tamanho da fonte minímo médio máximo

Política

Wálter Maierovitch

Violência

02.12.2010 17:25

Diversionismo e desassociação criminal

No Rio, foram marcantes algumas falhas operacionais. Mas elas não derivam de acordo com o crime organizado. Por Wálter Maierovitch. Foto: Antonio Scorza/AFP

O  diversionismo é a arma utilizada para reduzir a importância, embaçar o brilho e colocar em dúvida o êxito da atuação das forças de ordem no estado do Rio de Janeiro. Provocadas e desafiadas por uma “confederação criminal” formada por facções de matriz mafiosa, as polícias e as Forças Armadas lograram sucesso nas ações repressivas na Vila Cruzeiro e no Complexo do Alemão. A propósito, essa repressão ensejou as reconquistas do controle social e do espaço físico.

Com artes do mitológico Procusto, tem sido afirmado que a “guerra” declarada pelas facções criminais contra o Estado e contra a sociedade civil originou-se do fato de o governo Sérgio Cabral priorizar medidas de contraste às associações denominadas Comando Vermelho (CV) e Amigos dos Amigos (ADA) e de se omitir relativamente às organizações paramilitares, chamadas de milícias pela população.

Parênteses: as milícias foram criadas pela “banda podre” da polícia fluminense. Elas dominam territórios, cobram o pizzo (taxa de proteção da Cosa Nostra exigida dos moradores, comerciantes, prestadores de serviços e industriais), obrigam pagamentos de comissões nas locações e vendas imobiliárias, comercializam produtos piratas e drogas. Levados em conta o número de integrantes e o controle de áreas, as milícias já rivalizam com  o CV. Como o CV e a ADA seguem o horizontalizado modelo da Camorra italiana, as milícias assemelham-se a Los Zetas mexicanos.

Não faltam, ainda, os boatos sobre um acordo tácito celebrado, à véspera da tomada do Complexo do Alemão, entre o governo e o crime organizado, como ocorreu em 2006 no estado de São Paulo. Pelo avençado, os criminosos abdicaram da resistência armada em troca da fuga. E a vox nullius ecoada sustentava que o acordo interessava aos governos estadual e federal pelo  grande risco de derramamento de sangue inocente.

No Rio, foram marcantes algumas falhas operacionais. Por exemplo, os 007 dos serviços de inteligência estimaram em 600 o número de membros armados do CV que estavam prontos a resistir à invasão. Destes, apenas 23 foram presos. Os demais, inclusive os chefões Fabiano Atanázio da Silva, vulgo FB, e Roberto de Souza Paz, apelidado de Mica, teriam fugido por uma galeria de águas pluviais, de 2 metros de altura por igual medida de largura. E na fuga os criminosos teriam passado por baixo da pista da estrada do Itararé, onde estavam estacionadas as tropas do Exército.

Não é correto, tecnicamente, fazer-se a separação entre CV, ADA e milícias. Todas elas são espécies de um mesmo gênero, ou seja, são organizações com matriz mafiosa porque controlam, em áreas certas, os negócios, submetem os membros às suas leis, difundem o medo e perseguem sempre o lucro. As UPPs, pelo informado, objetivam acabar com uma espécie de secessão, caracterizada por um sistema de poder próprio. Ou, como dizia o constitucionalista de Mussolini, jurista Santi Romano, são organizações que estabelecem um “poder paralelo”. O certo é que o governo tem poder discricionário na escolha da melhor estratégia de implantação das UPPs. Com isso não está a conceder “bill de indenidade” para as milícias.

As falhas operacionais na ocupação do Complexo do Alemão derivaram da falta de conhecimento do fenômeno e isso não significa acordo com o crime organizado. O diversionismo em curso só aproveita ao crime organizado. Ele quebra a confiança dos cidadãos nas forças do Estado. Durante anos assistiu-se, nas correlações entre associações criminosas e membros escravizados da comunidade, um vínculo de solidariedade constituído pelo medo. E tal vínculo acabou de ser desfeito com as retomadas.

Não existe no projeto de UPPs previsão para instituição, por lei a ser criada, da “desassociação”. Ou seja, a possibilidade de o jovem mudar de lado e ser beneficiado. Mais ainda, de ele ingressar em programas  de educação à legalidade democrática e à tolerância. O instituto jurídico da desassociação nasceu na Itália democrática e à época do terrorismo. Ao interessado em se desassociar bastava enviar ao juiz uma declaração. Aí, o desassociado era colocado em liberdade e o processo, arquivado.

Para o sucesso das UPPs não há outra saída. Desassociação não obriga à delação e não se confunde com anistia. É instituto, por evidente, a se aplicar aos jovens “aviões”, fogueteiros e cooptados pelo CV e ADA. Não se aplica aos Marcinhos VP, Elias Maluco e nem, na Itália, cogitou-se de se aplicar aos capi mafiosos.

Enviar para um amigo Enviar para um amigo Imprimir: Compartilhar:
Mais...

Sua opinião

  1. Hag disse:
    Campanha mundial contra perseguição injusta e deportação de Assange e pela liberdade de imprensa do Wikileaks: http://www.avaaz.org/po/wikileaks_petition/?vl
  2. Quevedo disse:
    entre milícia e tráfico não há distinção: são criminosos de organização mafiosa. ambos oprimem moradores de áreas carentes e cobram por proteção, falsa paz (medo latente) e serviços que roubam da iniciativa privada através do isolamento - pela violência - de áreas demarcadas pelos próprios criminosos. no combate às duas formas de constituição do crime no Rio, vemos que as milícias são combatidas através de investigações mais apuradas (Polícia Civil e MP), além de ações de deputados, em Comissões Parlamentares de Inquérito. não se vê enfrentamento, talvez com o receio do corporativismo, em que policial teria de enfrentar policial. já contra o tráfico, a política de segurança estadual é de enfrentamento, mas com ressalvas, como bem destacado em seu texto. membros da ultra-esquerda brasileira - diga-se o PSTU, p. ex. - através de seu ignorante presidente Cyro Garcia, criticou as ações da polícia, 'denunciando' que houve acordo entre Estado e crime organizado. o referido senhor também 'denunciou' que as tropas de paz do exército estavam no Haiti para treinamento, pois o objetivo principal era a ocupação de morros e favelas cariocas. mas são coisas ditas por um ex-çíder do sindicato dos bancáros que, sob sua gestão, acumulou greves e nenhum benefício aos membros da classe.
20mai

Prevaricação

Gurgel se interpôs na história, mas a subprocuradora Cláudia Sampaio terá de sair sozinha do buraco em que se meteu

20mai

Casal desorientado, dupla atrapalhada

Gurgel e a mulher, José Carlos Dias e Nelson Jobim. Que semana…

19mai

Comissão da Verdade

Dilma Rousseff recusa a anistia como esquecimento, enquanto FHC prega o mantra da conciliação

19mai

O efeito Skuromatic

A revista Veja não lida bem com a crítica na internet e propõe de forma enviesada a censura na rede