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Disputa pelo Senado ganha ares de guerra no RJ

por Rede Brasil Atual — publicado 20/08/2010 11h38, última modificação 20/08/2010 11h43
Partidos lutam como podem para conquistar a vitória

Partidos lutam como podem para conquistar a vitória

Por Maurício Thuswohl
Rio de Janeiro – A disputa pelas duas vagas de senador destinadas ao Rio de Janeiro virou guerra. Após o início da propaganda gratuita no rádio e na televisão e a divulgação de pesquisas de opinião mostrando que os principais candidatos começam a ficar embolados, cada partido luta como pode para conquistar a vitória. Entre as legendas que compõem a aliança em torno da reeleição do governador Sérgio Cabral (PMDB), a maior disputa é travada pelo apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na aliança que apoia Fernando Gabeira (PV), todas as fichas são jogadas na eleição do ex-prefeito Cesar Maia (DEM).

Na base governista, o principal nó é a incompatibilidade entre os candidatos Lindberg Farias (PT) e Jorge Picciani (PMDB). Antes do início oficial da campanha, Lula, por mais de uma vez, afirmou que lutaria pela reeleição do senador Marcelo Crivella (PRB), e chegou a tentar inclui-lo na chapa ao lado de Lindberg, ex-prefeito de Nova Iguaçu, a quem o presidente convencera a desistir de disputar o governo estadual contra Cabral. Diante da irredutibilidade de Picciani, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), em concorrer ao Senado, foi lançada a semente de uma crise que eclodiu após o primeiro dia de propaganda eleitoral gratuita.

 Na TV, Lula cumpriu o prometido e pediu votos para Crivella. Também o fez, evidentemente, para o candidato de seu partido, o PT. Na propaganda de Picciani, no entanto, nada do rosto ou da voz de Lula, apesar de o presidente ter sido citado algumas vezes. Sobre Crivella, Lula falou que “sempre foi um aliado fiel” e que “esteve ao meu lado nas horas mais difíceis”.

Sobre Lindberg, o presidente afirmou: “Aprendi a respeitar o Lindberg desde que o conheci, quando ele era presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes). Ele atua com muita garra e vai levar isso para o Senado”, disse o presidente, que ainda destacou “a excelente administração que Lindberg fez em Nova Iguaçu”.

A presença de Lula nos programas dos dois adversários de Picciani desagradou ao PMDB. Segundo fontes do partido, até o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB), vice na chapa de Dilma Rousseff (PT) à Presidência, teria sido acionado para convencer o presidente, ou ao menos a candidata, a dar uma “forcinha” para o peemedebista na corrida ao Senado.

TRE proíbe

Nada foi ainda acertado com a cúpula petista, mas o PMDB já pode comemorar uma vitória: o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) do Rio decidiu que, a partir desta quinta-feira (19), a imagem e a voz de Lula devem ser retiradas de todas as propagandas de Crivella, incluindo TV, rádio e material impresso.

A decisão do Tribunal, tomada pelo juiz Antonio Augusto de Toledo Gaspar, atendeu a uma representação feita pela coligação "Juntos pelo Rio", da qual fazem parte o PMDB e o PT. A ação, no entanto, teria partido exclusivamente do grupo político de Picciani, incomodado com a presença de Lula das propagandas de Crivella. Caso desobedeça à Justiça Eleitoral e insista com Lula, o candidato do PRB sofrerá multa diária de R$ 200 mil.

Por mais que não admita publicamente e até torça pela eleição de Crivella, o comando da campanha de Lindberg comemorou discretamente a decisão do TRE. Isso, porque, segundo as pesquisas, o bispo, ao lado de Cesar Maia (DEM), parece ser o verdadeiro adversário do petista nas urnas.
Na última pesquisa, divulgada na segunda-feira (15) pelo Datafolha e feita, portanto, ainda antes do início da propaganda gratuita na TV, Crivella aparece pela primeira vez à frente com 40% das intenções de voto, ante Maia, com 33%. Lindberg, por sua vez, mostra um crescimento vigoroso e surge em terceiro com 22%, enquanto Picciani aparece estacionado no mesmo patamar das pesquisas anteriores (14%).

A tentativa do PMDB de convencer Lula e Dilma a apoiarem de forma mais efetiva a candidatura de Picciani esbarra na rejeição que a militância do PT, e da esquerda em geral, nutre pelo candidato peemedebista. No comando da Alerj, Picciani foi um dos pilares dos governos de Anthony Garotinho e Rosinha Matheus.

Quando começou como deputado, ainda desconhecido, foi um importante aliado do então presidente da assembleia, Sérgio Cabral, a quem passou a apoiar no Governo do Rio. O suporte de Picciani, que controla boa parte da máquina do PMDB no estado, foi fundamental para que Cabral, logo nos primeiros meses de seu governo, desse uma “rasteira” política nos Garotinho e assumisse de fato o comando do partido.

Difícil de engolir

Hoje milionário, Picciani resta como uma pessoa extremamente polêmica, para dizer o mínimo, na ótica dos petistas. Ao TRE, o presidente da Alerj declarou um patrimônio de R$ 11 milhões em imóveis, fazendas e aplicações financeiras. Se comparada à prestação de contas feita nas eleições de 2006, o patrimônio de Picciani evoluiu 45%. Tanta prosperidade, segundo o deputado, vem da venda de gado de raça, do qual é criador. “Vendi também uma fazenda e uma casa, por isso esse aumento”, acrescenta o deputado, quando questionado por jornalistas.

Outro incômodo para os petistas é a forma de Picciani fazer política. Depois de conseguir eleger o filho mais velho, Leonardo, deputado federal em 2006, ele agora ataca em dose dupla. Além da reeleição do primogênito, agora o mais novo, Rafael, estreia na política já pleiteando uma vaga de deputado estadual.

Na campanha, de acordo com dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), os três candidatos do clã Picciani já arrecadaram, segundo o informado na primeira prestação de contas, R$ 1,8 milhão. Sozinho, Jorge Picciani, o pai, já arrecadou R$ 1,2 milhão, o que significa mais de cinco vezes o valor recolhido até aqui pelo candidato a governador Fernando Gabeira.

Enquanto ainda sonha com o apoio efetivo de Lula, Picciani já conta com a ação intensiva de Sérgio Cabral. Na primeira edição da propaganda do PMDB para o Senado, o governador foi protagonista ao pedir votos para o colega de partido. “Picciani sempre foi um amigo de fé. Durante o meu governo, me ajudou muito. E, como fazem os amigos, ajudou sem pedir nada em troca”, exalta Cabral. O problema para Picciani, no entanto, é que, ao contrário de Lula, Cabral ajudou em “outra trincheira” e também gravou mensagem pedindo votos para Lindberg Farias.

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