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Dilma em NY 2

'Mulheres sofrem mais na pobreza'

por Redação Carta Capital — publicado 21/09/2011 14h16, última modificação 21/09/2011 14h44
Presidenta falou sobre desigualdade entre gêneros e lembrou que, em seu governo, dez ministérios são chefiados por mulheres

A dois dias de tornar a primeira mulher a abrir a Assembleia Geral das Nações Unidas, a presidenta Dilma Rousseff fez nesta segunda-feira os seus primeiros pronunciamentos em sua viagem a Nova York, onde estão reunidos os líderes mundiais.

Em discurso feito durante o colóquio de Alto Nível sobre a Participação Política de Mulheres, diálogo promovido pela ONU Mulher, Dilma afirmou que "as respostas equivocadas dadas por alguns países à crise mundial podem agravar a situação das mulheres em todo mundo". Dilma não detalhou que medidas considera equivocadas, mas ressaltou que a pobreza no Brasil atinge mais as mulheres.

"Apesar de alguns avanços notáveis, a desigualdade permanece em pleno século 21. São as mulheres que mais sofrem com a pobreza extrema, com o analfabetismo, com as falhas do sistema de saúde, com os conflitos e com a violência sexual. Em geral, as mulheres recebem salários menores pela mesma atividade profissional e têm presença reduzida nas principais instâncias decisórias", disse a presidenta.

"A crise econômica e as respostas equivocadas a ela podem agravar esse cenário, intensificando a feminização de pobreza", destacou Dilma. "Por isso, combater as consequências e também as causas da crise é essencial para o empoderamento das mulheres", ressaltou.

Dilma enfatizou que seu governo tem se esforçado para mudar o cenário de desvantagem da mulher no Brasil. "Tenho me esforçado para ampliar a participação feminina nos espaços decisórios. Dez ministérios do meu governo são comandados por mulheres. Em especial, quero enfatizar que o núcleo central do meu governo é constituído por mulheres ministras. O Brasil criou, em nível ministerial, a Secretaria de Políticas para Mulheres, cujo objetivo é incorporar a perspectiva de gênero em todas as políticas públicas", destacou a presidenta.

Ela reconheceu, no entanto, que ainda há muito o que fazer para o país chegar a uma situação igualitária entre homens e mulheres nas instâncias de poder. "Fui eleita presidenta do Brasil 121 anos depois da proclamação da República e 78 anos depois da conquista do voto feminino. Somos 52% dos eleitores, mas apenas 10% do Congresso Nacional", disse a presidenta.

Antes, durante em discurso na Reunião de Alto Nível sobre Doenças Crônicas Não Transmissíveis, na sede da ONU, a presidenta já havia ressaltado o esforço de seu governo no combate a doenças como câncer de mama e de colo de útero, além da mortalidade infantil.

Entre as medidas para reduzir esses problemas, ela citou o acesso aos exames preventivos, “melhorando a qualidade das mamografias e ampliando o tratamento para as vítimas de câncer”.

Dilma ressaltou que a defesa do acesso a medicamentos e a promoção e prevenção à saúde devem caminhar juntas. Ela citou dados que mostram que no Brasil 72% das causas não violentas de óbito entre pessoas com menos de 70 anos ocorrem em função das chamadas crônicas não transmissíveis, como hipertensão, diabetes e câncer. Lembrou que uma das primeiras medidas de seu governo foi garantir o acesso gratuito a medicamentos para diabetes e hipertensão.

“O Brasil defende o acesso aos medicamentos como parte do direito humano à saúde. Sabemos que é elemento estratégico para a inclusão social, a busca da equidade e o fortalecimento dos sistemas públicos de saúde”, explicou.

A presidenta ressaltou que o Brasil está intensificando o combate aos fatores de risco com maior influência no aparecimento das doenças crônicas não transmissíveis como o tabagismo, o uso abusivo de álcool, a inatividade física e a alimentação não saudável. “Outra iniciativa do meu governo foi a assinatura de acordos com a indústria alimentar para a eliminação das gorduras trans e a redução do sódio. Queremos avançar ainda mais no combate ao tabagismo, com a implementação plena dos artigos da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco”.

Dilma disse esperar que as discussões na ONU produzam passos decisivos na redução das doenças crônicas não transmissíveis, sobretudo entre a parcela mais pobre da população. “A incidência desproporcional dessas doenças entre os mais pobres demonstra a necessidade de repostas integrais aos nossos problemas. É fundamental que haja coordenação entre as políticas de saúde e aquelas destinadas a lidar com os determinantes socioeconômicos dessas enfermidades”, concluiu.

Temas sensíveis

Antes do encontro, em seu programa semanal “Café com a Presidenta”, a presidenta afirmou que o Brasil “tem muito a mostrar em cada um dos temas” que pontuarão seu discurso para os chefes de Estado dos 193 países que participam do encontro. A abertura do debate geral, que tradicionalmente cabe ao Brasil, acontece na manhã de quarta-feira 21, na sede das Nações Unidas. Esta será a da 66ª sessão da Assembleia Geral da ONU, que ocorre sob a sombra da crise econômica internacional, os conflitos no Norte da África e no Oriente Médio, o agravamento da fome em vários países africanos, a pressão da Autoridade Nacional Palestina (ANP) para reconhecer o Estado palestino e as dificuldades para a reconstrução do Haiti.

Dilma usou a maior parte de seu programa semanal para falar sobre um programa federal, lançado na semana passada, para a construção de 6.427 creches e pré-escolas em todo o País.

Sobre a assembleia da ONU, Dilma afirmou estar orgulhosa de ser a primeira mulher a abrir o evento. Disse também, de forma geral, que irá discutir em Nova York temas como o papel da mulher no mundo, a transparência nas ações dos governos, o combate a doenças crônicas – como o diabetes e a hipertensão arterial – e também a crise mundial.

A maior expectativa, de acordo com diplomatas e especialistas, é que ela anuncie a posição do Brasil em relação a temas considerados sensíveis. Em seu discurso, a presidenta deverá mencionar a posição do governo brasileiro em relação ao Conselho Nacional de Transição (CNT) da Líbia – comandado pela oposição ao presidente líbio, Muammar Kaddafi. Na sexta-feira 16 a ONU reconheceu o órgão e mais de 60 governos também legitimam o conselho como capaz de coordenar a transição na Líbia. A situação da Síria, ponde 2,6 mil pessoas morreram em seis meses de confronto, também deve ser abordada pelos líderes mundiais. A comunidade internacional deve, mais uma vez, rechaçar a forma como Síria o presidente Bashar Al Assad conduz o conflito e cobrar a aplicação de medidas democráticas.

Em relação ao Estado da Palestina, o Brasil é favorável à autonomia da região respeitando o acordo negociado em 1967. Em dezembro do ano passado, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva reiterou o reconhecimento e recebeu mensagens de agradecimento das autoridades palestinas. Na ONU, o presidente da ANP, Mahmoud Abbas, avisou que vai pedir o reconhecimento do Estado da Palestina como independente – posição rejeitada pelos governos de Jerusalém e dos Estados Unidos.

Sobre a crise econômica mundial, espera-se que Dilma Rousseff fale sobre como os países estão sujeitos a seus efeitos.

Um outro tema sensível é a instabilidade política no Haiti, país onde o Brasil chefia uma missão de paz da ONU – e que foi devastado por um terremoto, em janeiro 2010, e até hoje passa por um processo de reconstrução.

Dilma está em Nova York acompanhada por cinco ministros: o das Relações Exteriores, Antonio Patriota; o da Saúde, Alexandre Padilha; o do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel; o do Esporte, Orlando Silva; e a da Comunicação Social da Presidência da República, Helena Chagas.

Ainda nos EUA, a presidenta participará, até o dia 23, de eventos promovidos pelas Nações Unidas e instituições privadas e de encontros bilaterais com chefes de Estado e de Governo.

Na terça-feira 20, está previsto um encontro bilateral com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, no Hotel Waldorf Astoria. À tarde, ela participa da cerimônia de lançamento da “Parceria para Governo Aberto”, no mesmo hotel.

Dilma tem na agenda ainda encontros bilaterais com os presidentes Felipe Calderón (México), Sebastián Piñera (Chile), David Cameron (Reino Unido), Nicolas Sarkozy (França), Ollanta Humala (Peru), Juan Manuel Santos (Colômbia).
*Com informações da Agência Brasil

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