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Política

As novas rotas da seda e as controvérsias

por Paulo Yokota — publicado 20/10/2014 10h17, última modificação 20/10/2014 11h53
O Silk Road envolve aspectos históricos do passado, alguns mitos e transferências recíprocas de tradições culturais e religiosas por muitos países asiáticos, inclusive da Ásia Central
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Chongqing, com 8 milhões de habitantes, foi ligada à antiga capital chinesa (Xian), por meio de uma ferrovia de 11 mil quilômetros

O governo do primeiro-ministro chinês Xi Jinping vem se empenhando junto às mais variadas frentes, tanto europeias como asiáticas, visando efetivar as ideias de novas rotas da seda para ligar principalmente o sul e oeste da China, menos desenvolvidos que a costa leste, com a Ásia Central e Oriente Médio chegando até a Alemanha, na Europa, reproduzindo as históricas rotas da seda. A primeira iniciativa concreta foi ligar com a ferrovia de cerca de 11 mil quilômetros Chongqing e Xian, esta última à antiga capital chinesa de onde partia a histórica rota da seda original, com o porto fluvial Duisburg no rio Reno, na Alemanha. Provocaria uma redução de 22 dias sobre o transporte marítimo entre os dois pontos nas duas direções. Na visita em março último, o dirigente chinês lançou o convite à Alemanha a participar do gigantesco programa.

O assunto merece atenções especiais de Shawn Doumann, World Trade Editor do Financial Times. E outro artigo de Shashi Tharoon, ex-ministro de Estado dos Negócios Estrangeiros e outros importantes cargos da Índia e que foi também das Nações Unidas, divulgado pelo Project Syndicate. O ponto mais controvertido deste vasto programa é que se pretende implantar também a rota marítima que ligam as mesmas regiões. Os atuais navios porta-contêineres possuem as vantagens de maiores transportes de cargas.

No mês passado, Xi Jinping lançou a parcela marítima do programa quando inaugurava o projeto de um porto em Sri Lanka com o investimento de US$ 1,5 bilhão.

Este monumental programa ajusta-se ao que se pretende com o novo banco de desenvolvimento criado pelos países membros dos BRICS – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Ainda que o programa possa sofrer algumas restrições da Rússia, pois a ferrovia acaba sendo paralela ao seu projeto da Trans-Eurasia Logistic que, com os atuais problemas russos com a Ucrânia, acabou sofrendo também contrariedades dos europeus.

O projeto ferroviário encontra incrível entusiasmo de empresas como a Hewlett-Packard e das automobilísticas alemães como a BMW e a Mercedes-Benz pela forma eficiente e de alto valor ao ligar a Europa e a China, tanto para o comércio de componentes como autos prontos, em ambas as direções.

De outro lado, o indiano Shashi Tharoon expressa que o Silk Road envolve aspectos históricos do passado, alguns mitos e transferências recíprocas de tradições culturais e religiosas por muitos países asiáticos, inclusive da Ásia Central. Acabou sendo um importante mecanismo que trouxe para o Ocidente muitos conhecimentos que lhes eram estranhos, como os provenientes da China, da Índia, como da Mongólia e da região central da Ásia ligada à Europa, por onde ela passava.

Deve-se recordar que, por terra, Gengis Khan já tinha consolidado uma vasta região que ia do Pacífico até o Mediterrâneo e que no início do século XV o almirante Zheng He já havia dominado os oceanos, como o Índico, com pretensões de hegemonia na região, o que é temido pelos vizinhos dos chineses até hoje, pela possibilidade de sua repetição.

A atual ação diplomática chinesa vem estabelecendo vários entendimentos de intercâmbio com diversos países, envolvendo projetos principalmente de infraestrutura já em andamento, mas outros com objetivos mais amplos, comerciais como culturais.

Também este autor hindu lembra as preocupações com os conflitos já existentes nos mares que cercam a China com alguns seus vizinhos, nas rotas fundamentais para seus suprimentos. Bem como o conceito do Eixo da Prosperidade adotada pelos japoneses durante a Segunda Guerra Mundial, que poderia ser considerado como semelhante às atuais iniciativas chinesas e que visava à consolidação de uma hegemonia japonesa na região.

No atual mundo globalizado, que pode ter desacelerado o seu ritmo, há que se reconhecer que ainda existem algumas regiões, quer por suas limitações geográficas como constrangimentos políticos, que não estão proporcionando os benefícios do desenvolvimento para as suas populações.

Respeitando-se suas características e suas independências de decisões atuais, sempre se pode imaginar que rotas que estabelecem mecanismos de transporte e comunicações podem ser aproveitadas para os objetivos que todos perseguem.