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Crise política aumenta visibilidade de grupos pró-golpe

por Deutsche Welle publicado 27/03/2015 05h11
Movimentos pró-intervenção militar existem desde redemocratização, porém ganharam voz nas ruas em meio à polarização política. Mas eles são minoritários e têm apoio ínfimo da sociedade e do Exército
Tania Rêgo/ABr
15 de março

Segundo os entrevistados, muitos apoiadores de um golpe não necessariamente são favoráveis a uma ditadura militar

Por Marina Estarque, de São Paulo / Clarissa Neher

A insatisfação popular com o fraco desempenho econômico e o governo Dilma Rousseff, enfraquecido por escândalos de corrupção, aumentou a visibilidade de grupos que pedem um golpe militar no Brasil.

“Após a redemocratização, falar bem dos militares era algo maldito. Quem tinha essa opinião não tinha coragem de falar em público. Mas agora houve uma suposta legitimação desse posicionamento conservador, que sempre existiu, mas não tinha espaço. A polarização abriu caminho para essa direita que estava mais escondida”, diz o cientista político Valeriano Costa, diretor do Centro de Estudos de Opinião Pública da Unicamp.

O sociólogo Sérgio Costa, da Universidade Livre de Berlim, concorda. Para ele, há uma insatisfação generalizada com o sistema político brasileiro, que “parece estar de costas para a sociedade civil”. “A alusão à ditadura, ainda que marginal, aparece neste momento de perplexidade com essa ‘surdez' do sistema”, opina.

Especialistas são unânimes em ressaltar, entretanto, que tais movimentos são minoritários e não há um risco real de golpe no Brasil, seja por falta de apoio de lideranças políticas e da sociedade, seja por não haver interesse e engajamento dos próprios militares.

Segundo uma pesquisa realizada pelo Datafolha nas manifestações de 15 de março em São Paulo, 85% das pessoas acreditavam que a democracia é sempre a melhor forma de governo. Por outro lado, 10% defendiam que, em certas circunstâncias, uma ditadura pode ser melhor que um regime democrático. Para 3%, era indiferente.

“Uma empresa de consultoria fez um amplo levantamento dos temas tratados nas redes sociais no dia do protesto e apenas 1% se referiam à ditadura militar. Esse grupo representa a minoria fascista que há em todas as sociedades – na Europa, no momento, esta parcela da população é, lamentavelmente, bem maior que 1%”, aponta Costa, da Universidade Livre de Berlim.

Ainda que minoritários, grupos como "SOS Forças Armadas" e "Legalistas" chamaram atenção nos últimos protestos. Em São Paulo, uma faixa com os dizeres “intervenção militar já” se tornou um ponto de encontro de simpatizantes, que se aglomeravam para fazer selfies com o cartaz.

O "SOS Forças Armadas" deve ir às ruas também neste sábado 28, se antecipando aos protestos marcados para 12 de abril por outros organizadores, como "Revoltados Online", "Movimento Brasil Livre" e "Vem pra Rua".

Os estudiosos destacam, entretanto, que muitos apoiadores de um golpe não necessariamente são favoráveis a uma ditadura militar. É o caso de Adriana Teche, de 28 anos, que saiu de Diadema, na região metropolitana de São Paulo, para pedir o impeachment da presidente Dilma Rousseff na Avenida Paulista em 15 de março.

Adriana diz que o país precisa de uma intervenção militar, que tire o Partido dos Trabalhadores do poder. “Mas não é para durar tanto como foi da última vez, sou contra uma ditadura”, diz ela, que não levou cartazes pedindo golpe, nem se juntou a grupos que claramente pediam a intervenção militar.

Da mesma forma, Andréia Borgoni, de 34 anos, foi à manifestação para apoiar o movimento "Revoltados Online", que também não demanda um golpe militar. Apesar disso, ela acredita que essa seria a melhor forma de afastar o PT da Presidência, caso o impeachment não prospere.

De família de militares, Andréia se define como “de direita” e contra o comunismo.“Eu tive uma educação antipetista, mas não diria conservadora, porque sou toda tatuada, tenho piercing e cabelo colorido. Sou contra drogas e álcool, sou conservadora nesse sentido”, conta.

Para ela, tanto um golpe quanto uma ditadura militar seriam melhores do que a situação atual: “Pode ser apenas para tomar o Congresso e colocar alguém no lugar ou fazer nova eleição, porque essa foi fraudada. Mas eu sou uma pessoa correta, não faço nada fora das regras, então eu me encaixaria também no regime de 1964.”

Sobre a tortura, assassinato e desaparecimento de opositores políticos praticados na ditadura, Andréia compara os atos ao fuzilamento do brasileiro Marco Archer, condenado à morte em janeiro, na Indonésia, por tráfico de drogas.

“Você tem que ser muito rígido, porque no Brasil ninguém respeita nada. No momento, eu não sei se sou a favor ou contra, mas infelizmente é assim. É muito bom ter liberdade, com certeza, mas às vezes as pessoas só aprendem tomando uma dura mesmo”, afirma Andréia, para quem o país já vive uma “ditadura comunista do PT”.

De acordo com os estudiosos, é natural que uma minoria recorra a argumentos autoritários em situações de crise econômica e política. Isso não significaria uma fragilidade maior da democracia brasileira.

“Acho que é compreensível que haja esse tipo de exagero e arroubo. Não é incomum que essas opções radicais e soluções definitivas sejam lembradas nesses momentos, principalmente tendo em vista os setores envolvidos nas manifestações”, pondera o professor de História do Brasil Carlos Fico, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Por outro lado, especialistas fazem outras críticas à cultura democrática do Brasil. Como fragilidades, apontam a grande desigualdade social, o financiamento de campanhas eleitorais e distorções de representação no Congresso.

Outro problema, segundo a cientista política Sonia Fleury, da FGV, é que os brasileiros são muito descrentes do sistema político e têm menor adesão à democracia, quando comparados a cidadãos de outros países latino-americanos.

Segundo o levantamento Latinobarómetro, de 2013, o Brasil está em penúltimo lugar em relação ao apoio de seus cidadãos à democracia, entre 18 países da América Latina.

Para Cid Benjamin, que foi preso e torturado durante a ditadura, após ter participado do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, a cultura democrática no Brasil é “insuficiente”.

“Ainda não abriram os arquivos da repressão, e os militares continuam sendo formados da mesma maneira, como se o golpe tivesse sido uma revolução democrática que salvou o Brasil”, diz Benjamin. "Sempre vai haver viúvas da ditadura, mas a sociedade poderia ter criado mais anticorpos contra experiências autoritárias.

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