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Política

Entrevista - Luiza Erundina

De volta à Câmara, Erundina fala em “resistir para não desaparecer”

por Murilo Matias — publicado 09/07/2015 02h20
Aos 80 anos e de volta à Câmara após um afastamento por motivos de saúde, a parlamentar classifica a supremacia de Cunha como “fundo do poço”, mas não perde esperança
Gabriela Korossy (31/03/2015)
Luiza-Erundina

A deputada do PSB em plenário, em março deste ano, poucos dias antes de se afastar

Afastada por quase dois meses da Câmara dos Deputados por problemas de saúde, Luiza Erundina (PSB-SP) retorna a um Congresso conflagrado por pautas que vão do ajuste fiscal à redução da maioridade penal. Nada que assuste a uma das mais presentes figuras da política brasileira nas últimas décadas. Aos 80 anos, em seu quinto mandato como deputada federal por São Paulo, Erundina continua a ser voz respeitada no parlamento, respaldada por uma trajetória de mais de 40 anos de vida pública e mais de dez milhões de votos conquistados ao longo de treze disputas eleitorais.

Na entrevista a CartaCapital, a parlamentar analisa o momento do Congresso sob a presidência de Eduardo Cunha, opina sobre a gestão Dilma Rousseff e a respeito das articulações políticas envolvendo o ex-presidente Lula. Fala ainda de seu desconforto no PSB, da relação com nomes ligados ao partido, como Marta Suplicy e Marina Silva, e comenta seu engajamento em um novo movimento político.

CartaCapital: A senhora diz que é preciso mudar a cultura política. A reforma encaminhada pelo Congresso cria um ambiente de mudança ou mantém a estrutura político-partidária de hoje?

Luiza Erundina: Não só mantém, mas piora. Não se trata de uma reforma, são remendos na legislação eleitoral, que agravam as distorções. O quadro partidário está exaurido, as legendas perderam sua identidade. A relação entre os poderes está completamente esgaçada. É uma uma crise sistêmica do Estado brasileiro e do sistema político, que necessitaria de uma reforma profunda, democrática e corajosa. Uma das principais causas da corrupção eleitoral é o financiamento privado de campanha e ele não só está mantido, mas passa a ser constitucionalizado. A crise política e institucional é de uma gravidade que eu nunca vi durante o tempo que estou na política.

CC: A senhora já esteve no Congresso sob a presidência de políticos como Michel Temer, Arlindo Chinaglia ou Severino Cavalcanti. Como é atuar sob a presidência de Eduardo Cunha?

LE: São nunces de um mesmo modelo, mas faz diferença. Os presidente do PT não fizeram diferença nenhuma, lamentavelmente. O Temer é uma pessoa com quem a gente convivia bem. Mas, hoje você tem uma conjuntura desfavorável para quem quer mudança. A gestão do Cunha, influencia não só no plenário, mas nas comissões, dominadas por conservadores. Os espaços onde conseguíamos interferir não existem mais. Entramos numa fase de resistência. É resistir para não desaparecer. Se chegou ao fundo do poço, mas, sou otimista, dependendo do que a gente faça, do diálogo com a sociedade, com os movimentos. Isso dá vitalidade aos nossos mandatos e a esperança de que essa representação seja uma ferramenta de luta dos trabalhadores.

CC: Falando em posicionamento, de que lado está a presidenta Dilma?

LE: Não tem lado nenhum, o pior é isso. O governo está sem rumo, não tem diálogo com o Congresso. A presidente tem aberto mão do seu poder. Transferir para alguém a articulação política é esvaziar o mandato, ela não poderia ter feito isso. Entendo que é o fim de um ciclo iniciado na luta de resistência, que culminou na criação do PT e chegou ao auge na primeira eleição do Lula. Na segunda eleição dele, a coisa foi diferente. Não são governos a serviço de avanços democráticos, muito menos o da Dilma. São gestões autoritárias, que contribuem para desarticular os movimentos. O sindical está domesticado, não se pode mais contar com o movimento na luta política, nem econômica. E na Câmara passa tudo o que o Cunha quer.

CC: Nesse cenário existe espaço para uma volta de Lula em 2018, com chances de vitória?

LE: Vai depender do que acontecer, por exemplo no processo da Lava-Jato, mas o Lula ainda é uma referência. A meu ver, não é mais aquele Lula de 1989, ele teve que fazer muitas concessões. Não estou falando em concessões éticas, não posso afirmar nada sobre isso e nem acredito que o Lula tenha se envolvido de alguma forma. A figura, a liderança dele, o papel social histórico não é mais o mesmo, está muito desgastado. Ele é ainda um potencial candidato, competitivo, mas não com aquela força que teve nas últimas eleições. Corre sérios riscos de não se eleger.

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Luiza Erundina (esquerda), durante uma agenda de campanha de Marina Silva (centro) em São Bernardo do Campo (SP)

CC: A senhora apoiaria a candidatura do Lula?

LE: Depende de como ele esteja, e de como estarão as esquerdas. Temos de reaglutinar as esquerdas. Tento fugir da opção individual, de uma figura. Se ele vier numa rearticulação das forças progressistas que pensam o país, têm uma visão nacionalista, preservam o patrimônio público e tem apreço pela democracia, eu embarco nessa canoa. Inclusive, está se falando em uma frente de esquerda, mas não só de esquerda, e, sim, plural, para reagir a esse momento do país. Isso pode suscitar, a médio prazo, em um partido com força política mais ampla, representativa do conjunto da sociedade. Aí embarco junto. Mas não mais ele individualmente, não mais ele e o PT, somente. O PT como proposta se esgotou.

CC: Como a senhora vê o atual momento da senadora Marta Suplicy, que deixou o PT para filiar-se ao PSB, repetindo um movimento que a senhora fez na década de 90?

LE: A Marta é uma liderança, tem um papel, mas pertence a um outro modelo, até pela sua origem de classe, pela forma de ser dela na política. É uma referência no Senado, embora eu não concorde muito com as posições dela, e mesmo a forma como saiu do PT. Marta teve todas as oportunidades no PT, foi deputada, senadora, ministra duas vezes e saiu da forma como saiu, magoada pois o partido não lhe deu a legenda para concorrer a prefeita de São Paulo ou a governadora. No fundo, ela tem um projeto muito pessoal, e a filiação ao PSB explica-se pelo momento que nosso partido vive, também desviado de seus compromissos históricos de uma concepção socialista de politica.

CC: A senhora se sente desconfortável no seu partido, o PSB?

LE: Eu não me sinto no partido, não me identifico mais com o PSB, essa é a verdade. Tenho um mandato pelo partido e quero cumpri-lo. Sigo, no possível, as orientações, mas o PSB não é aquele para onde eu migrei. Quando saí do PT, dizia estar mudando de casa, não de rua. A rua é o socialismo, que eu imaginava existisse no PSB. E existiu nas pessoas, em outro momento, mas, sobretudo a partir do segundo turno das eleições presidenciais de 2014, com a mudança na direção, o partido não é mais o mesmo. A fusão com o PPS, sem nenhum critério, a política de alianças, que envolve todo mundo, como os Bornhausen, descaracterizam e comprometem a identidade do partido. Não pode se desvirtuar tanto, senão fica igual ou pior do que aquilo que a gente considera o conservadorismo, o reacionarismo, a ausência de democracia.

CC: Ao final do mandato, que se encerra em 2018, avalia a perspectiva de mudança de partido?

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Erundina ao lado de Célio Turino em uma reunião do Raiz, grupo político que pretende virar um partido
LE: Nós estamos construindo um projeto alternativo com muitos jovens, professores, pessoas da universidade, que é a Raiz, uma proposta inspirada no Podemos da Espanha e no Syriza, da Grécia. Aos 80 anos estou muito mobilizada. Não tem importância que o movimento não seja um partido em 2016 ou 2018. Estou com esse grupo criando um espaço democrático, num certo sentido radical, daí a palavra raiz, inspirada na cultura ubuntu da África e indígena no Brasil. É uma concepção muito bonita do ecossocialismo, da relação harmônica entre homem e natureza. Mantenho meu mandato, ao qual me dedico muito seriamente a maior parte do tempo, e tento influenciar no esforço que essa juventude está fazendo. Essa perspectiva me anima, me faz feliz ao fazer política.

CC: Como é a sua relação com Marina?

LE: Me decepcionei com a Marina sendo coordenadora da sua campanha pela falta total de diálogo. Não tive influência como coordenadora e representante de uma força politica. Ela é muito fechada, e do ponto de vista ideológico tem dificuldades, até pela opção religiosa que fez, radical do ponto de vista moral e comportamental. Isso contraria a concepção socialista de mundo, de ser humano. Mesmo tendo popularidade, falta a ela uma identidade clara. Não vejo mais a Marina como alternativa.

CC: Quais outras mulheres políticas a senhora destaca?

LE: Tem muitas companheiras interessantíssimas despontando, jovens lideranças. Acredito na força de mulheres como Jô Moraes (PCdoB-MG), Jandira Feghali (PCdoB-RJ), Maria do Rosário (PT-RS), Carmen Zanotto (PPS-SC), Luciana Genro (Psol) e Janete Capiberibe (PSB-AP). São lideranças que se completam, e, graças a elas, conseguimos marcar alguma posição aqui dentro. Me inspiro nelas, no movimento feminista e na luta das mulheres na periferia. A força do meu mandato está aí.

CC: Aos 80 anos e com toda a sua trajetória, considera a sua voz ouvida no parlamento?

LE: Não sei se suficientemente, mas sou respeitada por todas as forças, a não ser pelos bolsonaros da vida, aí o antagonismo é absoluto. Sou considerada porque eu não mudo, as pessoas conhecem minhas ideias. Minha referência na política é o socialismo entendido como concepção de Estado, de vida, como a proposta para a humanidade. Claro que não vai ser no meu tempo, mas o apelo dentro do ser humano e pelo o que a história já nos ensinou, não tenho dúvida de que o socialismo é o caminho para uma sociedade civilizada, democrática, realizadora da felicidade humana.