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Política

Crônica do Menalton

As palavras voam. Só não sabemos onde pousam

por Menalton Braff publicado 19/04/2014 07h24
Ao dizer que minhas crônicas mudaram a sua vida, o estudante de jornalismo me jogou dentro de uma crônica de Rubem Braga
Menalton Braff

Imagem da capa do livro Que Enchente me Carrega, de Menalton Braff

Quando sentei aqui na frente do micro pensando em escrever minha crônica da semana, já vinha com uma história montada, mas, como sempre, começou a tortura do título. Conheço um jovem escritor que jorra títulos da melhor qualidade com a mesma fluência com que se alivia no mictório (outro dia prometo contar a história do Mário de Andrade e o mictório).

Outros, como o Caio Porfírio Carneiro (foi ele quem me confessou), perdem noites de sono atrás de um título que valha a pena. Estou incluído entre os últimos. Me lembrei, estimulado pela natureza da história, que pretendia escrever alguma coisa sobre minha velha professora de latim. Também mandei bilhetinhos clandestinos em sala de aula, no meu tempo, e um dia fui pego pela professora de latim.

Leu o bilhete, sacudiu a cabeça e me disse: “Preciso falar com o senhor na saída.” Não preciso dizer que perdi o restante da aula, o sangue todo concentrado nas minhas orelhas. Os colegas todos, no fim da aula, saíram olhando para trás, gozando meu vexame. Sozinhos naquela imensa e vazia sala, dona Ilse (cara de valquíria e língua de tribuno romano) me disse que alguns assuntos nunca devem ser escritos. Scripta manent, verba volant, ela repetiu. Tinha lá meus treze, quatorze anos e nunca mais me livrei da sentença de dona Ilse.

O incidente acima me ocorre, e hoje é um dia de recordações, porque um fato que vivi pela manhã me jogou dentro de uma crônica de mestre Rubem Braga, mestre de todos nós que fazemos de nós mesmos a matéria da distração alheia.

Nem todos vocês conhecem o Urbano. Eu também, até pouco tempo não tivera este prazer. O Urbano, com seu jeito de bicho-grilo, um cara muito na dele, me contou hoje de manhã que antes de me conhecer tinha lido alguns textos meus. Acho que há algumas pessoas, neste exato momento, correndo os mesmos riscos: o mundo anda cheio de textos. Depois de vários comentários (ele é estudante de jornalismo e tem opiniões), fez uma revelação que me deixou sobressaltado. Afirmou que sua vida começou a mudar depois de uma afirmação que fiz em uma crônica. Pois posso devolver, e publicamente, a revelação: isso que você me contou, Urbano, pode mudar inteiramente o que daqui pra frente vou dizer. Saber que as palavras voam, a gente sabe. O que não se sabe é onde elas vão pousar. Isso não pode jamais ser esquecido por quantos têm o ofício “de viver em voz alta.”

Não resisto, a esta altura, à tentação de transcrever um trecho do mestre, retirado de sua crônica “A palavra”.

“Tanto que tenho falado, tanto que tenho escrito - como não imaginar que, sem querer, feri alguém? Às vezes sinto, numa pessoa que acabo de conhecer, uma hostilidade surda, ou uma reticência de mágoas. (...)

Às vezes, também a gente tem o consolo de saber que alguma coisa que disse por acaso ajudou alguém a se reconciliar consigo mesmo ou com a sua vida de cada dia; a sonhar um pouco, a sentir uma vontade de fazer alguma coisa boa.”

Que me perdoe o mestre Rubem Braga, se não foi dos melhores o uso de seu texto, mas era impossível evitar a lembrança depois do que ouvi. Prometo pensar melhor nas palavras que, daqui pra frente, soltar por aí a voar.

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