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Política

Crônica / Matheus Pichonelli

Descrença política e insegurança: vivemos uma crise de autogestão?

por Matheus Pichonelli publicado 26/07/2015 09h18, última modificação 26/07/2015 10h54
Em plena era da livre informação, domesticamos desejos e terceirizamos escolhas. E se a consequência for o autoritarismo?
José Cruz / Agência Brasil
Marcha para Jesus

Marcha para Jesus em Taguatinga

A velocidade do avanço tecnológico e o impacto da expansão da internet para a circulação de informações, desde o fim do século passado, prometiam sepultar as relações de poder constituídas num formato piramidal. Até então, quem detinha o monopólio do conhecimento tinha lugar reservado na ponta da pirâmide, de onde mantinha e lutava pela manutenção do prestígio e da influência - os pais, os chefes, os professores, os governantes, os líderes religiosos, etc.

Com as novas ferramentas de interação e buscas de informações, os referenciais familiares, religiosos e políticos pareciam fadados a um novo papel. Não deixariam de existir ou influenciar, mas precisariam suar mais. Ninguém, presumia-se, aceitaria como respostas “porque sim”, “porque Deus quis”, “porque o regulamento determina” quando tinha como contraponto um acervo de informações e debates que jogavam luz às formas mais naturalizadas de relacionamento.

O rompimento de fronteiras e expansão das formas de conhecimento, não mais trancafiadas no ambiente acadêmico, colocariam em xeque as próprias posições da pirâmide. Por exemplo: como um homem, portador das chaves do perdão e da reconciliação e que jamais casou pode dizer, em público ou na confissão, o que era melhor para o nosso casamento? Mais: por que só homens ocupavam estes púlpitos?

A expansão desses contrapontos de livre acesso exigiria, assim, a sofisticação de respostas, que já não caberiam nas caixinhas de “certo e errado” ou “porque eu quero” ou “obedece quem tem juízo”. O simples questionamento desta ordem, discutida em grupos reunidos pela facilidade das redes, era um bomba-relógio no mundo das cartilhas. “Se você fizer assim, vai acontecer assado”; “se não fizer, vai apodrecer no inferno ou na terra”. A nova pergunta agora é: "quem disse?"

A decadência dessas cartilhas tinha um preço. Com elas, poderíamos até não ser felizes, mas sabíamos por quê – porque desobedecemos, porque pecamos, porque trabalhamos de menos, porque acreditamos pouco, porque demos cabo às nossas paixões mais condenáveis. Nas cartilhas das religiões, a possibilidade de reconciliação com uma ideia de paz e plenitude nos garantia sempre uma ideia de acolhimento se nos arrependêssemos de nossos desejos incompatíveis com os manuais - o que tem seu lado ótimo quando o manual prega, por exemplo, o respeito ao próximo.

A má notícia para quem passou a entender este manual como um instrumento de perpetuação do próprio sofrimento, até então associado ao desajuste em um mundo que nos pedia ordem e correção o tempo todo, e passou a contestar ideias relacionadas às contenções e convenções meramente sociais ("o sexo é o corte", relembrem), é que, a partir de então, nós, indivíduos com gosto, vontade e capacidade de decisão, passamos a ser responsáveis por nós mesmos.

Mas algo parece travar (ou atrasar) esta conversão aparentemente natural. À medida que se expande, a rede que leva a luz às nossas questões mais escondidas e inconfessáveis se coloca também a serviço da escuridão. Sofismas, boatos, ilações e cinismos passaram a pipocar em nossas caixas de mensagens, depois nas timelines, depois nos grupos de WhatsApp.

O caminho da informação era o mesmo da desinformação, e o acesso ao conhecimento passou a ser um exercício constante de filtro, contextualização e organização do pensamento. Isso não acontece de uma hora para outra. Nesse intervalo, as forças atingidas pela expansão do conhecimento passaram a reagir como sempre reagiram: na base do medo, das ameaças, da chantagem.

Não é por outro motivo, por exemplo, que prepostos do obscurantismo, como Silas Malafaia, sejam também fenômenos da internet.

Eles surfam numa crise de valores que detonou as noções de certo e errado, puro e impuro, sagrado e profano e estabeleceu a diversidade e suas possibilidades como marcas da contemporaneidade.

Mas essa crise inevitável alimenta outros tipos de sofrimentos, entre os quais o nosso dever de encontrar, por nós mesmos, os caminhos para a própria salvação por meio do autoconhecimento e dos destroços de nossas culpas e remorsos.

Ou seja: não somos responsáveis apenas pela nossa felicidade, mas pela nossa infelicidade também. Isso exige de nós o que a filósofa Viviane Mosé classifica como “capacidade de autogestão” para lidar com a dor e com uma condição inevitável da vida: morreremos. Pior: morreremos sem a menor garantia de que a felicidade seja outra coisa se não um intervalo entre uma dor e outra.

Se abdicamos desse papel, e tentamos adiar o confronto e a finitude com amortecedores para encarar a angústia e a dor (medicamentos, drogas legalizadas ou não, overdose de atividades alienantes e pouco reflexivas), é porque o processo de autodescoberta é, em si, doloroso. Ele nos leva a perceber que nem tudo faz sentido, nem tudo é recompensador, nem tudo tem começo, meio e fim. Como lidar com isso? Restabelecendo uma ordem anterior e voltando pra dentro da caixa, de onde teremos respostas pra tudo e poderemos terceirizar as nossas próprias escolhas.

Não estranha, portanto, que a igreja, com 53,5% das menções, seja hoje a instituição mais confiável dos brasileiros, segundo a pesquisa da Confederação Nacional de Transporte (CNT), em parceria com o instituto MDA divulgada na terça-feira 21. É ela, em suas mais variadas formas, que oferece um caminho às nossas inseguranças relacionadas ao mundo como caos.

Ela nos devolve o manual de conduta sem o qual nos confrontamos com nós mesmos. Restabelece os laços que acreditávamos perdidos, entre os quais as virtudes familiares, hoje, segundo um discurso comum, em perigo diante de tantas possibilidades de amar e ser amado. E, finalmente, terceiriza nossas escolhas e determina um caminho para a felicidade: se ela não foi atingida, não é porque ela inexiste, mas porque não acreditamos nem nos vigiamos o suficiente.

A religião no Brasil sempre teve papel fundamental na educação e na consolidação das nossas relações sociais e comunitárias. Mas a resiliência em renovar seus manuais num mundo plural e diversificado, e a aceitação dessa resistência na repetição quase violenta de um discurso contra a nossa vocação natural de buscar respostas e formas de vida mais libertárias fora da velha caixa, mostram o quanto estamos hoje dispostos a abrir mão de uma nova ideia de liberdade por uma velha ideia de ordem.

Pois, se não sabemos lidar com a desordem, melhor deixar a sua administração à vontade divina – inclusive a hora de nossa morte sem necessariamente entender o que nos leva a ela.

Isso talvez explique o desprezo de determinados líderes religiosos em relação qualquer princípio de direitos humanos: quando se tem em mãos os princípios divinos, pode-se tudo, inclusive abandonar os que não se encaixam em nossos discursos de salvação. O que, claro, vai de encontro a uma ideia fundamental de amor, acolhimento, compreensão e caridade espalhada pelos evangelhos, e confunde uma ideia de religiosidade e espiritualidade com manual para sobreviver na selva e minimizar nossas angústias, nossos maiores termômetro sobre o que está ou não bem em nossa vida.

Em pesquisa também recente, jovens entre 16 e 24 anos ouvidos pelo Datafolha diziam considerar mais importante as instituições familiares (99%) e religiosas (78%) do que sexo (67%) ou casamento (66%).

O recado parece claro. Num mundo caótico e apontado como perigoso, não estranha que as Forças Armadas, também relacionadas a uma ideia de ordem ou restabelecimento da ordem, seja a segunda instituição mais confiável do Brasil, com 15,5% das citações na pesquisa da CNT/MDA – o triplo da confiança da polícia, a parte visível, e mais passível ao escrutínio da opinião pública, da política de segurança. Nas duas instituições mais confiáveis do País, as relações de desejo e escolhas de seus integrantes são sempre condicionadas a uma voz de comando hierarquizada.

Na outra ponta, as instituições menos confiáveis são justamente as que têm por natureza o contraponto e o embate de ideias como princípio básico de operação: partidos políticos (0,1%), Congresso Nacional (0,8%), governo (1,1%) e imprensa (4,8%). Ou seja: quanto mais plural, fragmentada e exposta a contradições é a instituição, menos confiança ela inspira.

Não deverá causar espanto, portanto, se amanhã a nossa indisposição em lidar com nosso mal-estar autorizar a terceirização da gestão de nossos conflitos à brutalidade de quem prometa substituir nossas negociações, contrapontos e dúvidas por certezas absolutas que reordenem, pelo medo, partidos políticos, Congresso Nacional, governo e imprensa. Essas certezas absolutas, quando avançam em áreas onde o contraponto é fundamental (a política, o relacionamento e a escola, por exemplo), são sempre motivos de tensão. Elas reduzem a condição humana, seus desejos e contradições, a uma multidão de falas decoradas, amedrontadas e obedientes.