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Política

Crônica

Aprenda a conversar com o seu senador ou deputado

por Tão Gomes — publicado 18/11/2011 14h55, última modificação 18/11/2011 15h35

Tudo na vida exige arte e às vêzes até um certo talento. É isso que diferencia as pessoas. Uns tem mais talento do que outros. Assim conseguem sempre melhores resultados.

A arte é um dom. Você nasce, ou não, com ele. O que é bom já nasce feito, costuma-se dizer. Agora o talento é um pouco diferente. O talento aprimora-se. Ou pode ser aprimorado com o tempo. Eu nunca me esqueço da frase de Cezanne (o pintor) na carta para o irmão: “Estou fazendo lentos progressos”. Cezanne, quando escreveu essa carta já tinha passado dos 60.

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Eu, por exemplo, modéstia à parte, escrevo bem. Nasci com esse dom.

Deveria aperfeíçoa-lo lendo os clássicos. No entanto, perdi grande parte da minha vida conversando com politicos, na qualidade de assessor.

Na verdade, perdi de um lado, mas ganhei de outro. Hoje, por exemplo, eu sou capaz de entender o que está por trás das palavras de um deputado, seja federal ou estadual, e até mesmo eventualmente algum senador.

Vou dar um exemplo: um deputado ou senador recebe um velho amigo, daqueles dos tempos de colégio. Conversa vai, conversa vem, o politico fica sabendo que o amigo mora hoje na cidade de Ouro Azul, no estado que ele representa.

E que o amigo (companheiro de tantas jornadas, como diz o Roberto Carlos) tem de pegar a balsa todo dia, pois o bairro onde ele mora fica do outro lado do rio. O senador aparenta surpresa:

- Todo dia você pega a balsa?! Para ir e vir do trabalho?

O amigo responde: Todo dia.

O senador, irritado, chama o seu chefe-de-gabinete pelo telefone interno: “Fulano, na minha proxima relação de emendas você inclui ai uma ponte no municipio de Ouro Azul. Depois te passo os detalhes”.

Ao se despedirem, o amigo ainda se lembra: a ponte, não vai esquecer dela.

Ao que o senador responde: “Pode ficar traquilo. Vou tratar desse assunto com carinho”.

Pode ser até que um dia a ponte saia. Afinal, todo ano o governo federal distribui as tais emendas dos parlamentares. Mas quando sair, será por acaso ou porque sobrou uma verba no fundo do tacho do Ministério dos Transportes.

Apesar do carinho que tinha pela ponte, o senador nem se lembrava mais da sua existência.

Outro tipo de conversa com parlamentares é o papo do lobbysta. Ai já entram em cena, digamos, outros interesses. A conversa em geral é a sós, agendada num restaurante discreto e dela o assessor nem precisa participar.

Mais tarde, conforme, a intimidade e a participação do assessor no assunto (pode ser que ele é que tenha conseguido agendar a conversa), um liga para o outro: “Tudo bem no papo?”

Se o lobbysta diz tudo ótimo, eles combinam um happy-hour no Meliá. Se o lobbysta diz tem "boi na linha", ou frase similar, e mau sinal.

Convêm inclusive desligar o telefone rapidinho. Afinal, ninguem sabe o tamanho do boi.

Outro tipo de conversa é a que o politico mantêm para ouvir reivindicações de grupos de prefeitos, de moradores de determinado bairro ou cidade, de usuários da rede ferroviária local que não está cumprindo o prometido, etc… Esse tipo de visita em geral rende boas fotos na mídia da região, mas pouco mais que isso.

E finalmente, em matéria de conversa de politico, há aquela em que o papo que corria solto é interrompido pela secretária que vem avisar: “ O doutor Cacau está na linha, e diz que é urgente”. O politico mostra um ar de surpresa (como, o Cacau!?), vacila por um momento e pede à secretária:

- Por favor, Marizete, diz pro Dr. Cacau que eu ligo pra ele em seguida.

Ai o politico se vira para o amigo: “ É meu advogado, você não se importa…?”

O amigo responde o óbvio, e o politico acrescenta:

- Aliás você pode me emprestar o seu celular. É rapidinho, só que eu preciso falar a sós com ele. Você me dá licença…

Enquanto aguarda na ante-sala, você observa com a Dona Marizete:

- Engraçado, ele tinha três celulares na mesa…Por que será que pediu o meu?

Ao que Marizete responde sem largar a digitação de um documento: “ Shiii…Eu já trabalhei aqui com três senadores…Cada um com a sua mania…”

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