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As quatro mulheres

por Marcos Coimbra publicado 27/10/2010 09h01, última modificação 27/10/2010 09h01
As protagonistas destas eleições, por motivos distintos, foram Dilma Rousseff, Marina Silva, Erenice Guerra e Mônica Serra. E as eleitoras serão decisivas para o resultado de 31 de outubro. São elas que ainda têm mais dúvidas sobre o voto

As protagonistas destas eleições, por motivos distintos, foram Dilma Rousseff, Marina Silva, Erenice Guerra e Mônica Serra. E as eleitoras serão decisivas para o resultado de 31 de outubro. São elas que ainda têm mais dúvidas sobre o voto

O primeiro tempo das eleições presidenciais foi dominado por figuras masculinas. Desde quando começaram, já faz quase dois anos, até o mês passado, só se discutiu o que determinados personagens pensavam, faziam, propunham. Todos homens.
Foi o tempo em que, de um lado, estava Lula e, de outro, José Serra.
O fato de Lula ter escolhido uma mulher para sucedê-lo não mudava o quadro. A candidatura de Dilma Rousseff tinha a marca da iniciativa masculina, pois viera de um homem o papel de constituí-la. Para efeitos políticos e perante a opinião pública, sem Lula, Dilma não existiria.

O plebiscito proposto pelo presidente era outra coisa que tornava secundário o fato de ela ser mulher. Se a escolha apresentada ao eleitor era entre dois governos e dois “homens públicos”, o gênero da candidata tornava-se irrelevante. No máximo, seria uma esperteza de Lula, querendo dar-lhe um impulso adicional, “aproveitando-se” disso.
Do lado das oposições, não houve especulação sobre candidaturas de mulheres à Presidência e apenas um ou outro nome chegou a ser ventilado para ocupar a vaga de vice. Mas a chapa oposicionista acabou sendo puro-­sangue no gênero.
Não esqueçamos Marina Silva. A candidatura possuía marca nitidamente feminina e nunca pareceu decorrer de uma articulação em que a iniciativa fosse externa. Marina tornou-se candidata por desejo próprio.

Mas seu destino era ter uma participação secundária. Aninhada em um tema “não central”, com o qual o eleitorado feminino (mais que o masculino) tende a se identificar, a Marina “verde” continuava a sublinhar a predominância dos homens na eleição. Antes de setembro, muitos a viam até com condescendência.
As últimas semanas do primeiro turno e o começo do segundo marcaram uma mudança radical nesse cenário. Passamos a viver outro tempo, de domínio feminino.
Seus quatro personagens centrais são mulheres. Cada uma a seu modo, é em torno delas que estamos discutindo.
A primeira é a própria Dilma. A partir do segundo turno, ela assumiu o protagonismo de sua campanha em um nível muito maior que no anterior. Seja na propaganda eleitoral, seja nos palanques, nos debates ou nas entrevistas, a Dilma de agora é mais Dilma e menos a candidata de Lula. Vencendo, ele terá de compartilhar com ela o resultado.
A segunda é Marina, para muitos a estrela das eleições. De coadjuvante modesta, tornou-se o fenômeno que mudou os prognósticos, cujo apoio passou a ser cobiçado por Dilma e Serra. Pensando nos quatro candidatos a presidente que saíram do PT (Heloísa Helena, Cristovam Buar­que, Plínio e ela), foi a que chegou mais longe. Tudo indica que será uma presença relevante em nossa política nos próximos anos.

A terceira é Erenice Guerra, com o papel mais dramático. O segundo turno que sua amiga está enfrentando deve-se mais a ela que à capacidade de resistência de Serra ou ao bom desempenho de Marina na reta final. Sem Erenice, a imagem de Dilma teria permanecido mais forte.
A quarta é Mônica Serra, a mais controvertida. Na virada do segundo turno, quando a campanha do marido percebeu que precisava garantir o voto religioso e conservador que havia desaguado em Marina, ela se transmutou. Sem que ninguém imaginasse que existia, desabrochou uma devota, disposta a carregar a imagem da santa em peregrinação para confortar os mineiros do Chile. De missa em missa, não relutou em apagar o que havia sido e dito, cumprindo com seu dever de esposa.
Para o bem ou para o mal, essas quatro mulheres mudaram a eleição, levando-a para a disputa acirrada que estamos vendo. No que vai acontecer em 31 de outubro, elas são personagens centrais. Os homens se retraíram para o fundo do palco.
E não são só elas, as mulheres, que contam. A crer nas pesquisas, o resultado depende mais das decisões das eleitoras que dos eleitores, pois são elas que mais dúvidas ainda têm sobre o que vão fazer. •

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