu a eleição municipal, foi parecida com a que seu antecessor havia experimentado: as avaliações positivas subiram discretamente, de 42% para 45%. Mas ficou como nunca evidente no segundo mandato: Lula tinha 50%, no fim de 2007, e foi a estratosféricos 70%, um ano depois.

 

As discussões entre os candidatos a prefeito costumam poupar o presidente, pela boa razão de que nenhum quer se mostrar incapaz de dialogar com ele. Preferem se apresentar como tendo “trânsito”- em Brasília, a fim de trazer benefícios para suas cidades, eles raramente hostilizam quem está no Planalto.

Isso se acentua quando o presidente é popular e conta com a simpatia do eleitorado local. Como aconteceu com Lula- em 2008. Ao ver seus índices de aprovação, os candidatos de todos os partidos, inclusive os de oposição, evitaram qualquer crítica ou confrontação com o presidente. O que vimos, ao contrário, na maioria das cidades, foi uma concorrência para escolher o mais lulista.

O resultado foi que Lula começou o ano bem e terminou com recordes. Houve uma espécie de “círculo virtuoso”, em que a boa avaliação de hoje impulsionava a de amanhã, pois inibia o questionamento. Será que o mesmo vai acontecer com Dilma? Ou ela será a primeira exceção ao que parece ser uma regra de nosso sistema político?

Com uma aprovação superior à de todos seus antecessores em momento semelhante, não há por que esperar que 2012 seja diferente para ela. Se 2011 foi um bom ano para o governo, 2012 tem tudo para ser melhor. •

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