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Entrevista - Rogério Sottili

"Direitos humanos é questão estratégica"

por Paloma Rodrigues — publicado 09/12/2014 09h24
Para o secretário municipal de Direitos Humanos de São Paulo, desafio da administração Haddad é criar mudanças estruturais que sobrevivam à mudança de gestão
Divulgação / Prefeitura de São Paulo

Um dos maiores desafios do governo Fernando Haddad (PT) na prefeitura de São Paulo é perpetuar mudanças estruturais que sua gestão fez em São Paulo. A afirmação é do secretário de Direitos Humanos da cidade, Rogério Sottili, um dos organizadores do Festival de Direitos Humanos de São Paulo, que acontece entre esta segunda-feira 8 e o próximo domingo 14.

Em entrevista à CartaCapital, Sottili afirma que esse objetivo vale tanto para a área de direitos humanos – que envolvem a criação do festival, a atenção especial ao público LGBT, aos imigrantes, entre outras iniciativas – quanto para outros focos estratégicos da atual administração, como as ciclovias e as faixas e corredores de ônibus. Para Sottili, as ações devem ser sólidas o bastante para se integrarem às tarefas das futuras prefeituras de São Paulo.

CC: Qual são os principais desafios da pasta?
Rogério Sottili: Estamos construindo uma nova cultura no campo dos direitos humanos na cidade. O nosso desafio é construir a solidez necessária para que sobreviva a uma mudança de gestão. Essa gestão do prefeito Fernando Haddad vem para demarcar mudanças estratégicas e estruturais na forma de fazer politica. O prefeito que tirar essas coisas cria uma crise com a sociedade. A ciclovia, os corredores de ônibus, isso não tem volta. Eu acho que o Festival [de Direitos Humanos] vai ser um legado dessa gestão.

CC: Qual a importância de um festival como esse para a cidade?
RS: A ideia do festival é fazer, por meio da mobilização, uma forma de consciência e de debates, por meio do cinema, da literatura, da música, do diálogo. É estratégica a questão dos direitos humanos. Da valorização dos diferentes, do combate à violência, do combate ao bullying e ao preconceito, em defesa da vida. Infelizmente, vivemos em um país onde a violência está no nosso dia a dia, está na escola, na rua, e todos os dias estamos convivendo com essa cultura da violência, que mata jovens negros na periferia, onde a maioria dos assassinatos são cometidos pelos agentes do estado.

CC: Quais as atividades dentro do festival que o senhor destaca por trabalharem estes pontos?
RS: Quando você faz um show de direitos humanos, o artista fala sobre a declaração dos direitos humanos, dos artigos da declaração, você promove uma reflexão sobre os direitos humanos. Vamos ter cinema em 22 pontos da periferia. Vamos ter um diálogo intergeracional, entre os jovens da periferia e as pessoas que militaram e foram torturadas pela ditadura, para a gente perceber que a ditadura que matava e torturava é a mesma policia que mata hoje a juventude negra. Outro ponto é o Prêmio Municipal de Educação em Direitos Humanos, que acontece dia 10. Ele foi criado como uma forma de motivar e incentivar escolas, professores e grêmios estudantis a fazerem trabalhos valorizando os direitos humanos e das pessoas, e tem sido um sucesso.

CC: Os imigrantes também estão em foco. Recentemente a prefeitura divulgou que cadastrará imigrantes em projetos sociais como o Bolsa Família. Qual o objetivo da prefeitura?
RS: Isso é um direito adquirido de todo o estrangeiro regular. O que acontece é que o imigrante não sabe dos seus direitos. A prefeitura de São Paulo quer informar os imigrantes sobre seus direitos. Estamos fazendo uma campanha com a assistência social para que eles se inscrevam no Cadastro Único (CadÚnico). Estamos informando. Por que estamos promovendo essa campanha para que ele acesse o Bolsa Família? Porque nós entendemos que o imigrante é uma pessoa que vive na cidade, produz na cidade e é dever do poder público ajudá-lo a construir possibilidades para a sua autonomia. Ainda estão chegando 270 haitianos por semana em São Paulo, mais da metade chega e já se desloca para outros estados em busca de emprego, parte consegue emprego imediatamente. Precisamos dar tranquilidade para que se desenvolva e dependa cada vez menos do estado.

CC: E como o senhor enxerga que a sociedade paulistana tem achado essas mudanças?
RS: Nunca se discutiu tanto direitos humanos como agora. Quando se cria um centro de acolhida para imigrantes, que atende sete idiomas, dá assistência jurídica, aula de português, orientação para o trabalho, você acolhe o imigrante e combate o preconceito. Esse é o papel do poder público. É um processo longo, [o preconceito] foi criado por esse sistema violento e os direitos humanos são fundamentais para reverter essa cultura de violência. O Monumento em Homenagem aos Mortos e Desaparecidos Políticos também provoca uma discussão. Além de ser uma reparação aos familiares e à todos que lutaram, ele também sinaliza para toda a cidade de São Paulo que o que aconteceu naquele período não pode ser esquecido. Isso está a frente desses grupos isolados que pedem a ditadura de volta, temos esse enfrentamento político. Vamos inaugurar em janeiro um banheiro público na cidade, que contemplará principalmente a população de rua. A violência faz parte do nosso dia a dia, contra a população de rua, contra a população LGBT. Primeiro, nós fazemos políticas públicas para desenvolver socialmente essas pessoas. E também precisamos fazer todo um processo de educação da sociedade para criar uma nova mentalidade que é fundamental.