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Política

Gianni Carta

Gianni Carta

01.12.2011 16:54

Diploma de jornalista é idiotice

Como definir o jornalista? “Qualquer um que fizer jornalismo”, responde o escocês Andrew Marr no seu livro My Trade (Pan Books, 2005, 300 págs). Jornalista de mão cheia, ex-editor do diário The Independent e da Economist,  Marr diz quem são as pessoas mais propensas a mergulhar no jornalismo: “bêbados, disléxicos e algumas das pessoas menos confiáveis e mais perversas da Terra”.

Mas há consolo no livro de Marr, consagrado à história do jornalismo britânico. “Tirando o crime organizado, o jornalismo é a mais poderosa e agradável antiprofissão”.

'Diploma de jornalismo é idiotice'. Foto: Flickr

Marr, de 51 anos, causaria um grande alvoroço no Senado brasileiro. Por dois motivos. Primeiro, porque sua ironia seria levada a sério pela maioria dos senadores. Em segundo lugar, Marr formou-se em Letras.

E aí mora o problema.

Marr, iconoclastia à parte, não seria considerado um jornalista pelos senadores brasileiros pelo fato de não ter estudado jornalismo.

O Senado acaba de aprovar uma proposta de emenda constitucional para tornar obrigatório o diploma de nível superior para o exercício do jornalismo. Haverá outra votação no Senado. Se a emenda for aprovada será analisada pelos deputados.

Claro, o Supremo Tribunal Federal (STF) derrubará a medida (se aprovada pelos deputados). Em junho de 2009, vale recapitular, o STF acabou com a exigência do diploma para jornalistas. A norma era incompatível com o princípio de liberdade de expressão.

Mas o senador Antônio Carlos Valadares (PSB-SE), autor da proposta, não concorda com o STF. “Todas as profissões têm o seu diploma reconhecido, menos o diploma de jornalista, o que é uma incoerência, uma distorção na legislação brasileira”, declarou.

E senadores, precisam de diploma? Nenhum.

Basta ter nacionalidade brasileira e mais de 35 anos de idade. Na França qualquer deputado graduou-se no mínimo em ciências políticas. E isso fica claro nos discursos na Assembleia Nacional e no Senado. Lá fala-se em ideologia partidária, entre outros temas aqui ignorados.

E aqui aproveito para fazer uma sugestão: já que jornalistas precisam, segundo os senadores, de diploma, por que não aplicar a mesma proposta para os senadores brasileiros? Os debates, quiçá, se tornariam mais fecundos.

Certo é que, de forma geral, os colegas formados por universidades de jornalismo a pipocar Brasil afora, quase todos a trabalhar para a mídia ultraconservadora, não têm contribuído para melhorar o nível da mídia.

Os grandes diários brasileiros, com colegas com canudo de jornalista ou não, são ilegíveis. Por exemplo, um dos destaques da Folha de São Paulo na quinta-feira 1º é que a apresentadora Fátima Bernardes “deve deixar a bancada do ‘Jornal Nacional’”. Ela estaria “cansada”.

Eis a questão: o nível das escolas de jornalismo é baixo, ou seriam os patrões que limitam o trabalho de apuração dos repórteres – e principalmente dos colunistas? Seriam as duas coisas? Como dizia o grande jornalista italiano Enzo Biagi (outro que não tinha diploma de jornalista): “Meus únicos patrões sempre foram meus leitores”.

Nos Estados Unidos e na Europa o canudo de jornalista não é necessário para exercer a profissão. Basta um diploma, isto é, uma especialização. Lá é comum estudantes com ambições jornalísticas trabalharem nos jornais das universidades enquanto se formam em história, ciências políticas, economia, etc. Na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, por exemplo, alunos de diferentes departamentos trabalham no excelente diário Daily Bruin, distribuído gratuitamente no campus e nos bairros em torno de Westwood, onde fica a UCLA.

Na França e no Reino Unido ninguém precisa de diploma de jornalista para trabalhar na mídia. Marr, que especializou-se em literatura inglesa em Cambridge, oferece: “Tudo que o jornalista precisa é ser curioso e saber farejar uma boa história. E mesmo dominando a gramática, só se aprende a escrever escrevendo”.

Vale acrescentar: o jornalismo se aprende indo à rua. “É preciso tirar a bunda da cadeira”, martelava Reali Jr.

O repórter tem de continuar a praticar esse método inclusive para entender o que escreve. Precisa usar os fatos com honestidade, mas ao mesmo tempo tem de entender que o jornalismo tem seus limites, não é uma ciência. Ah, e sempre que possível o senso de humor ajuda. O diploma de jornalista só serve para enfeitar parede.

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Sua opinião

  1. Eugênio Martins Júnior - MTB: 33.533 disse:
    Volto a meter o bedelho. Quanto mais eu leio os argumentos contra o diploma, mais certeza tenho de que ele é necessário. As pessoas que defendem a "não formação" para jornalistas são as que mais cometem erros de português. Seus textos são ininteligíveis.
  2. Rebeca disse:
    É engraçado como os próprios profissionais da área, formados ou não, desvalorizam a profissão. Um canudo de papel não faz um bom profissional, seja na saúde, nas exatas ou nas humanas, mas os 4 ou 5 ou 6 anos vividos para que ele fosse conquistado, sim. Se você está dentro de uma sala na faculdade e não dá a mínima atenção para o que está sendo repassado a você, a escolha é sua: quem será um péssimo profissional será você. Mas é triste saber que nossa população não dá créditos a nossa formação superior. É triste saber que nossa população não acredita que dentro de uma faculdade nós aprendemos a ética sobre a qual devemos trabalhar, as formas de se trasmitir e uma informação, de forma que ela atraia a atenção de vocês e não fuja da verdade, por esse é o principal valor que nossa população espera de um meio de comunicação: e se nós fugirmos dela, nós somos mentirosos, influenciáveis e incompetentes. Em qualquer lugar do mundo, na China, no Japão ou na "Conxinxina", o jornalismo sempre vai incomodar, com ou sem diploma. E tirando ele de nós alguns políticos ACHAM que vamos desistir de mostrar seus podres e lutar por uma sociedade mais justa e menos alienada. Se qualquer um é capaz de transmitir uma informação, então tentem fazer uma cobertura mundial, sobre a morte de um grande ditador ou de um terrorista - vocês acham que é só ligar uma câmera e ler um release sobre a vida deles achado no Google? Pois é. As melhores reportagens só são as melhores porque são feitas pelos melhores JORNALISTAS, e não cientistas políticos ou economistas que acham que sabem escrever, e, por isso, se consideram jornalistas. É triste ler isso de um Carta. Mas, o país tem liberdade de expressão e opinião... e isso é motivo de orgulho, mesmo sendo textos de alta qualidade, ou NÃO...
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