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Cartão-postal de mentira

por Leandro Fortes — publicado 07/02/2011 13h16, última modificação 08/02/2011 18h01
Construída em meio a denúncias no governo Roriz, a ponte JK, em Brasília, vira pesadelo
Cartão-postal de mentira

Construída em meio a denúncias no governo Roriz, a ponte JK vira pesadelo. Por Leandro Fortes. Foto: Rossevelt Cassio/ AE

Inaugurada em 15 de dezembro de 2002, a Ponte Juscelino Kubitschek tornou-se um marco da arquitetura e novíssimo cartão-postal da capital federal, mas também o legado final da inesquecível dupla de ex-governadores Joaquim Roriz e José Roberto Arruda, criador e criatura, o primeiro, derrotado pelas urnas, o segundo, afastado pela lei. A construção da “terceira ponte”, como a JK era conhecida antes mesmo de sair do papel, fez a última ligação fundamental entre o núcleo do Plano Piloto (a zona central e as asas Sul e Norte) e o Lago Sul, área mais nobre da cidade. Serviu, também, para atender ao crescimento desmedido de condomínios de classe média na região e, de quebra, engordar o caixa de empreiteiros amigos. Levada a cabo por um consórcio de construtoras locais, a obra deveria ter custado cerca de 40 milhões de reais, mas acabou por 186 milhões de reais. Agora, corre o risco de cair.

Em 20 de janeiro,  pouco mais de oito anos depois de inaugurada, a Ponte JK foi interditada por razões de segurança. Na manhã daquele dia, enquanto verificava a existência de vítimas em um acidente de carro no Lago Sul, um grupo de bombeiros foi procurado por um cidadão preocupado. Ciclista amador, ele afirmara ter sentido fortes oscilações na estrutura da ponte ao atravessá-la, 20 minutos antes. Os bombeiros foram verificar e, ao perceberem a ponte balançar no meio do trajeto, decidiram chamar a Defesa Civil e a Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap), estatal distrital responsável pela manutenção da obra. Pouco depois do meio-dia, a ponte foi interditada por agentes da Polícia Militar e do Departamento de Trânsito (Detran). Com as pistas parcialmente fechadas, desde então, a travessia de 1,2 quilômetro feita, diariamente, por 100 mil veículos sobre a Ponte JK virou um inferno particular para parte da população brasiliense.
Engenheiros da Novacap e da Universidade de Brasília (UnB), além de técnicos da Defesa Civil, detectaram um desnível entre 3 e 4 centímetros em um trecho do piso da ponte, uma dilatação mínima na obra, mas capaz de deixar as autoridades em alerta. De lá para cá, foram precisos quatro relatórios para se chegar a um diagnóstico razoável, segundo informação da Novacap. Ao que tudo indica, nos últimos oito anos, a ponte sofreu avarias em um dos trechos da via, conhecido como “tabuleiro”, e, por isso, os quatro aparelhos que o sustentam, com função de pilares, serão trocados. O problema, de acordo com a Novacap, deve ter sido provocado por freadas bruscas de veículos pesados.

Ainda pairam outras  dúvidas, contudo, em relação ao estado físico da obra. Três meses antes da interdição, Dickran Berberian, especialista em patologia de estruturas e professor de engenharia civil da UnB, avisou a Novacap sobre a situação aparentemente precária de alguns cabos de aço que, esticados por macacos hidráulicos, ajudam a sustentar a ponte. Em alguns pontos, garante Berberian, eles cederam 10 centímetros. Ele foi o primeiro especialista a levantar a possibilidade de que o mau estado da JK é resultado da falta de manutenção, a ser feita de três em três anos. Em seguida, foi a vez da Via Engenharia fazer coro à tese e culpar a Novacap pela negligência. A direção da estatal nega ter havido problemas do gênero.

Assim, tão complicado quanto descobrir a exata deficiência da Ponte JK é apontar os verdadeiros responsáveis pelo estado da obra. Pistas há, a começar pela natureza do consórcio montado para a construção, liderado pela Via Engenharia, do empresário Fernando Queiroz. Juntamente com outro empreiteiro local, José Celso Gontijo, dono da JC Gontijo, Queiroz fazia parte do círculo íntimo dos ex-governadores Roriz e Arruda. Foi com Roriz que a Via Engenharia conseguiu o contrato da Ponte JK e, posteriormente, os aditivos que elevaram o preço da obra em cinco vezes.

Quando de sua inauguração, em 2002, as cifras envolvidas no empreendimento chamaram a atenção do Ministério Público local. Roriz foi acusado de desviar recursos da área de saúde para as obras da ponte e de superfaturar os preços dos materiais. Técnicos do Tribunal de Contas do DF detectaram preços até 500% mais caros que o valor de mercado. Mesmo assim, a conta ficou para o contribuinte e, claro, ninguém foi parar na cadeia. Pelo menos por enquanto.

Investigada pela Polícia Federal a partir da Operação Caixa de Pandora, deflagrada em novembro de 2009, a Via Engenharia também é acusada de cobrar propinas para concluir outra obra sob sua responsabilidade, o novo prédio da Câmara Legislativa do Distrito Federal. Iniciada em 2000, a construção ficou paralisada entre 2005 e 2008, quando foi retomada, graças a um contrato de 72,5 milhões de reais assinado pela empreiteira e o ex-governador Arruda. Durante uma batida na casa de Fábio Simão, ex-chefe de gabinete de Arruda, a PF encontrou uma planilha de pagamentos do Shopping Popular e da Câmara Distrital, duas obras tocadas pela Via Engenharia orçadas em quase 100 milhões de reais. No documento, havia previsão de pagamento de subornos de 5% e 2,5% sobre os recursos liberados pelo ex-governador.

José Celso Gontijo  aparece em um dos vídeos do ex-secretário de Relações Institucionais de Arruda, o delegado Durval Barbosa, delator do esquema do chamado “mensalão do DEM” no DF. Na fita, o empreiteiro entrega dois pacotes de dinheiro para Barbosa. “Eu tentei vir cá algumas vezes, mas você estava cheio de problemas, né, Durval?”, desculpa-se o empreiteiro, sem saber da gravação. De acordo com Barbosa, o dinheiro arrecadado com o empresário era distribuí-do aos principais integrantes do esquema de Arruda. A saber: o próprio governador, o vice-governador Paulo Octávio, secretários de governo, assessores e deputados distritais da base aliada.

Também é confusa, para dizer o mínimo, a relação do governo local, do PT, com os responsáveis diretos pelo projeto, conclusão e finalização da Ponte JK. O secretário de Obras do governo Roriz, à época da construção, era Tadeu Filippelli, do PMDB, atual vice-governador do DF, eleito na chapa do petista Agnelo Queiroz. Filippelli, homem de confiança absoluta de Roriz, mudou de lado às vésperas das eleições do ano passado. Além disso, durante o governo Arruda, o responsável direto pela manutenção da ponte era o então presidente da Novacap, Luiz Carlos Pitman – atual secretário de Obras de Queiroz. Portanto, com aliados assim, o risco de desabamento não é, nem de longe, uma exclusividade da Ponte JK. 

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