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Política

Editorial

Conversas com a parede

por Mino Carta publicado 03/09/2011 18h30, última modificação 04/09/2011 22h30
De Battisti a Dantas: como sacrificar os interesses da Justiça e da Moral para satisfazer uma facção do Partido dos Trabalhadores

Perguntas aos meus botões, em meio à dúvida. Será preciso explicar mais uma vez? Convém calar diante de quem não entende por obra de alguma carência insanável ou finge não entender? Não é de hoje que meus botões me atiram a tarefas impossíveis, ou quase. De fato, é o que dá agora, no momento em que o ex-ministro da Justiça e atual governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, declara: “A reação (à extradição negada no Caso Battisti) não foi da Itália, e sim de um governo decadente e direitista”.

Não sei se Genro aposta na ignorância da plateia nativa, ou se a ignorância em questão é a dele mesmo. Vale recordar que o ex-ministro mereceu inúmeras vezes o apoio de CartaCapital: víamos nele uma liderança nova e importante. Nesta edição, Paolo Manzo entrevista o ex-juiz de instrução de Milão, Giuliano Turone, autor de um livro sobre o Caso Battisti lançado nestes dias. E é datada de quarta 31 uma carta aberta de agradecimento do presidente da República italiana, Giorgio Napolitano, destinada a Turone e publicada pelo jornal La Stampa.

Nela se lê que a decisão de dar asilo ao ex-terrorista “é para a Itália um ferimento aberto, mais ainda, uma lesão profunda”. Talvez Genro até hoje não tenha percebido que a Napolitano, e não a Berlusconi, cabe falar em nome do Estado. Esclareço em proveito do governador: é a diferença que no regime parlamentarista se estabelece entre o presidente da República e o primeiro-ministro. E Napolitano não é um direitista decadente. Quanto à Itália, é Estado Democrático de Direito, alicerçado em uma Constituição nascida, ao contrário do ocorrido no Brasil, de uma Constituinte exclusiva e considerada exemplar não somente pelos italianos.

Napolitano, antiga liderança dentro do Partido Comunista, diz na carta sempre ter promovido e sustentado toda iniciativa destinada a obter do Brasil a entrega de Battisti, e sublinha o desrespeito ao acordo de extradição selado com a Itália em 1989 e “às razões da luta contra o terrorismo em defesa da ordem constitucional”.

Lula não poderá negar como e quando o presidente da Itália conversou com ele a respeito, uma delas à margem do G-20 de L’Aquila, enquanto a questão ainda estacionava no Supremo. Assim como Genro foi informado por seus amigos italianos e comunistas sobre o efeito doloroso de uma eventual negativa à extradição junto à nação em peso. Sei pessoalmente da decepção experimentada ao cabo por Massimo D’Alema, um dos herdeiros de Enrico Berlinguer, e até por Bruna Peyrot, socióloga italiana, que anos atrás escreveu um longo ensaio sobre Tarso Genro, editado na Itália, e que ficou pasma com a decisão inicial do seu herói.

Sem falar de Donato Di Santo, braço direito de D’Alema no Ministério do Exterior durante o derradeiro governo Prodi: mandou-me um e-mail para constatar que Genro fez a frittata. A omelete. Em língua chula usaríamos uma palavra bem mais contundente e vulgar. Aquela mensagem foi publicada por CartaCapital e Donato, por meio de um anspeçadas local, queixou-se, esquecido de não ter solicitado o off, que, quando declarado, atravessei a vida a respeitar. Se ao falar da reação italiana à negativa in extremis de Lula, o ex-ministro da Justiça se exprime em boa-fé, então não sobra alternativa: o problema é de ignorância mesmo, penosa e inevitável conclusão.

E ignorância em relação à verdade factual dos anos de chumbo na Península, por quem se arroga julgar a Justiça de um Estado de Direito. Na carta ao juiz Turone, Napolitano confessa sua frustração por “não ter conseguido levar à compreensão do que significou para nós o capítulo do terrorismo (...) e que força extraordinária tenha sido necessária para derrotá-lo”. Murmuram meus resignados botões: é como tentar o diálogo com uma parede. O comportamento de Lula e Tarso no Caso Battisti é nódoa na vida política de ambos, bem como o comportamento do então presidente e do seu ministro, escolhido para a Justiça com o aplauso de CartaCapital, no desfecho da Operação Satiagraha.

Genro há de lembrar o telefonema com que me alcançou, na manhã da primeira prisão de Daniel Dantas. Tomado de pura euforia, exclamava: “Você viu o que fomos capazes de fazer?” Tive a impressão de que pretendia incluir a revista no mérito. Menos de uma semana depois, passivos diante da pressão de Gilmar Mendes e Nelson Jobim, presidente e ministro desterravam o chefe da Abin, o digníssimo delegado Paulo Lacerda.

Lamentáveis recordações, a firmar uma estranha ligação entre Battisti e Daniel Dantas. Receio que, para satisfazer uma facção do PT, o partido que esqueceu os trabalhadores, tenham sido passados para trás os interesses do País, da Moral e da Justiça. Daqui para a frente, passarei o tempo que me sobra na busca do elo entre estes dois momentos deploráveis da recente história brasileira. •

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