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Bem-vindos à Sulândia

por Coluna do Leitor — publicado 05/01/2011 08h01, última modificação 05/01/2011 10h04
O leitor Adriano Rima ironiza ao descrever como seria caso a região sul do Brasil fosse emancipada

O leitor Adriano Rima ironiza ao descrever como seria caso a região sul do Brasil fosse emancipada

O pós-eleições do ano passado foi, sem dúvidas, o que mais dividiu o país pelos mais nefastos motivos. Apelaram para aspectos religiosos, familiares, sexistas e, aquele que julgo o pior, a divisão territorial do Brasil. Diante deste quadro de segregação geográfica, nada mais justo, que especular como seria uma hipotética divisão da nossa Terra Papagalli. Para isso, paguemos a região Sul (mais devota da separação) como exemplo, também conhecida como Terra Tucanalli.

Se realmente separássemos à Sulândia do Brasil, não há dúvidas, de que criaríamos uma pátria com economia forte, educação de qualidade, com um IDH promissor, com setor industrial e agrícola de primeira. Teríamos belas praias em Santa Catarina, músicas gaúchas para ouvir toda dia e as belezas naturais do Paraná, como as Cataratas do Iguaçu. Mesmo assim, não deixaríamos de ter os problemas sociais das demais regiões.

A Sulândia teria duas capitais, Curitiba e Porto Alegre, talvez uma política e outra administrativa, como acontece em muitos países. Nossa população atingiria 28 milhões de habitantes – mais do que Austrália, Holanda e Suécia, e proporcional a Venezuela e Peru. Com uma área de 576.409 Km², a Sulândia, seria maior do que Espanha, Alemanha, França, Itália, Inglaterra, Noruega, quase todos os países europeus. Aliás, seria um país europeu na América do Sul.

Evidentemente, que toda separação, assim como o conjugal, passa pela divisão dos bens. Neste caso, os sulandeses deixariam de ter Pelé, como o rei do futebol, e elegeriam Ronaldinho Gaúcho para o posto. Roberto Carlos também seria substituído, na música, por Chitãozinho e Xororó: nada contra a dupla sertaneja, mas eles fazem mais sucesso fora da própria região sul.

E o que dizer do futebol, hein? A Sulândia, embora tenha oferecido vários craques à Seleção Brasileira, não seria reconhecida como pentacampeã mundial, não seria sede em 2014 da Copa do Mundo e nem das Olimpíadas em 2016. Sem falar que o campeonato sulândes de futebol seria igual ao argentino e apenas alguns clubes ganhariam o certame... Grêmio, Internacional, Atlético Paranaense e, talvez, o Coritiba (sic).

Até aí, tudo bem. Poderíamos viver tranquilamente com todas essas alterações esportivas, culturais e geográficas. O problema é que os adeptos da Sulândia, nesta brincadeira toda, esqueceram de combinar com os russos, ou melhor, esqueceram de combinar com os próprios sulistas. Exatamente, quem defende a emancipação da Sulândia são alguns tantos e tontos, algo que gira em torno de 30 mil ideólogos, como eles mesmo apontam. Ou seja, o Sul é bem maior e bem melhor do que isso.

Todos sabemos que o separatismo, neste ano, se deu por causa da disputa política à Presidência do Brasil. Como alguns devotos da Terra Tucanalli não aceitaram o resultado das urnas começaram a apologia à autonomia da região Sul. Mas, os sulandeses, têm a péssima mania falar pelos outros, neste caso, a imensa maioria. Até porque, nas próprias eleições, que foi o que motivou o debate, houve praticamente empate entre os candidatos nos três estados e no Rio Grande do Sul, o governador eleito não pertence à Terra Tucanalli.

Mesmo se a maioria dos brasileiros do Sul fossem a favor da separação, a Sulândia duraria pouco tempo. Isso porque, o separatismo continuaria dentro da própria Sulândia. Os gaúchos que o digam, muitos defendem a criação da República dos Pampas. Imagina se à moda pega? Os bairros mais nobres também lutariam para se emancipar dos mais pobres. Por exemplo, em Curitiba, a região norte da região sul. Gente do Batel e Ecoville odeia dividir espaços com gente do Tatuquara, CIC, etc...

Não é de hoje que a Sulândia levanta a bandeira do separatismo, a história prova que muitas guerras sangrentas começaram sobre a égide da “autodeterminação” dos povos do sul. A Revolução Farroupilha tentou criar uma República Rio-Grandense, no Rio Grande do Sul; a Revolução Juliana e a Guerra do Contestado, entre Paraná e Santa Catarina, também batalharam para emancipar os estados do resto país – todas sem sucesso.

A única guerra que obteve êxito emancipatório na região sul foi da Cisplatina, na qual perdemos um belo território sulista, que hoje, conhecemos como Uruguai. Isso mesmo. O Uruguai, um pequeno e belo país, bicampeão mundial de futebol, com uma ótima qualidade de vida, há pouco tempo atrás, pertencia ao Brasil. Não é à toa que considero o Uruguai meu segundo país.

É fato, público e notório, que os movimentos separatistas, apesar de inexpressivos, estão em todas as regiões do Brasil. Têm grupos querendo emancipar tudo, regiões (Sul, Sudeste, Nordeste, os Povos Amazônicos), estados (Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro). Daqui a pouco, cidades, bairros, pessoas. Ao invés de integrar, lutam para dividir.

Brincadeiras a parte, o que percebemos é que o país das maravilhas, batizado por mim de Sulândia, não existe nos mapas e nunca existirá. Ele existe apenas em algumas cabeças, que de tão separatistas, já separaram a razão do bom senso. Está aí um separatismo que aprovo, vamos separar quem pensa além da geografia dos que pensam somente em si.

Adriano Rima, jornalista e ativista político

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