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Dilma e o outro lado

por Coluna do Leitor — publicado 03/11/2010 16h45, última modificação 03/11/2010 16h47
Para o leitor Rodrigo Cerqueira, "não podemos dizer que a vitória de Dilma Rousseff foi um massacre eleitoral, tampouco o enterro da direita brasileira"

Por Rodrigo Cerqueira

Comparada com a votação do candidato oposicionista, os votos nulos e brancos e o índice de abstenções, não podemos dizer que a vitória de Dilma Rousseff foi um massacre eleitoral, tampouco o enterro da direita brasileira, de sua política fabricante de correntes preconceituosas, boatos obscurantistas e discursos tendo o medo como principal plataforma.

A vitória da candidata petista é sim a vitória do projeto petista de governo; a maioria do eleitorado brasileiro votou na consistência da política econômica, na participação efetiva do estado na vida brasileira e na inserção de grande parcela da população no mercado de oportunidades presentes e futuras. É enganoso, porém, pensar que a eleição de Dilma é um basta à oposição atual. Muito pelo contrário. Os mais de quarenta e três milhões de votos conseguidos por José Serra mostram, além da já conhecida força do eleitorado tucano, que parte significativa do povo brasileiro está do outro lado e é esse lado que dará mais trabalho para o governo da ex-ministra chefe da Casa Civil.

Poderíamos discutir longamente o que impulsionou o número de votos pró-PSDB. A insatisfação com o governo Lula não parece a melhor das hipóteses, já que o atual presidente possui impressionante índice de popularidade e aprovação. Ser resultado das torpes campanhas fabricadas pela candidatura e imprensa tucanas pode ser um caminho, mas não o único. Sabe-se que o temor de que Dilma “não daria conta”, por ser mulher, ou por ganhar vida apenas à sombra de Lula, vem, principalmente, das mulheres, ou, se ampliarmos o raio de raciocínio, da classe média, campo maior de votantes em Serra. Por mais paradoxal que soe, o medo de uma parcela “esclarecida” da população sobre a capacidade administrativa da candidata eleita diz muito sobre nós e sobre o principal desafio de Dilma na presidência: convencer-nos do contrário.

Não que Dilma seja a candidata perfeita, nem que o voto em Serra seja um absurdo, mas o candidato tucano, durante toda a campanha, se esforçou para perder as eleições por uma diferença acachapante. Esforçou-se para perder de muito, e perdeu de pouco. O fato talvez menor não deve ser tratado com pouco caso. O conservadorismo torpe que ainda nos rege faz com que descartemos o voto numa mulher, uma mulher que representa o governo a sustentar o país com visíveis melhorias (e alguns erros, é preciso ressaltar). O fato de que muitos brasileiros não votaram em Dilma pelo desconhecimento ou pelo temor das possíveis decisões da futura presidenta resulta em traço importantíssimo para o caminho a ser trilhado nos próximos quatro anos.

A imprensa, que tanto abrigou as discussões menores e campanhas vis durante o processo eleitoral, agora tenta colocar a história de Dilma aos olhos de todos. Durante a campanha ela era a “laranja eleitoral” de Lula, agora a competente gestora do governo. Não nos espantemos porém: o sopro é bem menor que a mordida. Jornais já noticiam o plano mirabolante do Partido dos Trabalhadores: Dilma será um estepe de quatro anos para a volta de Lula ao poder. Os mortos não começam a ressurgir; eles jamais foram embora, estão à espreita, esperando o primeiro vacilo.

Dilma terá de governar contra nós mesmos, nossos preconceitos enraizados, nossas desconfianças vindas de fábrica – tudo substancialmente alimentado por quem lhe é contra. Para o bem de nossa claudicante democracia, é preciso que a presidenta saiba dar o tom e esquivar-se dos ataques com elegância e habilidade naturais para quem é competente e sabe o que fazer ao gerir projetos visando o bem coletivo.

Professor, residente em Além Paraíba – Minas Gerais.

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