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As ideias descontinuadas

por Rosane Pavam publicado 11/08/2010 10h00, última modificação 12/08/2010 15h58
João Sayad quer mudanças que os opositores intitulam “desmonte”
As ideias descontinuadas

O presidente da TV Cultura, João Sayad, quer mudanças que os opositores intitulam "desmonte" e vê o canal como uma secretaria de Estado a prmover conteúdo novos. Mas não hip-hop. Por Rosane Pavam

João Sayad quer mudanças que os opositores intitulam “desmonte”

Os rumos que a TV Cultura tomará até a posse do novo governo paulista, em janeiro próximo, não passam distantes daquilo que pensa o atual presidente da Fundação Padre Anchieta, responsável por geri-la. Ou, dizem alguns de seus detratores, o que o presidente João Sayad deixa de pensar para o futuro da emissora é o seu norte.

Os 1,8 mil funcionários da empresa já sabem que o ex-secretário estadual de Cultura de São Paulo entre 2007 e maio de 2010 pretende reduzi-los à mínima presença, fiel à ideia de que a emissora de missão pública precisa render mais, liberada de seus serviços, alegadamente custosos. Mas o presidente não lhes mostrou de forma transparente, até o fechamento desta edição, um plano de reestruturação. O Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo informou ter solicitado uma reunião com Sayad para esclarecimentos.

No dia 4, disse a Fundação Padre Anchieta em seu site: “A TV Cultura é patrimônio querido dos paulistas e brasileiros, com um acervo de ótimos programas e vários artistas e jornalistas de sucesso que começaram aqui, mas que precisa se renovar. Perdeu audiência, qualidade e se tornou cara e ineficiente.” O texto respondia indiretamente ao que publicara naquele dia o portal R7, por meio do jornalista Daniel Castro. Anunciado no perfil de seu blog como responsável por “elevar a cobertura de televisão, tratando o veículo como uma indústria”, Castro disse que a Cultura demitiria até 1,4 mil funcionários.

O texto prosseguia afirmando que Sayad transformaria em estatal a emissora, que tem orçamento de 240 milhões de reais, um terço dele nascido diretamente de recursos governamentais. Segundo o texto, Sayad se desfaria da sede da TV Cultura em São Paulo, reduzindo-a a um andar de prédio comercial. Ele a transformaria em coprodutora de programas. A vocação do Jornal da Cultura seria a partir de agora não a de noticiar, mas de debater a notícia. E o Metrópolis, revista de cultura, poderia acabar.

Daniel Castro acertou no geral, mas errou no particular, dizem fontes ligadas à emissora que não desejam se identificar. Os funcionários demitidos seriam entre 500 e 600, somente aqueles não regidos pela CLT, já que, em ano eleitoral, os empregados sob essa legislação estariam assegurados em seus cargos. Principalmente, no próximo ano, a concretização dos planos de Sayad estaria sujeita ao que determinasse o novo governador para a tevê. E que novo administrador pagaria o custo político dessas demissões? Sayad é ligado a José Serra, candidato à presidência, mas seria preciso avaliar o que pensa disso outro tucano, Geraldo Alckmin, se eleito governador.

Os bastidores falam em “desmonte” da emissora com o objetivo de fazê-la caber na verba destinada pelo governo estadual, de 80 milhões de reais. Os dois terços atualmente não provenientes dela, nascidos da publicidade e da prestação de serviços, seriam eliminados. Ao pagar integralmente a conta, o Estado decidiria o que veicular. Pelo contrário, como está hoje, segundo a crença dessas fontes, a emissora pública de direito privado tem autonomia razoável em relação ao governo. Por pouco, até, ela permitiu que uma reportagem sobre pedágio nas rodovias paulistas, supervisionada pelo então diretor de Telejornalismo, Gabriel Prioli, fosse veiculada no Jornal da Cultura, no início de julho. A direção deu-se conta a tempo da apuração e vetou a transmissão da matéria, demitindo Prioli, que iniciara suas funções sete dias antes.

Ao jornal Folha de S.Paulo, no dia 5, Sayad disse que não faria demissões. Ao Estado de S. Paulo, na edição do mesmo dia, afirmou que “haverá mudanças nos quadros, isso é certo”, e elencou os programas a serem extintos: Manos e Minas, sobre hip-hop, e Login, confirmando o perfil analítico do Jornal da Cultura. O Metrópolis continua. O Vitrine acabará, à espera de reformulação. E uma sede bem menor para a emissora seria uma “implicância” sua, um “projeto a longo prazo”.

CartaCapital tenta, desde o dia 4, que Sayad a receba em entrevista. O presidente e sua assessora de imprensa, dizem as secretárias, revezam-se em reuniões. Mas não foi difícil falar sobre o assunto com o então secretário de Cultura em março do ano passado. Embora a conversa principal girasse em torno do ensino de música, Sayad disse o que pensava sobre a emissora.

“A TV Cultura, eu assisto pouco, mas quando assisto é sempre um alívio perto da Globo”, afirmava, para lamentar a ação talvez tímida de Paulo Markun, então presidente da fundação, na resolução do “problema administrativo” (número excessivo de funcionários). Sayad pregava comprar programas “fora”. Propunha abrir o jornalismo para “novos talentos”. “É difícil fazer um jornalismo diferente da TV Globo, mas tem de experimentar. Se for para ver jornal, vejo o Nacional. O da Cultura traz as mesmas notícias, mas é atrasado e tem menos graça.”

Julgava a programação infantil da emissora “muito bem-sucedida”. A seu ver, o programa de entrevistas Roda Viva, criado em 1986 durante a reabertura política, teria perdido sua força, já que toda a mídia buscara, a partir dele, também cobrar ações governamentais. “E a vida política também perdeu importância.” Não via em Heródoto Barbeiro a escolha ideal para conduzir as entrevistas (em sua gestão, o jornalista foi afastado). Observava a inutilidade de perguntas de “meia hora” feitas pelos jornalistas, que na verdade teorizavam diante do entrevistado e atrapalhavam uns aos outros no momento de falar. O formato, dizia, não favorecia o questionamento. “O que parece ser difícil (para o entrevistado) é muito fácil. A cadeira roda e, se aparece uma pergunta difícil, você deixa outro jornalista falar.”

O programa deve receber, a partir deste mês, Marília Gabriela e mais dois jornalistas fixos para a condução das entrevistas. Dois outros profissionais, a depender do entrevistado, entrarão na bancada. O entrevistado não deverá estar mais abaixo dos entrevistadores, mas em seu nível.

Sayad alegava ainda admiração por programas da Public Broadcasting Service, a PBS americana, entre eles o político Esquerda-Direita (“Eles se matam discutindo, é divertido ver”), embora já o julgasse “chato” naquele momento. “Falta brasileiro para fazer isso. Um bom programa de debates vivo, inteligente.” Gostara do documentário Violência Sociedade Anônima, comprado e exibido pela emissora. “A TV Cultura poderia ser a Secretaria da Cultura, no sentido de financiar projetos, muito melhores do que a velharia que há hoje lá. Eu quero os novos.” Ele lamentava que se comentassem gêneros como a bossa nova, quando a emissora poderia ir atrás das novidades musicais. Quando CartaCapital lembrou-lhe que a Cultura abordava o hip hop, ele desconversou: “Dizem que é bom, mas eu não sei.” Manos e Minas, programa sobre o movimento, está na lista atual de suas ideias descontinuadas.

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