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Opinião

Brasil 2015, um país sem médio prazo

por Mauricio Moraes publicado 22/09/2015 06h25
A crise é geral, o PT entrou em pane e, por enquanto, incendiários e irresponsáveis ganham terreno
José Antonio Lima
Protesto

Protesto liderado por PSTU e Conlutas em São Paulo, na sexta-feira 18: contra Dilma, Aécio e Eduardo Cunha

Em 2002, o último spot da campanha vitoriosa de Lula à Presidência, assinado por Duda Mendonça, mostrava uma série de mulheres grávidas e felizes num campo de trigo. Ali se desenhava o país do futuro, que cuidaria bem daquelas crianças, um país justo e sonhado pela esquerda. Em setembro de 2015 não sabemos qual será o Brasil nos próximos meses. Não sabemos sequer se Dilma estará na Presidência, qual será o nível de emprego, a cotação do dólar, nada. 

Cheguei a Londres nesta semana, para uma temporada acadêmica. E aqui já me inundam de questões: o que está acontecendo com o Brasil? O que vai ser do Brasil? 

Este texto não tem a pretensão de trazer respostas e é bem possível que já esteja desatualizado com a mesma rapidez que a escalada golpista pelo impeachment se instala no Congresso. A minha geração, que cresceu na democracia, sempre achou que golpes e instabilidade profunda eram coisas do passado. O Brasil país do futuro, tão esperado por nossos pais e avós, parecia estar finalmente chegando (de mansinho ele parecia estar ali, ao alcance da mão). 

Mas eis que, em menos de um ano, vimos nossas certezas se esfarelarem e os velhos fantasmas do passado voltarem à tona para nos assombrar. Vimos gente defender a ditadura e até pedir a volta da monarquia nas manifestações verde-amarela da Avenida Paulista. Qual é o próximo ítem? Revogar a independência e voltar a ser colônia portuguesa?

É a economia, estúpido! (diria algum mais avisado, repetindo um velho chavão). Sim, é a economia, mas é sobretudo a política! É claro que a crise econômica está instalada (com menor intensidade do que o caos noticiado pela grande imprensa, mas ela existe sim e corrói nosso poder de compra). 

Qualquer analista irá apontar a inflação, a dívida pública, o câmbio, o grau de investimento, etc, etc. Culpa da Dilma? Em partes... O próprio governo tem reconhecido erros. Mas não só. A questão maior é que a grande crise da qual o País padece, e para a qual a retomada do crescimento chinês ou as medidas “estruturantes” não são remédio, é a crise política. 

Vivemos o fim de um ciclo, mas não meramente o fim do ciclo do PT. É o fim da retomada democrática conciliatória, daqueles que se uniram contra a ditadura, redigiram e fizeram cumprir uma nova Constituição a partir de 1988. Criamos o Sistema Único de Saúde, demos direitos a todos (ao menos no papel), sonhamos, em suma fazer do Brasil uma espécie de Noruega tropical. O sonho está em risco.

A velha direita, que havia marchado com os militares, assentiu em certa medida com esse projeto, sem opção, fragilizada com a crise do velho regime que acabara em 1985. Por muito tempo, conservador no Brasil teve vergonha se assumir como direita. Basta olhar o nome dos partidos, como o PP (Partido Progressista? – só que não) - apenas para ficar em um exemplo.

Sempre defendi que a direita se assumisse como tal no Brasil, que tivesse um programa claro, se agrupasse em um partido sério, até para melhorar o nível do debate político. Pois desde as Jornadas de Junho de 2013, o estopim dessa crise toda, a direita saiu do armário e mostrou que é a mesma  de sempre – golpista, burra, oportunista e sem nenhum comprometimento com um projeto amplo de país. 

O que se vê é um cenário difuso. De repente, é como se o sistema político brasileiro tivesse entrado em colapso, já não comportasse o novo Brasil que emergiu da pobreza e ascendeu para a classe média na era PT, nem o velho Brasil patrimonialista que sempre deu o tom dos conchavos e se viu supostamente perdendo espaço nesse jogo que existe desde o nosso sempre.

A velha direita reapareceu com sangue nos olhos e a esquerda se vê aturdida na resistência, indo para a rua combater projetos grotescos como a diminuição da maioridade penal ou para conter a reforma política escabrosa que a bancada BBB (boi, bala e Bíblia) tenta impor no Congresso. Estamos perdendo a capacidade de pautar a agenda política.

Isso sem falar dos ajustes draconianos na economia (ajustes necessários, diga-se, mas que já deveriam ter sido feitos há tempos, de forma escalonada. Agora, o que se vê são os donos do capital pautando o governo e passando a fatura sobretudo para o andar de baixo). 

A crise é geral. Entrou em pane o PT, o velho partido da esquerda que um dia inspirou muita gente e que se envenenou com os vícios da direita (apesar da resistência de bravos petistas que ainda acreditam na sua construção). Entrou em pane o PSDB (que irônica e momentaneamente se fortalece de forma errática no meio da lama), esse partido que um dia se disse moderno e socialdemocrata e agora joga com o velho golpismo udenista e tem a pachorra de ter entre seus representantes de direitos humanos um sujeito chamado Coronel Telhada (aquele que se vangloria de ter matado mais de 30 pessoas à frente da Rota). Está tudo virado, difícil de entender.

É fácil apontar o dedo para o PT. Mas se enganam redondamente aqueles que querem destruir o partido. Se está ruim com ele no cenário político, será muito pior sem. Prova disso é que a mesma massa que aponta contra Dilma não enxerga alternativas na oposição. Pesquisa interna da Secom, da Presidência da República, mostra que apenas 17% dos brasileiros acreditam que o governo pode tirar o país da crise. É ruim, mas o saldo da oposição é muito pior – apenas 13% acreditam na capacidade dos opositores.

Na demagogia rasa e barata dos direitosos verde-amarelos, o PT estaria tornando o Brasil uma Venezuela, um país dividido, em crise permanente. A maior ironia é que foi essa própria direita, de forma prosaica, que empurrou o processo de venezuelização. Foram eles que não reconheceram a derrota, tentaram recontar os votos, depois pediram o impeachment, fizeram e aconteceram. O resultado é o caos. 

A grande ironia é que todo o discurso é formatado a partir da corrupção. E neste cenário, temos na dianteira do golpe um réu da Lava Jato (Eduardo Cunha) e outro que já foi investigado nessa mesma operação e que até já construiu aeroporto na fazenda do tio (Aécio Neves). E o grande alvo é Dilma, que sequer investigada é. 

Isso não exime o PT e muitos petistas de seus pecados. Mas o cenário é de uma hipocrisia tamanha que consegue chocar até quem já está acostumado com a desfaçatez da política nacional. É só ver a cobertura da grande imprensa, ou a reforma política, que de mansinho vai passando no Congresso cristalizando esse sistema podre (agora até mesmo ocultando quem serão os doadores privados das campanhas proporcionais). 

Por ora, os incendiários e irresponsáveis ganham terreno. Mas a história será implacável (assim como absolverá Dilma de grande parte do que se atribui a ela). Como sou um otimista inveterado, vale repetir a máxima, verdadeira, de que é na crise que se constroem as alternativas. O horizonte é turvo, mas o médio prazo, dia ou outro, há de chegar. Fiquemos espertos.

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