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Política

Nova estratégia

Dilma aposta em agenda internacional para sair da defensiva

por André Barrocal publicado 23/05/2015 08h57
Encontros com China, EUA, Alemanha, BRICS, Uruguai e México viram arma para tentar recuperar popularidade e confiança
José Cruz / Agência Brasil
Dilma Rousseff e Tabaré Vázquez

Dilma Rousseff e Tabaré Vázquez na quinta-feira 21: encontro foi usado para mandar recado à União Europeia

Com problemas políticos e econômicos no front doméstico, Dilma Rousseff resolveu apostar na agenda internacional para tentar melhorar a imagem e gerar boas notícias, uma necessidade para um governo impopular e cercado de desconfianças. Em três meses, ela terá encontrado líderes de três das cinco maiores economias do planeta e participado de outra reunião dos BRICS, vitrine do mundo emergente. Compromissos menos vistosos, mas considerados igualmente capazes de render dividendos, também estão no calendário.

Os planos de Dilma ficaram nítidos nos últimos dias. Em uma mesma semana, ela recebeu em visita oficial o primeiro-ministro da China, Li Keqiang, e o presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez, e reuniu-se com a diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde. Na próxima semana, visitará o México e o presidente Enrique Peña Nieto. No fim de junho, o destino será Washington, para encontro com Barack Obama. Em julho, irá à Rússia, para a cúpula anual dos Brics, ocasião em que se esperam novidades sobre o banco de desenvolvimento a ser criado pelo bloco. Em agosto, será anfitriã da chanceler alemã, Angela Merkel.

A maratona começou na terça-feira 19, quando Brasil e China firmaram vários acordos comerciais, industriais, agropecuários e, mais importante para o governo neste momento, financeiros. Os chineses mostraram-se dispostos a emprestar 50 bilhões de dólares, para financiar mais de 50 obras. A concretização do empréstimo depende, porém, de negociações entre um banco chinês (ICBC) e a Caixa Econômica Federal. Petrobras e Vale já obtiveram empréstimos, de 7 bilhões e 4 bilhões, respectivamente.

Segundo dois diplomatas ouvidos por CartaCapital, a visita de Keqiang era essencial para ajudar a transmitir a ideia de que o País ainda tem futuro, apesar das reticências espraiadas desde o sistema financeiro. Se o objetivo era esse, parece ter sido alcançado. “Foi uma demonstração de confiança da maior potência econômica no Brasil. Ou os chineses são desavisados, desinformados?”, diz o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, ex-secretário-geral do Itamaraty.

A China tornou-se a maior economia do planeta conforme dados divulgados em abril pelo FMI. Ao calcular o PIB de 2014 dos países com base na paridade de poder de compra, método neutralizador de disparidades cambiais, o Fundo viu a China pela primeira vez à frente dos EUA: 17,6 trilhões de dólares a 17,4 trilhões. O Brasil aparece em sétimo, com 3,2 trilhões. A Alemanha, que logo desembarcará por aqui, é a quinta, com 3,7 trilhões.

Na conversa com a diretora-geral do FMI na quinta-feira 21, Dilma falou sobre os rumos da economia mundial, mudança climática e “os benefícios econômicos” de “uma relação comercial mais estreita entre o Mercosul e a União Europeia”, de acordo com breve relato à imprensa feito por Christine Lagarde ao fim da reunião.

Dilma Rousseff e Christine Lagarde
Dilma Rousseff e Christine Lagarde: o FMI visita o País, mas não para cobrar dívidas (Foto: Roberto Stuckert Filho / PR)

Um eventual acordo entre sul-americanos e europeus é de interesse especial dos industriais brasileiros. Horas antes de sentar-se com Lagarde, Dilma havia se encontrado com Tabaré Vázquez e, em posterior declaração à imprensa ao lado do uruguaio, apontado a negociação daquele acordo como prioridade do Mercosul neste ano. “Vamos propor à União Europeia que definamos, para o mais breve prazo possível, a data de apresentação simultânea das nossas ofertas comerciais”, disse.

A afirmação embutia um recado sutil aos europeus. As negociações empacaram no ano passado devido à suspeita sul-americana de que a Europa quisesse primeiro conhecer a proposta que lhe seria feita, antes de apresentar a própria. Sem o sincronismo, um lado estaria em posição mais vantajosa do que o outro, nas negociações.