Política

Argentina

Cristina será reeleita

por Gianni Carta publicado 21/10/2011 13h49, última modificação 23/10/2011 09h06
Enfraquecimento da oposição e crescimento econômico pavimentam caminho da presidenta rumo ao 2º mandato

Cristina Fernandéz de Kirchner será reeleita na presidencial de domingo 23. Ela adentrou o palco do Teatro Coliseo na quarta-feira 19, em Buenos Aires, com olhar de vitória. Confetes celestes e brancos, as cores da bandeira argentina, choveram na candidata do Partido Peronista. Na plateia apinhada a prestigiar a futura presidenta a encerrar sua campanha na capital, ministros, governadores, dirigentes da central operária CGT e as Mães e Avós da Praça de Maio a aplaudiram de pé.

A certeza da reeleição de Cristina, como é conhecida, tem fundamento.

Neste país isento de um sistema estruturado de partidos políticos, a oposição mostrou-se incapaz de forjar alianças e encontra-se fragmentada.

E após as primárias de 14 de agosto legendas foram impedidas de formar coalizões, de acordo com a legislação em vigor.

Nesse quadro pouco atraente para a oposição, os candidatos à presidência, incluindo o socialista e governador de Santa Fe, Hermes Binner, melhor colocado da oposição segundo pesquisas de intenção de votos, contentam-se com um segundo lugar – em miúdos, meros 15% dos votos, se muito.

E, como é sempre o caso, a maior força de um candidato é uma economia bem engrenada, caso, pelo menos na aparência, da Argentina sob Cristina.

Com crescimento do PIB de 9,2% em 2010, os argentinos “crêem que a economia vai de vento em popa”, disse Adrian Ventura, articulista do diário centrista La Nación, para CartaCapital. O povo consome como se estivesse rico, emenda Ventura. Mas, infelizmente, não se dá conta que está protegido, pelo menos por ora, por meios de transferências, subsídios e acordos salariais generosos.

O futuro de Cristina no poder parece no mínimo turbulento, e, de forma geral, o argentino parece preferir não mexer no time enquanto ele vence.

Em miúdos, foca-se no curto prazo.

Essa linha política, de qualquer forma, parece render frutos para objetivos eleitorais. Pesquisas de intenção de votos apontam – já no primeiro turno – a vitória de Cristina, com entre 51 e 55% dos votos. “A questão não é se Cristina vai ganhar, mas por quantos votos a mais ganhará de seus adversários”, sintetizou Alfredo Catoira, diretor de informática da Corte Suprema de Justiça, de 60 anos.

Para ser eleita, Cristina precisa superar 45% dos votos. Também vence se obtiver o apoio de 40% do eleitorado, caso o segundo colocado esteja ao menos 10% na retaguarda. De fato, já nas primárias, realizadas em 14 de agosto, Cristina angariou 50,07% dos votos. Em outras democracias, vale exprimir, obter pouco mais de 50% da confiança do eleitorado não é nada de notável. Na França de Nicolas Sarkozy, por exemplo, a oposição esquerdista continuou a ter forte impacto na política.

Mas a Argentina é um país diferente.

Devido justamente a essa oposição dividida, a presidenta poderá atuar como se tivesse o apoio de uma vasta maioria da população.

Ademais, nesse tablado apartidário os argentinos votam no indivíduo, não em legendas ou políticos com programas bem delineados. Cristina, cujo programa se baseia em prover aos menos favorecidos graças aos altos preços das commodities a favorecer seu país, só tem a ganhar. Por ora, vale estressar.

A nova Evita?

Carismática, exímia oradora, essa advogada de 58 anos, tem méritos. Conheceu o marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, falecido no final de 2010, na universidade. Mudou-se de sua cidade natal, La Plata, capital de Buenos Aires, para Santa Cruz, na Patagônia, de onde era oriundo o marido. Lá, Cristina, como o marido, construiu sua carreira política. Juntamente com o marido, criou o Kirchnerismo, um suposto continuísmo do peronismo. Foi deputada, senadora, cumpriu um mandato como presidenta. Na Casa Rosada, já presidenta a partir de 2007, lidou com questões como abusos de direitos humanos, e legalizou casamentos do mesmo sexo. Forjou elos com sindicatos. Como o marido, promoveu o Kirchnerismo.

No plano internacional, a presidenta Cristina voltou a negociar com o Fundo Monetário Internacional. Fez mais: deu início a novas negociações com as dívidas da Argentina com o Clube de Paris. Tanto na Argentina como a nível internacional, era inevitável que ela fosse comparada à mítica Eva Péron.

Evita, a lendária ex-dançarina de cabaré conquistou as massas ao lado de seu marido Juan Domingo Perón, mas jamais seduziu as classes médias e altas. Quiçá Cristina foi mais longe: ela conquistou todas as classes sociais, incluindo as mais endinheiradas. Só não conseguiu seduzir Buenos Aires.

Assim como Evita, Cristina tem carisma, gosta de se vestir bem. Mas as comparações aí terminam. Cristina nasceu em berço da classe média, Evita, a dançarina de cabaré, vinha de meio pobre da sociedade rural. A carreira meteórica como política de Cristina distingue-se daquela de Evita, esta impossibilitada de aliar-se ao marido oficialmente no campo político devido à resistência dos militares – e das elites.

Ademais, Evita tinha um câncer que a matou aos 33 anos. Quando ocupou o cargo de presidenta pela primeira vez, Cristina tinha 54 anos. Seu filho já tinha 30 anos.

Diferenças à parte, na noite de quarta-feira, no Teatro Coliseo, aqui em Buenos Aires, era difícil distinguir a oratória de Cristina daquela de Evita. “Não tenho rancores de ninguém”, anunciou Cristina. “Temos de deixar de lado as questões menores”, para encontrar um “ponto de união com o objetivo de superar as diferenças sem perder a identidade.”

Acrescentou Cristina: “Convoco todos os dirigentes do país à unidade nacional para trabalhar uma Argentina diferente”.

A presidenta quis também mostrar como a Argentina está integrada nesse bloco emergente que é a América Latina. Faz sentido o posicionamento de Cristina. E é preventivo: diante de uma crise global que poderá afetar as commodities argentinas e deixar o Brasil vulnerável, melhor estreitar os laços com o poderoso vizinho.

Resumiu Alcadio Oña, do diário Clarín: “Dançamos ao ritmo da soja e da economia brasileira”.

“Somos gente do Mercosul, do Unasul (União das Nações Sul-Americanas)”, afirmou Cristina no seu discurso no Teatro do Coliseo. “Somos orgulhosamente latino-americanos e se fizermos uma integração inteligente poderemos ser protagonistas do século XXI porque como região produzimos alimentos e energia.”

À sombra do marido falecido

Trajando um vestido negro, em luto por Néstor, Cristina recordou o marido. Agradeceu aos “milhões de argentinos” que a ajudaram neste ano particular. “Tanto como presidenta como mulher.” Voltou-se então para os filhos, Máximo, de 32 anos, e Florencia, de 21, e, lágrimas nos olhos, disse: “Ele (Néstor) está em todos os lugares, mas neles está mais do que em nenhuma parte”.

Uma fonte, professora de direito da Universidade de Buenos Aires, que prefere não ser citada por ter tido problemas para ser promovida no mundo acadêmico e jurídico devido às preferências de Cristina para certos postos, é crítica em relação ao uso da presidenta da imagem do marido morto. “Ela usa um pieguismo do mais baixo nível para seduzir o povo.” Indagada se essa conduta corresponde àquela de Evita, a fonte retrucou: ‘’Claro, as comparações, bem ou mal, de Cristina com Evita são mais do que válidas.”

Há quem discorde da fonte acima citada. Eric Nepomuceno, o jornalista e escritor especializado em América Latina, disse em recente entrevista a CartaCapital que a capitalização política da figura de Néstor Kirchner por Cristina foi similar ao uso da figura do ex-presidente Lula pela então candidata Dilma Rousseff, em 2010.

“Ninguém fala que a Cristina tem uma militância política mais antiga e ativa do que o seu marido”, opinou Nepomuceno. “A Dilma, por exemplo, falava constantemente de Lula, uma jogada de marketing legítima, e ela seria muito tola se não o fizesse.”

Nepomuceno pode ter razão, mas em termos.

Dilma é protégé de um político com apelo, o Lula. Mas, claramente, o apelo de um marido morto, como é o caso de Cristina com seu falecido marido Néstor Kirchner, é muito maior e adentra zonas obscuras. A morte, parece claro, tem outro impacto no eleitorado que viveu sob dois mandatos de um presidente popular com Néstor Kirchner. Se Lula tem chances de voltar a ser presidente, esse não é mais o caso de Kirchner.

Ademais, Cristina continua a construir a imagem de seu falecido marido para ganhar maior popularidade. Por exemplo, o mausoléu de 600 metros quadrados de Kirchner, avaliado em milhões de pesos, a impor-se num modesto cemitério de Rio Gallegos, na Patagônia, com inauguração prevista pra dia 27, escassos dias após a eleição, tem um valor simbólico.

O Kirchnerismo vive, mas agora sob a tutela de Cristina.

O ambíguo Kirchnerismo

O Kirchnerismo, de fato, é outro movimento que parece, para este jornalista estrangeiro, no mínimio nebuloso. Baseia-se numa nostalgia por um passado ambíguo, no qual movimentos de diferentes tendências ideológicas se confundem. E, como disse Alfredo Catoira, o diretor de informática da Corte Suprema de Justiça, esse “pêndulo a oscilar entre direita e esquerda faz parte da sabedoria do hábil Perón”.

O motivo?

“Nos anos em que esteve no poder, Perón soube unir todos os movimentos para seu proveito.”

De Perón, admirador de Mussolini, nasceu essa corrente peronista que engloba nacionalismo, independência internacional e um governo forte. Como diz a professora de direito da Universidade de Buenos Aires, Perón trouxe coisas positivas como os direitos aos trabalhadores.

No entanto, o nacionalismo, “último refúgio do patife”, como já dizia no século XVIII o doutor Johnson, hoje é coisa para o lixo.

Se por governo forte entende-se ajuda ao povo em momentos de crise econômica, tudo parece correr dentro dos trilhos. Contudo, Perón, Mussolini e outros líderes com inclinações autocráticas não são exatamente flores que se cheirem.

Na adversidade são capazes de tudo. E por vezes não medem as conseqüências de seus atos. Em 1955, quando Perón quis passar legislação legalizando a prostituição e o divórcio, oponentes no exército bombardearam a Plaza de Mayo. Quase 400 pessoas perderam a vida.

“Sofremos muito sob Perón”, resumiu Angelita Catoira, professora e diretora aposentada de Segundo Grau.

Aos 81 anos, Catoira não aceita, ao contrário dos mais de 50% que votam em Cristina, o fato de os Kirchner terem se enriquecido, em suas palavras, “vendendo a Patagônia aos chilenos”.

Isso aconteceu em El Calafate, pequena cidade na província de Santa Cruz, na Patagônia. Lá os Kirchner fizeram fortuna comprando e vendendo casas, lotes, apartamentos, hotéis, etc. Desde que chegou à Casa Rosada, em 2003, o casal multiplicou em 1.000% o patrimônio da família. De 2,8 milhões de reais pularam para uma cifra de 29 milhões de reais.

Houve investigações sobre o enriquecimento dos Kirchner. Mas o processo foi arquivado. O motivo? Um judiciário que, parece claro, funciona mal. Mesmo assim, nas urnas não pesa esse suspeito enriquecimento dos Kirchner. Elisa Carriò, candidata presidencial da Coalizão Cívica, foi objetiva: ”Às vezes as máfias são eleitas”.

Talvez Carriò exagere. Mas até que ponto?

“Veja, a maneira como se enriqueceram os Kirchner é criticável, mas nada foi provado”, pondera Catoira, o diretor de informática da Corte Suprema de Justiça.

E por que ele vota em Cristina?

“Voto na sua política social, que tem crédito. Cristina construiu novos hospitais, escolas, cientistas argentinos no exterior estão voltando para este país. Voto, em outras palavras, na sua gestão. Além disso, os outros candidatos não têm credibilidade. Não sabem sequer falar.”

O engenheiro com especialização em informática e passado como militante da Juventude Peronista acrescenta: “Perón dizia que a  realidade é a verdade, e quando os Kirchner chegaram ao poder a economista deste país era um desastre”.

A economia cresce, mas...

De fato, ao chegar no poder em 2003 Néstor Kirchner definiu a economia deste país como um “inferno”. O índice de pobreza era de 58%, o nível de desemprego superava os 20%, o PIB despencava.

O país havia se tornado um pária de mercados financeiros internacionais desde 2001, quando o governo anunciou o calote de cerca de 100 bilhões de dólares, o maior da História.

Os Kirchner conseguiram melhorar o quadro. Como dito acima, o PIB cresceu 9,2% no ano passado. Nos últimos três anos, o desemprego caiu de 10% para 7%.

No entanto, a inflação encontra-se em altíssimos patamares. Oficialmente, ela seria de 8%. Mas articulistas como Adrian Ventura e todos entrevistados pela reportagem de CartaCapital, colocam a inflação na casa dos 30%. “O governo de Cristina claramente manipula os indicadores econômicos”, ofereceu Ventura. Um taxista, manjada fonte de correspondentes, concordou: “Basta ir ao supermercado e ver como os preços sobem em alta velocidade”.

Ventura lembra que o trabalho negro está na faixa dos 40%. A taxa de pobreza, continua o articulista, também foi manipulada: estaria acima dos 8%, talvez beirando os 25%.

Cristina se beneficia do robusto crescimento. Ela usa, como dito acima, subsídios para combater a inflação e manter o fluxo de gastos públicos. Mas até quando? E qual será a política econômica de Cristina?

“Podemos dizer que a gestão econômica dos Kirchner não teve um eixo central, mas o foco sempre esteve no curto prazo e houve poucas decisões pensadas no longo prazo”, disse Fausto Spotorno, da consultoria Orlando Ferreres.

No entanto, assim como o plano real foi implementado pelo ministro da Fazenda Rubens Ricúpero e não por Fernando Henrique Cardoso, como se diz, o plano de reestruturação da economia argentina foi obra do ministro da Economia Roberto Lavagna. Ventura lembra, ainda, que o mérito da reestruturação foi também de Eduardo Duhalde, à época, entre 2002 e 2003, presidente interino.

Duhalde, peronista conservador, é candidato presidencial.

Outros candidatos, além dos já citados Binner e Carriò, são o peronista Alberto Rodriguez Saá, Ricardo Alfonsín (filho do ex-presidente, candidato do UCR), e Jorge Altamira (Frente de Esquerda e Trabalhadores).

Nenhum, vale recapitular, tem a mínima chance contra Cristina.

Críticas e escândalos

Mesmo assim, nas ruas de Buenos Aires não escasseiam pequenas manifestações contra Cristina.

“Cristina é funcionária da direita”, diz Juliana, do Partido Obrero, que faz parte da Frente de Esquerda do candidato Altamira. Aluna da universidade de Buenos Aires, Juliana entrega panfletos nos quais se lê: “Solo faltan 20.000 votos para tener diputados de izquierda”.

Explica Juliana: “Com 20.000 votos, Gabriel Solano é eleito deputado e assim teremos um bloco para contestar projetos de lei de Cristina”.

Podemos fotografá-la?

Juliana e Carlos, seu companheiro na distribuição de panfletos do Partido Obrero, conversam de costas para este repórter por uns minutos. E finalmente se deixam fotografar.

É provável que mesmo com o cartão de visitas deste repórter, os dois tenham temido estar diante de um agente da Side (agência de serviço secreto argentino).

Além dos temores que remontam à ditadura, Cristina tem em seu governo alguns hooligans. Nesta semana, o secretário do Comércio Guillermo Moreno agrediu um militante da oposição. Cristina rebateu que Moreno é um homem “honesto”. Honesto?

Cristina também é criticada por manipular a imprensa. Cerca de 40% da publicidade do governo vai para dois jornais que favorecem o governo: Pagina 12 e El Tiempo Argentino.

Quando Hugo Moyano, líder da divisão radical do principal sindicato do país, a Confederação Geral dos Trabalhadores, disse que o governo não era suficientemente peronista, foi iniciado o processo para afastá-lo do cargo. Os dias de Moyano, que dizem querer ser o Lula argentino, estão contados.

E, finalmente, o caso de Julio Grondona, reeleito pela nona vez presidente da Associação de Futebol Argentina (AFA) não parece preocupar Cristina. Aos 80 anos, Grondona governará até 2015.

Anos atrás, Grondona e Cristina selaram um acordo segundo o qual a AFA rompeu o contrato de direitos televisivos que mantinha com o grupo de meios de comunicação Clarín. Assim, o grupo rival de Cristina perdeu os direitos televisivos para o Estado. Desde então, os contribuintes pagam cerca de 100 milhões de euros anuais para o financiamento da propaganda estatal para o campeonato mostrado em tevê aberta, e não mais via pay-per-view.

Segundo uma denúncia, Grondona teria recebido dinheiro ilícito do grupo Clarín em 2009, ano em que os clubes reclamavam um resgate estatal para sua situação financeira.

No entanto, mesmo se a denúncia for confirmada, o velho Grondona  continuará capitaneando a AFA. Cristina, por sua vez, não deixou o escândalo abalar sua campanha. Enquanto isso, a vasta maioria do povo, ao que parece, permanece apática.

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