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Crônica

Casamentos, ainda que tardios

por Menalton Braff publicado 16/07/2015 12h21
Ao reorganizar minha biblioteca, comecei a guardar meu tesouro não mais com a razão e deixei-me guiar pela emoção. Assim, houve casamentos felizes entre autores, outros nem tanto
Josep/Flickr
Biblioteca

Coloquei o Raul Pompeia ao lado do Olavo Bilac. Rosnaram um para o outro e o Raul preferiu a morte àquela companhia

Essas coisas acontecem até aos filhos das melhores famílias: tivemos de pintar nossa casa por fora e por dentro. Por fora não tivemos problemas, porque os pintores assumiram todas as providências e ficaram muito contentes por não termos tentado interferir no trabalho deles. Mas por dentro, santo Dio, além de outras canseiras, tivemos de ensacar todos os livros, e não vou dizer quantos para não fazer inveja à biblioteca municipal.

As paredes todas pintadas, vivemos alguns meses de confusão, de livros considerados perdidos, de livros extremamente necessários que não sabíamos onde tinham ido parar, pois o conteúdo dos sacos foi literalmente jogado nas prateleiras por falta de tempo. Na pressa de ver aquelas lombadas, foram jogados sem o menor critério.

Pois bem, nesta semana começamos a organizar os livros com um mínimo de lógica que nos ajudasse a encontrá-los toda vez que deles tivéssemos necessidade. E isso acontece quase todos os dias.

Lá pelas tantas, eu que não sou nem um pouco cartesiano e já um tanto cansado da ordem alfabética por sobrenome, comecei a guardar meu tesouro não mais com a razão e deixei-me guiar pela emoção.

Com os livros da Clarice Lispector numa pilha que me encarava, olhei para a estante e não tive dúvida: foram parar ao lado dos livros do Lúcio Cardoso. A satisfação com que cochicharam me encheu de certezas.

Do Castro Alves não chego a ter uma pilha. Acho que ninguém tem. Mas os poucos que tenho não sabia onde guardar. Vasculhei todos os recantos da literatura e nenhuma Eugênia me pareceu digna de seu gênio. Ele já tivera uma e se confessou preso àquela Câmara. 

O Manuel Bandeira nem esperou por minha decisão e espremeu-se ao lado da Cecília Meireles, que acabava de viuvar. Ah, pois eles se complementam com suas diferenças. Muitas diferenças.

E você sabe por que o Alphonsus de Guimaraens repete que choram os cinamomos? É porque a Constança (filha de escritor e noiva de futuro poeta) não deixou nada publicado, sem direito, portanto, a um lugar na estante.

Houve casos de repúdio, de livros que se jogaram da estante para baixo. Foi assim quando, por distração, coloquei o Raul Pompeia ao lado do Olavo Bilac. Rosnaram um para o outro e o Raul preferiu a morte àquela companhia.

O Mário e o Oswald de Andrade, quando pus um ao lado do outro, percebi que se viraram as costas sem nenhuma alegria. Eu havia esquecido que até hoje não fizeram as pazes. Tive de separá-los.

Não sei, mas acho que vou ter de reorganizar os livros num modo mais tradicional, porque hoje de manhã procurei Iracema, do José de Alencar e não sabia onde estava. Perdi meia hora na procura. O Alencar, apesar de amigo do Machado, que também é Assis, estava do outro lado da biblioteca.

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