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Conversas com Antônio

por Redação Carta Capital — publicado 08/12/2011 15h46, última modificação 08/12/2011 16h20
Novas revelações de Nem, o traficante que administrava a Rocinha como uma empresa. Por Gil Alessi

Por Gil Alessi

 

Nem sorri. É uma expressão semelhante àquela da foto que estampa o pôster do Disque-Denúncia. Sentado numa cadeira de vime, na sala de estar de sua casa no topo da Rocinha, aproveita o momento de tranquilidade para brincar com as filhas e o filho. Em instantes, o sorriso dá lugar a uma expressão preocupada. Num pulo, segura a caçula pelo braço. “Menina, me dá aqui essa tesoura”, diz, ao tirar das mãos da criança o utensílio e um pacote de goiabada. Senta-se, e termina o serviço, enquanto aplica um sermão: “Quantas vezes já te falei pra não mexer em tesoura de ponta? Se você quer alguma coisa, pede que eu abro”.

Sobre uma pequena mesa de centro na sala estão um walkie-talkie e o celular. Nem insere chips diferentes no aparelho, “para dificultar o rastreamento”. Mas o cerco apertou e o traficante passou a usar métodos mais antigos. Ordens e diretrizes importantes passaram a ser despachadas por carta, com uma instrução: queime depois de ler.

Um de seus “soldados” aparece na porta da casa. Tem nas mãos uma amostra de maconha e no rosto uma expressão desolada. Nem pede às filhas para brincar na outra sala, enquanto inspeciona a erva. Aperta, cheira e fica decepcionado quando ela rapidamente esfarela e cai na mesinha. “Pode devolver tudo. Que p... é essa... Não dá pra vender essa maconha vagabunda.” “Já é, Mestre”, responde o soldado.

Mestre é o outro apelido de Antônio Francisco Bonfim Lopes. Antes de ser preso, Nem comandava as atividades da facção criminosa Amigos dos Amigos, ou ADA, na Favela da Rocinha, a maior da América Latina. “Hoje em dia, se um moleque vem me procurar querendo entrar pros Amigos eu desencorajo. Tento encaminhar pra escola, explicar que não é o melhor caminho, que ele vai acabar morto ou preso. Essa vida não tem futuro, ainda mais agora com UPP (Unidade Policial Pacificadora) e o c... a quatro. Tem uns que nem me procuram porque sabem que eu vou dizer não. Então o que o moleque faz? Ele começa a andar com algum gerente meu, se aproxima do cara, e entra por osmose. Atualmente eu comando mais ou menos 300 homens. Todos recebem salário, inclusive décimo terceiro, e em caso de prisão ou morte a família recebe pensão pra vida toda. É mais do que muita empresa faz por seus funcionários hoje em dia, e sem dúvida é mais do que o governo faz pela população.”

 

Nem é articulado e inteligente. Tem opinião sobre os principais fatos políticos e sociais de seu tempo. “A melhor coisa que o Lula fez e que a Dilma continuou foi o PAC. Graças a ele eu perdi uns 30 soldados, que vieram pedir pra deixar os Amigos e ir trabalhar nas obras (foram planejadas pelo governo federal oito intervenções do programa na comunidade, mas nem todas saíram do papel). Eu nem sequer pensei duas vezes e liberei os caras. É esse tipo de ação que precisa acontecer para combater o crime. Dar oportunidade, esperança. Mandar polícia não adianta. Tem quatro ou cinco pra tomar meu lugar se me prenderem ou matarem.”

A Rocinha tem seu próprio conjunto de regras, e um vocabulário a ser seguido. O é nóis, falado nas periferias paulistas, é rejeitado. Foi o termo adotado pelos rivais do Comando -Vermelho. Entre os Amigos, termo usado para designar os integrantes do grupo ADA, prevalece é o “a gente”. Apesar de nova – foi criada no fim dos anos 1990 –, a facção conseguiu em pouco tempo assumir o controle de favelas importantes, entrando em confronto direto com seu maior rival, o CV, criado nos anos 1970 no presídio da Ilha Grande.

A relação das duas é visceral: a ADA foi fundada por Ernaldo Pinto de Medeiros, o Uê,

expulso do CV após assassinar Orlando Conceição, vulgo Jogador, líder histórico e braço direito de Rogério Lemgruber, fundador da facção. Em 2002, durante revolta no presídio de Bangu I, Uê foi assassinado a mando de seu maior rival, Fernandinho Beira-Mar, do CV. Disputas de poder à parte, hoje a ADA comanda o tráfico de drogas nas favelas da Rocinha e do Vidigal, em algumas do Complexo do São Carlos, no Morro dos Macacos e no Complexo da Pedreira. E em mais algumas.

A Rocinha passou parcialmente para as mãos da facção em 2004. O ano que se seguiu foi marcado por invasões e trocas de chefia que culminaram com a morte de Eriomar Rodrigues Moreira, o Bem-Te-Vi, chefe do tráfico local que desertou do CV para o ADA. A partir daí, o traficante conhecido como Nem era o comandante em chefe da favela, até ser preso.

 

Curiosamente, em nenhum dos quatro encontros que tive com o Mestre ele estava armado. “Odeio arma”, conta. “Quando era soldado do tráfico, tempos atrás, eu morria de vergonha de passar na frente das senhoras da comunidade que me conheciam desde criança segurando um fuzil.”

À boca pequena, comenta-se que Nem é coração mole. Um de seus soldados desabafa, dizendo que essa, provavelmente, será a razão da queda do Mestre. “Nego faz bobagem, desanda mercadoria, some com o dinheiro, e em vez de passar (matar) o cara, ele só expulsa da comunidade. Aí esse fulano vai pra outro morro, fecha com os alemão (inimigos), e um dia volta pra invadir a Rocinha. Já sabe onde fica tudo, estoque de droga, arma, onde são as bocas...”

Nem também recebe o crédito por ter combatido a homofobia na Rocinha. “Antes os gays eram esculachados, principalmente por nós, do movimento. Mas como o Mestre tem um primo que acho que é viado, ele passou pra gente outra orientação. A ordem é respeitar todo mundo, independente de viadagem”, diz. Neste ano, a Rocinha realizou sua segunda Parada do Orgulho Gay, com a presença da modelo transex Ariadna, de Amin Khader e outras celebridades e militantes da causa LGBTT.

Outra peculiaridade da Rocinha é o fato de que ela ainda resiste à entrada do crack, facilmente encontrado na maioria das cidades brasileiras. Até 2003, a maioria dos traficantes cariocas negava-se a comercializar a droga. Com o tempo a rejeição sumiu, mas não nos domínios do Mestre: “Você imagina se eu deixo vender crack numa favela do tamanho da Rocinha? O que vai ter de nego assaltando aqui dentro, roubando moto, fazendo o diabo pra conseguir comprar mais uma pedra não está escrito. Ia ser um caos”, explica. “Já a cocaína não tem o mesmo efeito viciante. Tenho amigos que cheiram faz 30, 40 anos, e estão aí, inteiros, com vida social e profissional. Claro que às vezes o pessoal exagera. Já cansei de mandar nego viciado se tratar com um pastor na igreja que toca um programa de desintoxicação.”

Enquanto pensa no que acabou de dizer, Nem cala-se por alguns instantes, e retoma o raciocínio com um mea culpa. “Às vezes um gerente meu chega e fala que fulano está ficando boladão (fora de controle, nervoso) de tanto cheirar”, continua. “Aí eu penso: ‘Porra, se isso tá acontecendo a culpa é nossa. É o nosso produto que ele está usando’.”

Partindo do Largo do Boiadeiro basta seguir a vala de esgoto a céu aberto, carinhosamente apelidada de córrego por moradores mais otimistas. Em certo momento o curso d’água entra por uma viela apertada. Dezenas de fios de eletricidade e TV a cabo passam a centímetros da cabeça dos pedestres. São tão numerosos que em caso de chuva fazem o papel de marquise. Caminhando mais alguns metros chega-se ao fim do valão, onde um enorme cano com quase 2 metros de diâmetro deságua boa parte do esgoto da favela.

A quantidade de soldados do tráfico armados com fuzis chama a atenção. Um deles quase é superado em tamanho por seu FAL, famoso por ser um dos mais compridos rifles de assalto do mundo, com quase 1,1 metro. Tamanha atividade é justificada por uma ilustre presença.

Sob uma pequena laje o televisor de LCD de 30 polegadas está equilibrado em um barril azul, onde também estão acomodadas três pistolas. Em frente ao barril um pequeno banco de madeira dá suporte para um Sony Playstation 3, um dos videogames mais modernos da atualidade. Sobre o console, três notas de 50 reais e uma de 20 servem de motivação para os jogadores, compenetrados no improvável clássico Barcelona vs. Barcelona. Olhar fixo na tela, Nem disputa uma concorrida partida de futebol com um de seus subordinados. O Mestre comanda a equipe com o uniforme número 2 do clube catalão, enquanto seu oponente veste o uniforme titular, azul-grená. O cronômetro marca 84 minutos de jogo quando, numa cobrança ensaiada de falta, o dono da Rocinha leva o gol de desempate. A torcida efusiva do filho aninhado em seu colo não trouxe a sorte desejada. 4 a 3, fim de jogo.

Seu algoz pega as notas sobre o console e levanta-se risonho. “Tô numa fase em que nem para dinheiro eu ligo mais”, confidencia Nem. “Às vezes penso em largar tudo e sumir, mas e a consequência que isso teria aqui na comunidade? Eu não -tenho sucessor natural. Quem ia ficar no meu lugar? Provavelmente aconteceria outra guerra, banho de sangue, talvez -outra facção tentasse invadir... É tanta coisa que poderia rolar. Então tenho de -pensar nas consequên-cias dos meus atos: não posso simplesmente desaparecer pra depois saber qu

e fui responsável pela morte de pessoas. É como te falei, sou prisioneiro desta vida que -levo. Não tenho pra onde fugir. E olha que se eu pudesse eu saía. Ia criar meus filhos em paz, longe dessa p... toda.”   •

 

P.S.: Gil Alessi teve quatro encontros com Nem entre novembro de 2010 e agosto de 2011. O traficante foi preso em 10 de novembro passado.

 

 

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