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Higienismo em SP, capítulo dois

por Redação Carta Capital — publicado 14/10/2011 15h53, última modificação 16/10/2011 18h16
Moradores de Pinheiros, bairro de classe média, pedem que albergue de mendigos não vá para 'área nobre' do bairro

Depois do episódio do metrô em Higienópolis, no qual moradores do bairro paulistano lutaram contra a construção de uma estação de metrô na região com o intuito de afastar "gente diferenciada" (entenda-se "pobres"), um novo capítulo higienista começa a ser escrito em São Paulo. "É de provocar inveja a qualquer higienista social do Terceiro Reich a demonstração de tal insensibilidade”. A declaração é do promotor público Maurício Antonio Ribeiro Lopes, dada ao jornal O Estado de S. Paulo desta sexta-feira (14), sobre um abaixo-assinado entregue esta semana no Ministério Público por comerciantes e moradores do bairro de Pinheiros, de classe média. Os moradores pedem a manutenção do endereço do albergue Cor da Prefeitura, que abriga pessoas em situação de rua, onde está atualmente, em uma região considerada por eles como menos nobre do bairro.

Com a mudança da Rua Cardeal Arcoverde, 1968, para um outro trecho do mesmo endereço, o 3041, o governo municipal quer oferecer melhores condições para o funcionamento do centro, que terá, no novo prédio, mais quartos. Mas a mudança para o local entre as ruas Simão Álvares e Deputado Lacerda Franco, alvoroçou os ânimos dos moradores dessa área. A iniciativa reuniu 1.200 assinaturas contra a mudança, mas teve um efeito contrário no promotor que recebeu o pedido que chegou a compará-la às tomadas pela Alemanha Nazista.

No pedido, os moradores alegam que com a chegada do albergue "o comércio possivelmente não vai sobreviver, uma vez que a população local será acuada em suas residências e os visitantes de outros bairros vão nos trocar por centros comerciais mais tranquilos". Eles afirmam não terem sido consultados sobre a abertura do albergue e que “a decisão foi tomada sem a prévia consulta com as Associações de Moradores e Comerciantes do Bairro”.

Num outro trecho, dizem que mesmo que o “efetivo da polícia dobre,vai ser difícil acabar com a insegurança (pois já temos históricos na própria rua Simão Álvares de ataques de cachorros de moradores de rua em crianças e idosos, com BO registrado)”.

Os moradores ainda temem que durante o dia esses moradores se espalhem pelos arredores do bairro de Pinheiros e Vila Madalena.

O promotor Ribeiro Lopes indeferiu o pedido e enviou os nomes de seis pessoas que assinaram a petição para a Delegacia de Polícia Especializada em Crimes Raciais de Delitos de Intolerância. Eles serão investigados por intolerância social, prevista na Constituição (art. 5.º, inciso 41). "Esse pedido é muito revoltante", disse ele nesta quinta-feira 13 à reportagem do Estadão.

Ao negar a solicitação por meio de um documento, Lopes afirma que a representação “não merece qualquer consideração jurídica por seu cunho estritamente discriminatório, segregacionista”.

Ele diz ainda que “alegar-se que a população fica acuada em suas residências pela instalação do albergue para moradores de rua revela completa perda de referências éticos e legais.”

O promotor compara essa atitude ao protesto dos moradores de Higienópolis contra a instalação do metrô. “Não faz muito e vimos parcelas da mesma aristocracia amaldiçoando a chegada do Metro a Higienópolis. Agora é a vez do albergue de Pinheiros. Se não fizermos nada, um dia impedirão que chegue água, energia elétrica, asfalto a outros bairros da cidade”.

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