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COP 21 e os desafios para a agropecuária

por Rui Daher publicado 04/12/2015 05h26
A agropecuária tem enorme papel a representar na conferência do clima e basta inteligência para entender que a floresta mantida ajuda a lavoura
Claudio Fachel/Palácio Piratin
Agropecuária

A floresta mantém o solo rico em matéria orgânica, uma condição básica de plantio

Se os caríssimos leitores esperam que esta coluna aborde os temas que se enfileiram nos cadernos especiais dedicados ao agronegócio nas folhas e telas cotidianas, por favor, sirvam-se de outro canal.

Como? Ainda não viram? Perderam pouco. O tema central sempre diz que o planeta precisa aumentar a produção de alimentos. Formidável novidade. Alguém chegou a duvidar? Os subtemas seguirão um mesmo diapasão: investimentos em infraestrutura e inovação tecnológica; logística, crédito rural, competitividade e lucro insuficientes; et à cause sempre de governos ora ausentes ora muito presentes; exportações vivem ameaçadas, mas vão; crise na indústria de máquinas e insumos, mas também vão. Segue o jogo.

Os anúncios publicitários, pouco diversificados, oxigenarão as finanças da “edição especial”. Presentes, os infalíveis (?!) Banco do Brasil e Caixa, confederações, federações, associações e algumas multinacionais, hoje mais precavidas.

Se você fez uma inserção comercial ser-lhe-ão facultados opinião e foto sorridente. Outros recebem a honra mesmo sem gastar. Por quê? Ora, porque foram feitos para isso, que assim segue o jogo na Federação de Corporações.

Podem crer. Globo, Folha, Estadão, Valor, para ficarmos apenas no eixo Rio-São Paulo, pelo menos duas vezes ao ano, acham especiais os campesinos, sertanejos, caboclos e ruralistas (posso ter errado a ordem).

Sendo assim e seguindo minha admiração pelos papas Francisco (Vaticano) e José Graziano da Silva (FAO), nesta semana conversaremos sobre a COP 21, Conferência do Clima da ONU, aberta no dia 30, em Le Bourget, Paris, e irá até 11 de dezembro, com a presença de chefes de Estado e representantes de mais de 150 países.

Sei que muitos leitores são céticos a respeito de eventos dessa natureza. Com razão. “Rodadas” nunca arredondadas, “Protocolos” desrespeitados, “Objetivos Milenares” nunca alcançados. Rodízio de lugares aprazíveis onde se filma “Picnic/Férias de Amor” (Joshua Logan, 1955), sem as belezas de Kim Novak, William Holden e “Moonglow”.

As primeiras notícias vindas de Paris trazem alento. Fazem parecer a moçada tomando jeito ou dando ouvidos aos marqueteiros que sabem que o tema rende votos.    

O Brasil, que nos últimos anos andou fazendo direitinho a lição de casa, começou entrando de sola, dando de galo, impondo mais obrigações do que intenções, que destas o inferno poluidor está cheio. Quer que os países pobres e em desenvolvimento sejam ajudados financeira e tecnologicamente por aqueles que mais estupraram a camada de ozônio.

Claro que no plano das intenções os temas se repetem: proteger as florestas, ampliar o uso de energias renováveis, definir um valor para o carbono.

Não pensem, no entanto, que será fácil. Como ficar otimista quando o líder da China, Xi Jiping, declara “ser imperativo o acordo climático levar em conta a diferenciação entre os países”, e Barack Obama responde “um dos inimigos que temos que combater nesta conferência é o cinismo”?

Sendo chato, acho que, desta vez, talvez o ofertório passe da página 9, mas não chegue à 32. Tanto que pobres e ricos já começaram a divergir sobre quem pagará a conta. Aposto nos pobres.

Chega-me aos olhos sequência de “Missão Impossível versão 49”, com Tom Cruise, Zhang Ziyi, Lucy Liu e Jackie Chan fechando a canastra.

Mas, vamos acreditar felizes. Até o dia 11 muita coisa pode acontecer.

Claro que a agropecuária tem enorme papel a representar nessa epopeia. Nada muito complicado. Ela já vem sendo cobrada há, pelo menos, três décadas e tem-se ajuizado.

Basta inteligência para entender que a floresta mantida ajuda a lavoura, o pasto e a alma. Daí dispor-se a reconstituir matas, recuperar córregos e nascentes. Criar coragem para impedir que altas aplicações de adubos químicos salinizem as terras e que os agrotóxicos façam rodízio de moléculas a cada nova praga ou doença, infeccionando bolsos agros. Entender o óbvio: um solo rico em matéria orgânica é condição básica de plantio e manutenção da vida microbiana, com lindos efeitos na produtividade. Deixar de lado a ideia de que a água é tanta que pode ser desperdiçada.

Simples, não? Talvez pouco mais, pouco menos. O resto não é conosco.

Se hoje falhamos com o meio ambiente e o clima é no essencial: o homem. Trabalhadores e trabalhadoras rurais respiram o mesmo ar e se afogam nos mesmos dejetos que nós. Com uma diferença: a pobreza continua incrustrada em seus sonhos.

E com isso pouco nos importamos e nada aprendemos.

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