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Política

Entrevista

Ciro Gomes: “Precisamos de um Estado empoderado”

por Lino Bocchini — publicado 29/10/2015 02h45, última modificação 29/10/2015 18h23
O ex-governador do Ceará critica o governo, rentistas e Cunha, e fala em tentativa de golpe – “impopularidade não é razão para impeachment”
Yghor Boy
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"Em vez do Congresso enfrentar a despesa criminosa com os juros, vem propor cortes no Bolsa Família"

Com duras críticas ao governo, às “elites plutocratas brasileiras” e à oposição “golpista”, Ciro Gomes recebeu CartaCapital no apartamento no qual está morando em São Paulo para analisar a situação política e econômica do País, falar de seu atual trabalho na CSN (onde coordena as obras da Ferrovia Transnordestina), ajuste fiscal e mídia. E, apesar de citar dúvidas sobre seu “apetite” para 2018, o ex-governador do Ceará e ex-ministro dos governos Itamar Franco e Lula admite ser candidato a presidente pela terceira vez (disputou em 1998 e 2002) “se outros não puderem fazer melhor”. Leia os principais trechos da entrevista.

CartaCapital: Hoje o senhor cuida da Ferrovia Transnordestina. Fale um pouco sobre esse trabalho.
Ciro Gomes:
A Transnordestina é uma revolução logística. Ela passa por um interior de enorme potencial agrícola e regiões com ferro e níquel, integrando dois portos: o do Suape, em Pernambuco, onde está ficando pronta a Refinaria Abreu Lima, e o Porto do Pecém, no Ceará, onde fica a Siderúrgica do Pecém. Chega ainda até Eliseu Martins, no Piauí. São 1,8 mil quilômetros, e mais de 54% já estão prontos. Temos 6,4 mil homens trabalhando, e a evolução da obra passa de 1% ao mês. É uma grande frente onde não se fala em crise. E eu estou no board da Companhia Siderúrgica Nacional, como diretor-presidente da Transnordestina. Na prática, sou o responsável por fazer as coisas acontecerem. (A ferrovia é uma concessão do poder público ao grupo CSN.)

CC: Por que temos tão poucas ferrovias no Brasil?
CG:
Hoje temos menos ferrovias do que na década de 1950, quando o País tomou a decisão de privilegiar a indústria automobilística. Foi um equívoco estratégico: 80% da população mora a até 200 quilômetros de uma costa gigante, a interligação deveria ser feita por cabotagem. Os grandes centros de produção, por sua vez, estão a mil, 1,5 mil quilômetros para o interior. Tudo isso deveria ser drenado para a cabotagem por ferrovias. Uma ferrovia é mais cara de se implantar, porém muito mais barata de usar. A rodovia é o contrário: mais barata de implantar e muito mais cara de usar.

CC: Como o senhor vê a crise política?
CG:
O governo administra muito mal a economia e as suas responsabilidades. E passa um sinal desagradável para a sociedade, que em sua maioria votou nesse governo. Isso gera certa raiva e rancor, em cima dos quais o moralismo a serviço da imoralidade e o golpismo inerente às elites plutocratas brasileiras começam a formular as suas estratégias de interrupção da democracia.

O preço caro é que a esmagadora maioria da população mais pobre estava em ascensão social, melhorando de vida a cada dia há 12 anos, imaginando com segurança ser para sempre, prevendo seus filhos livres de suas humilhações e com condições que os pais jamais tiveram. E agora estão escorregando. Estamos em decadência.

Enquanto isso, o Congresso, em vez de enfrentar a despesa mais criminosa e imoral de todas, a despesa com os juros para o financiamento dos bancos, vem propor cortes no Bolsa Família. Isso é bem a cara da plutocracia escravagista brasileira. Eles perderam o pudor na medida em que nós, deste lado, estamos falhando na tarefa de administrar a economia, na tarefa de passar um sinal de decência no trato da coisa pública e na tarefa de sinalizar esperança para o futuro da sociedade brasileira.

Transnordestina
Obra da Transnordestina entre Eliseu Martins (PI) e Trindade (PE); 54% da ferrovia já está pronto

CC: Com o ajuste fiscal podemos voltar a crescer?
CG: A saúde fiscal do País está abalada, e é ruim na esquerda tradicional antiga brasileira o descompromisso com esses valores, como se isso fosse uma coisa lateral ou secundária. A sanidade fiscal é a premissa de um Estado energizado, que, essencialmente, é tudo que um pensador progressista quer e precisa. Não vamos superar a desigualdade do Brasil, melhorar sua infraestrutura, resolver o gravíssimo hiato tecnocientífico do País e o gravíssimo hiato social que ainda nos faz a economia mais desigual do mundo sem uma entidade pública energizada, empoderada, capaz de intervir e de capitalizar as iniciativas privadas.

Nós temos 1% da população brasileira dona de um terço da renda do País. E ainda temos, apesar de todas as melhorias, 30 milhões ou 40 milhões de pessoas vivendo apenas com o básico. Nosso modelo econômico destina à maioria das pessoas empregos de baixa qualidade. Nosso povo merece mais do que Bolsa Família e um emprego de servente de pedreiro. Nada contra essa função, mas essa etapa tem de ser superada, e isso exige um Estado com condições de financiamento.

CC: De onde cortar? Há como cobrar a maior conta do andar de cima?
CG: Quando você olha sem preconceitos, com a sua inteligência, só tem duas despesas fora da curva, umas delas absolutamente criminosa: o Brasil vai gastar este ano 380 bilhões de reais com juros intermediados por 20 bancos para beneficiar 10 mil famílias de endinheirados, os rentistas do nosso país.

A outra grande despesa fora da curva é o rombo da Previdência próximo a 60 bilhões de reais. Mas veja a distância entre os valores, e aqui não é o povão. São aposentadorias e pensões especiais para uma casta de abastados do setor público, poderosíssima na discussão do País. Fora dessas duas grandes despesas, nenhuma outra está fora do quadro.

CC: Fala-se que o Estado brasileiro “é grande demais”, inclusive, o governo federal promoveu cortes recentes.

CG: O Brasil tem menos médicos, professores, polícia ou Forças Armadas do que precisa. Há muitas distorções, mas pesando e medindo, é completamente mentirosa essa crítica de o Estado brasileiro ser grande. O Estado brasileiro é até balofo, gorduroso. Mas quando você cortar e fizer as lipoaspirações necessárias, o Estado ficará magrinho e ainda assim faltará massa muscular.

E Dilma caiu nessa bobagem de eliminar ministérios. Com essa medida, este ano não vamos economizar sequer 200 milhões de reais. Não quer dizer que não deveria fazer, na política vive-se muito do símbolo. Não seria razoável exigir austeridade da sociedade brasileira e deixar na boca de um picareta desses que infestam a vida pública brasileira, o argumento dos 39 ministérios, que não precisa disso. Mas deveria ter sido feito como símbolo de um conjunto coerente de práticas de austeridade, e, infelizmente, isso não está acontecendo. O governo aumentou a taxa de juros, sua maior despesa, e está fazendo despencar a receita pública em padrões nunca vistos mesmo por mim em 36 anos de vida pública.

CC: Sobre a crise econômica, o que é real e o que é exagero?
CG: É uma crise real, mas hoje o calor político não deixa sequer pararmos para pensar na crise, muito menos tratá-la com a devida cautela. Esse é o ponto. Aqueles da retórica da denúncia da crise exploram o sofrimento de toda a população  – menos dos bancos, que estão ganhando 40% a mais dos números recordes do ano passado. São pessoas que impedem o governo de parar e refletir. Atrapalham e impõem o que a imprensa chama de “pauta-bomba”.

E a crise tem outros componentes. Por exemplo, a Petrobras, no foco aí dessa novela moralista, podre. Eu espero que deem punição severa para todos os responsáveis, sejam eles quem forem, do nosso lado ou contra nós, não importa. Mas tem de passar o País a limpo.

Precisamos é refazer a compreensão estratégica do desenvolvimento brasileiro, e isso é urgente. Nossas reservas cambiais estão sendo torradas financiando quem especula com nossa moeda. No momento em que eu lhe falo, após poucos meses de governo Dilma, meia dúzia de especuladores que atacaram o real ganhou 112 bilhões de reais. São três vezes o déficit estimado para orçamento de 2016. É isso que está em jogo no Brasil.

CC: Falando um pouco da crise política, ainda há risco de impeachment?
CG: O risco é permanente. Mas neste momento nós estamos virando o jogo golpista. Estamos ganhando a parada. Apesar de todos os erros, fomos ajudados pelo Ministério Público da Suíça, que nos mandou essas contas espúrias do picareta-mor da República, Eduardo Cunha, o presidente da Câmara, representante de uma maioria de corruptos.

A elite brasileira percebeu que é absolutamente inexplicável você evoluir para impedir a Presidência da República, romper as instituições e introduzir uma instabilidade política de 20 anos no País, começando pela assinatura de um picareta processado como formador de quadrilha, ladrão do dinheiro público, manchete nos jornais do mundo inteiro. Esse ciclo (do golpe) estamos vencendo. Mas ele voltará muito rapidamente se não acertarmos a mão.

CC: Há algum motivo real para o impedimento da presidenta?
CG: Impeachment não é a solução para governo ruim, para governo que a gente não gosta. Numa democracia madura, a impopularidade do governo só pode ser apurada nas eleições, porque eventualmente qualquer governante tem de encarar momentos de impopularidade, de incompreensão, para fazer o que tem de ser feito.

Então, a impopularidade não é motivo. A razão para impeachment é só uma: o cometimento de crime de responsabilidade dolosamente praticado, ou seja, com culpa consciente do presidente da República. E mesmo o mais picareta dos nossos adversários sabe que Dilma é uma senhora honrada e que não dá para acusá-la de ter cometido crime de responsabilidade, muito menos dolosamente.

E aí começam a inventar caminhos fraudulentos. Você não pode fazer impeachment toda hora. Na história da humanidade, do Direito Constitucional mundial, o impedimento só aconteceu no Brasil e na Venezuela: foram tirados Collor e, na sequência, Carlos Andrés Pérez. A Venezuela até hoje não se governa. E é o que estaria aprazado para o Brasil se permitirmos agora essa imprudência patrocinada por uma fração da elite brasileira.

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´Nem mesmo o adversário mais picareta acusa Dilma de crime de responsabilidade, muito menos doloso´

Como o sr. vê a mídia brasileira?

Nossa grande mídia pertence basicamente a 5 famílias. Vamos ter essa clareza: a mídia brasileira é nepotista. São 5 famílias donas do que se chama mídia nacional. Qual a solução para isso? É uma bobajada a la PT, regular a mídia, fazer um despotismo esclarecido de cima para baixo? Ao fazermos isso, imediatamente entregamos para eles o discurso correto da censura, da intervenção indevida.

Ainda que haja boa intenção, ainda que você possa ter exemplos, como a proibição da propriedade cruzada de meios de comunicação nos Estados Unidos, onde isto é proibido. Na pátria do capitalismo você não pode ter rede nacional 24h na televisão. A NBC não possui revista. A Newsweek não pode possuir TV, rádio. Mas isso é a experiência deles.

Por aqui temos de financiar alternativas. E já há essas alternativas, como as cooperativas de jornalistas. Temos que empoderá-las, mudar a distribuição da verba publicitária do governo. Distribuir progressivamente as verbas publicitárias ao invés de ficar em critério de audiência. Temos que fazer o esforço de toda sociedade sadia: reforçar as minorias, acreditar na inteligência do povo e enfrentar essa interdição [do debate sobre mídia].

CC: O senhor já teve problemas com a mídia?
CG: Pessoalmente, não tenho queixa. A única coisa que não consegui foi ser presidente da República, mas já fui ministro, governador... Enfim, tenho 36 anos de vida pública e nunca nenhum deles pegou. A revista Veja já deu capa insinuando coisas e levou processo na mesma hora, porque não dou meu rabo para ninguém pegar. Não deixo ninguém pegar no meu pulso. E esse é o nosso erro, do nosso lado. Tem de enfrentar.

CC: O senhor é candidato a presidente em 2018?
CG: Vejo o quadro ainda muito nebuloso. Até um mês atrás eu estava muito angustiado com a escalada do golpe, não via como a gente escapar. Do lado dos opositores há um golpismo despudorado, e do nosso lado há uma sequência de besteiras, de contradições, incoerências, erros estratégicos monstruosos.

Acho, entretanto, que a preço de hoje será um 2018 algo parecido com 1989. Os grandes partidos completamente desmoralizados e um conjunto de experiências tentando galvanizar essa indignação moral, tentando manipulá-la, como foi o caso de Collor.

Collor foi pulso moralista e levou a eleição feita pela Veja, pela Globo. Collor nós todos conhecíamos. Eu que sou do Ceará o conhecia de perto, todo mundo sabia quem era o Collor, e ele foi empacotado como caçador de marajás. Hoje, Marina Silva tenta representar essa renovação, com esse ambientalismo difuso... não que ela seja má, como Collor o era, mas ela não compreende o Brasil e já assumiu compromissos que jogariam o Brasil para trás, trariam retrocessos graves, como a tal autonomia do Banco Central.

A tarefa, neste momento, de ser candidato com meus valores, com o que quero representar, os compromissos ao redor dos quais eu me ligo, vai ser uma tarefa inumana. Haverá um processo violentíssimo de desconstrução. Não tenho rabo de palha, mas não sei se tenho mais apetite para enfrentar esse tipo de coisa. Mas admito ser candidato se eu entender ser essa a minha responsabilidade e que outros não possam fazer melhor.

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