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Congresso do PT

Dilma ataca 'mitos' da imprensa

por Soraya Aggege — publicado 03/09/2011 08h52, última modificação 03/09/2011 19h11
Em discurso, presidenta refuta críticas sobre 'inapetência política' e 'faxina' e nega distanciamento do governo Lula

A presidenta Dilma Rousseff aproveitou o 4º Congresso Nacional do PT, que acontece neste final de semana, em Brasília, para desmentir rumores, desfazer intrigas e se aproximar do coração do partido. Durante 40 minutos de seu discurso, na sexta-feira 2, ela foi taxativa. Desmistificou o que tem lido em grande parte da imprensa: a “herança maldita”, sua “inapetência política”, a “faxina” contra a corrupção. Terminou garantindo que seu governo fará a Comissão da Verdade e será “bastante firme” com os direitos humanos. Foi ovacionada pelos 1.500 delegados petistas de todo o país.

Dilma mostrou logo no início do discurso que ganhou os corações petistas ao sair ilesa de um incidente causado pela truculência de sua equipe de segurança. Dezenas de delegados credenciados do partido foram barradas pela segurança presidencial, que alegava falta de espaço no auditório. Antes da fala de Dilma, enquanto o presidente da legenda, Rui Falcão, falava, os delegados barrados começaram a esmurrar as portas, aos gritos de “Abram, abram, é nosso partido e é de massas”. Os delegados que estavam confortavelmente sentados dentro do auditório pararam de ouvir Falcão e gritaram: “Abram, abram! Partido, partido é dos trabalhadores!”. Até que as portas foram abertas.

Falcão terminou sua fala com a platéia já pacificada. O ex-presidente Lula falou por 10 minutos. A presidenta começou então o seu discurso dizendo que o episódio, ignorado nas falas de Falcão e de Lula,  demonstrava que aquele era o seu partido, forte: “Quando os companheiros ficaram de fora, esse plenário parou e gritou: abram, abram. Eu disse ao Lula: ‘essa é a força do PT’”. Foi assim que ela introduziu uma conversa difícil com a militância. Explicou que aprendeu com Lula que quando se passa por momentos difíceis, em que a razão e o coração se confundem, deve-se sempre seguir  a segunda voz. “E a voz do coração me diz sempre que temos que proteger os setores mais frágeis do nosso país”. Foi aplaudida de novo.

Dilma disse então que tem visto alguns veículos de imprensa tentarem dizer que ela tem uma herança que não é bendita. “Nem é herança porque  eu ajudei a construir. Os erros e acertos são meus também”, disse, creditando as tentativas de colocá-la em um lado oposto ao de Lula à sanha da oposição em criar desgastes para o governo.

“Lamento que este desgaste assuma formas muito interessantes. Além do legado, da herança e da tentativa de me separar (de Lula). Na medida em que participei do governo do presidente Lula, em um cargo de destaque, inclusive, como é que eu posso então estar em conflito comigo mesma?”, indagou.

"(Aliás) uma herança é pouco, é como se fossem aquelas camadas que fundamentam o solo e que garantem que as pedras tenham vários graus de solidez. Eu estou firmada sobre uma pedra muito sólida", discursou.

“Vejo muitas vezes na imprensa dizerem que eu, que me elegi presidente baseada na trajetória deste partido e no sucesso do presidente Lula, tenho uma herança que não é bendita. Essa tentativa solerte, às vezes envergonhada e insinuada, tenta toldar uma das maiores conquistas que tivemos nos últimos anos. Nós mudamos o Brasil. Portanto, a nossa herança é daqueles que transformaram o Brasil pela primeira vez. Outros tentaram. De uma forma ou de outra foram interrompidos. Ou se mataram ou foram apeados do poder”, afirmou a presidenta. “Estou firmada sobre uma pedra muito sólida que é a experiência de oito anos de um governo que tive a honra de participar”, disse.

Ela também aproveitou o evento para rebater críticas sobre sua suposta inabilidade política, amplificadas por crises na base e com a queda de quatro ministros em apenas oito meses. “Muitas vezes eles também especulam sobre minha suposta inapetência política, dizem que eu sempre fui uma gerente tecnocrata muito despreparada para o exercício da Presidência. Eles se esquecem que tenho muito orgulho de, quando era muito difícil fazer política no Brasil porque dava cadeia ou morte, ter feito política no Brasil”, afirmou Dilma.

Sobre a corrupção, Dilma direcionou seu discurso para setores do PT descontentes com as chamadas “faxinas”. Segundo a presidenta, o combate à corrupção não pode ser meta de governo, mas sim um trabalho ininterrupto. “A justiça não se faz nem com caça às bruxas nem com colocação de pessoas à execração pública e retirada de direitos de cidadania”, afirmou.

Antes de encerrar sua fala, Dilma ouviu da plateia um petista gritar: “E a Comissão da Verdade?”. E reagiu: “Faremos a Comissão da Verdade. Não há quanto a isso a menor dúvida. Não tenham medo. Na área de direitos humanos eu vou ser bastante firme. Eu devo isso às gerações passadas, presentes e futuras”. Foi ovacionada de novo.

O 4º Congresso do PT segue até domingo e vai aprovar uma nova resolução nacional para a legenda e discutir a reforma do estatuto do partido. Vários temas, desde a política de juros até a estratégia de alianças políticas para 2012 são abordados na resolução, com mais de 100 pontos.