Você está aqui: Página Inicial / Política / "'Irmão vota em irmão' não justifica políticas ruins"

Política

Rio de Janeiro

"'Irmão vota em irmão' não justifica políticas ruins"

por Marsílea Gombata publicado 25/09/2014 08h44, última modificação 26/09/2014 15h33
Ex-cantor gospel e bispo, Marcelo Crivella, candidato do PRB ao governo do Rio, distribui palavras de fé ao eleitorado e disputa voto evangélico com Garotinho
Divulgação
Marcelo Crivella

Botão Eleições 2014Do Rio de Janeiro

Evangélico e claramente preocupado em manter o fator “religião” em evidência na campanha pelo governo do estado do Rio de Janeiro, o candidato do PRB, Marcelo Crivella, afirma que a lógica do “irmão votar em irmão” está em desuso por parte do eleitorado religioso. “Essa coisa de irmão votar em irmão não pode ser desculpa para a gente eleger um irmão que muitas vezes não precisa ser eleito, mas sim de uma lição e não ser reeleito”, disse Crivella, em uma aparente alusão a seu rival Anthony Garotinho (PR), também evangélico e condenado por formação de quadrilha.

Em entrevista a CartaCapital depois de uma passagem rápida pela feira da praça General Osório, em Ipanema, Crivella ressaltou que o foco do eleitor deve ser o plano de governo do candidato. “Precisamos analisar as propostas e o que foi feito durante o mandato”, disse.

O ex-cantor gospel e bispo, no entanto, distribui aos eleitores mensagens de fé e não estranha o fato de eles esperarem dele mais uma postura de pastor do que de postulante ao Palácio Guanabara: “As pessoas me conhecem não é há 15, mas há 30 anos como cantor gospel. É natural que quisessem que eu estivesse distribuindo DVD de música, mas nessa época eu não posso”.

Confira a entrevista:

CartaCapital - Recentemente, uma operação desmantelou um esquema de corrupção dentro da Polícia Militar do Rio. Quais seriam as providências em relação a esse setor, em um eventual governo do senhor?
Marcelo Crivella - Acho que o governo tem de dar exemplo. Se não tiver mãos limpas, suja tudo. O Maracanã saiu o dobro do preço, polícia vira milícia, a educação e a saúde ficam um horror. Eu e o general Abreu, meu vice, queremos mudar os costumes, a mentalidade, a consciência, fazer uma política com espírito de servir. Se nós não tivermos uma classe política movida por idealismo e espírito público então isso se irradia por todos os setores, sobretudo para o da polícia, que tem uma arma na mão. Ao ver que os políticos roubam, enriquecem e não são punidos, automaticamente se instala o império dos espertos, dos malandros, daqueles que se dão bem enganando os outros. Temos que mudar isso. Polícia Militar sempre foi e sempre será seleção, treinamento e corregedoria independente externa. Mas, acima de tudo, é preciso que a classe política se dê respeito. Uma autoridade com tantos processos, morando em mansões, se deslocando de helicóptero e fazendo festas com empresários em Paris. Isso se reflete e se irradia, desgraçadamente, por todo setor público. O próprio bandido diz: “essas autoridades não têm moral para me prender”, enquanto a Polícia Militar diz: “esses são os costumes do nosso tempo”. E é assim que se sobrevive no Rio de Janeiro. Enquanto político pega propina com empresário que vende equipamentos para o estado ou presta serviços, o segurança dos políticos é um praça da PM, do Bombeiros que vê aquele político enriquecendo e pensa: também vou achacar os empresários. E a quais ele tem acesso? Ao dono do armazém, da mercearia, do botijão de gás, os motoboys, os homens das vans. É um horror. Mas a razão mais profunda da nossa crise é a classe política. O coronel que era comandante do Bope, o herói da nossa terra, de repente é pego recolhendo 50 reais. Meu Deus do céu, será que isso vale mais do que uma biografia, será que vale mais do que o louvor do seu povo? Mas isso são autoridades achacando as grandes empresas, a Petrobras.

CC - Dentre as 17 ações emergenciais para a segurança pública, o senhor disse que quer criar um batalhão de motociclistas para a repressão aos delitos de rua. Isso não daria um caráter ainda mais repressor para à polícia, que é acusada de abusos contra, por exemplo, manifestantes?
MC - A minha percepção é que se tivermos presença de policiais, e as pessoas sentirem que há policial pronto para ser usado, com capacidade de mobilidade para correr atrás dos bandidos, as pessoas vão se sentir mais seguras e vão ter melhor qualidade de vida. Não sei ainda se seria um batalhão de motociclistas ou uma companhia de motociclistas em cada um dos 39 batalhões que tem pelo estado do Rio de Janeiro. Agora, motocicleta tem vantagem de baixo custo, melhor mobilidade para se ter policial em várias áreas. Hoje as pessoas reclamam que andam em bairros, percorrem avenidas e não veem nenhum policial. Isso cria para os meliantes uma alta probabilidade de não serem pegos, de terem sucesso roubando.

CC - O senhor diz que pretende reforçar a PM com homens do Exército. O senhor vê com bons olhos o fato de a segurança pública ficar nas mãos das Forças Armadas?
MC – Precisamos trazer soldados que saíram com bom comportamento do Exército, sobretudo aqueles que tiveram um bom comportamento nas operações de garantia da lei e da ordem para que prestassem um concurso e pudessem ser admitidos temporariamente sem passar pela academia. Seria um quadro temporário, assim como um que precisamos criar com oficiais e sargentos que já se formaram e têm curso superior. Seria uma maneira de criar perspectivas e evitar que pessoas caíssem nas armadilhas do propinoduto. Outro dia foi pego um policial, mas tenho dúvida se isso não ocorre também no setor de saúde, transporte e até com merenda escolar.

CC - O site do senhor faz referência ainda ao programa Cimento Social, que em 2008 ficou marcado negativamente, quando dois militares do Exército que faziam a segurança das obras do projeto no morro da Providência foram acusados de entregar três jovens moradores a traficantes do morro da Mineira, de facção rival à da Providência na época. Como tirar o programa desse aspecto negativo pelo qual ficou marcado?
MC - Acho que esse estigma já foi retirado. Hoje no meu programa de governo é o que as pessoas mais apreciam. No Google, o filmezinho do Cimento Social teve 6 milhões de views, recorde absoluto, em 11 dias. O Cimento Social, na verdade, não é um cimento para assentar tijolo, mas para unir a sociedade. É para que o Rio de Janeiro entenda que, a essa altura do nosso desenvolvimento, não podemos admitir mais crianças vivendo em barracos nas comunidades carentes. É a sociedade se unindo para transformar barraco em lar. Dá para fazer casas muito adequadas, usando mão de obra local, em três dias. É um programa que tem tudo para dar certo.

CC - O senhor ia bem nas pesquisas e seguia empatado com Anthony Garotinho até falar “se deixar a população da Baixada, das regiões periféricas, vivendo na miséria, essas pessoas migram para vir roubar na capital onde tem a maior riqueza”. O senhor atribui sua queda nas pesquisas à frase considerada preconceituosa?
MC - Essa fala foi mal interpretada. A própria entrevistadora lamentou ver a frase que chamou de “texto descontextualizado”. Tenho feito, sim, alusão aos maus exemplos políticos refletindo no péssimo nível civilizatório que temos hoje no Rio. Isso é problema político. Isso nasce no desmando, na corrupção, dos problemas políticos. Isso, sim, é que está associado à criminalidade tanto no poder público quanto na esfera civil.

CCA presidenta Dilma Rousseff é apoiada pelo senhor e pelos candidatos Lindbergh Farias (PT), Anthony Garotinho (PR) e Luiz Fernando Pezão (PMDB). Como o senhor acha que essa “confusão” ressoa aos ouvidos do eleitor do Rio? E como mostrar para o eleitor de Dilma que o senhor é o candidato apoiado?
MC – O nosso esforço é manter o projeto do presidente Lula e da presidenta Dilma, no qual o Rio de Janeiro teve investimentos fantásticos. É isso o que estamos olhando. Estamos construindo uma refinaria de petróleo, fazendo um submarino nuclear, uma usina nuclear. Precisamos terminar a rodovia do contorno, do Arco Metropolitano do Rio de Janeiro. Temos financiamentos vultosos do BNDES na nossa indústria siderúrgica, naval e automobilística. Na indústria naval os investimentos da Petrobras são mais de 200 bilhões até 2020. A presidenta Dilma se viu na contingência de quatro partidos da base terem candidatos. E acho que ela tem feito campanha até com muita ética. Mas eu sou um homem bem resolvido, não tenho ciúmes.

CC - Em quem o senhor votará para presidente: Dilma, que o apoia, ou Marina, que também é evangélica?
MC - Eu amo a Marina, tenho por ela todo apreço, admiração e respeito. Mas eu gosto de mim. Sou fiel a Dilma. Se a Dilma for perder, vamos votar na Dilma. Se ela for ganhar, vamos votar na Dilma. Por quê? Porque somos fieis. Temos um projeto e não podemos perdê-lo. O Rio de Janeiro com esse projeto já está um problema, imagina sem. Tínhamos um desemprego aqui antes do Lula que ultrapassava os 20%, contra os 5% que hoje temos. Qualquer político responsável não pode colocar isso em risco.

CC - O senhor estava distribuindo um DVD sobre prestação de contas, mas alguns pareciam decepcionados com o fato de não se tratar de palavras de louvor. Como o senhor vê a relação entre política e religião, especialmente no Rio? No início da campanha o TRE proibiu o senhor de distribuir CDs da Igreja Universal...
MC – O TRE foi a uma reunião em um domingo de manhã, antes do período eleitoral, na qual eu estava vendendo DVDs para ajudar a Fazenda Canaã, projeto padrão de reforma agrária na Bahia pelo qual sou responsável há 15 anos. O TRE interpretou mal, mas não deu em nada, porque os procuradores entenderam que se tratava de uma denúncia sem sentido. As pessoas me conhecem não é há 15 anos, não, mas há 30 anos como cantor gospel. As pessoas me viram ir para a África, onde passei dez anos, voltar e fazer campanha, um projeto de padrão para a reforma agrária. É natural, portanto, que me quisessem distribuindo CD de música, mas nessa época eu não posso. Esse DVD de propostas para as pessoas assistirem é o que pode ser meu diferencial, pois tenho pouco tempo de televisão. Meu tempo de televisão é de um minuto, e o do Pezão é de oito minutos. É quase um capítulo de novela, se for comparar.

CC - Acredita que os evangélicos possam usar a lógica do "irmão vota em irmão"? O senhor concorda com essa tese?
MC - Acho que na política, não. A gente precisa realmente verificar um projeto, verificar a ficha do candidato, ver se realmente tem uma ficha limpa. Essa história de irmão votar em irmão não pode ser desculpa para a gente eleger um irmão que muitas vezes não precisa ser eleito, mas sim de uma lição e não ser reeleito. Precisamos é analisar as propostas e o que foi feito durante o mandato. É muito importante na fase que estamos do nosso processo de evolução econômica e social cultural e política, para que a gente reestruture a política.

CC - O senhor é sobrinho do bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, que se diz a favor do aborto enquanto política pública do setor de saúde. Qual a posição do senhor sobre o tema?
MC - Sou absolutamente contra o aborto. Uma mulher não quer fazer aborto, ela não tem é condições de criar a criança. Eu sou contra ela fazer o aborto, que o Estado só apoia em casos de estupro e risco de vida. E aí acho que a mulher é quem deve decidir. Eu não faria. Se eu fosse mulher, se fosse estuprada ou se corresse risco de vida, eu não faria um aborto. Mas daí é uma decisão dela, o que a lei permite. Mas legalizar o aborto, eu sou contra. Absolutamente contra.