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Política

Nova York

Anonymous atacam Wall Street

por Tão Gomes — publicado 23/09/2011 15h54, última modificação 24/09/2011 09h42
A dimensão e o cenário do ativismo político mudaram. Resta saber quais serão as consequências dessa mudança

Não foi uma multidão de proporções egípcias mas, para o contexto dos EUA, é extremamente significativo e ela promete não ir embora. A revista Fórum conta, num texto de Idelber Avelar, como começou a ocupação de Wall Street. Alguns poucos milhares de pessoas saíram às ruas, sábado passado, no sul da ilha de Manhattan, o coração do capital financeiro dos EUA.

Elas prometiam permanecer lá e muitos apostam que a concentração vai crescer neste final de semana.

Completamente ignorada pela mídia televisionada e impressa, o movimento se articulou pela internet.

Os quarteirões de Wall Street ficam entre as ruas Broadway e William, segundo relato de Idelber Avelar. Não houve grandes distúrbios na semana passada, mas a polícia nitidamente se confundiu com o caráter descentralizado da manifestação. Vários presentes relataram que era insistente a demanda “queremos falar com o líder”, ante a qual a resposta recebida era invariavelmente “não há líder”.

Há um total blecaute midiático sobre o movimento, relata Avelar. Fox News, CNN e MSNBC, os três principais canais de notícias da TV a cabo, não noticiaram nada. As quatro principais emissoras da TV aberta, ABC, CBS, FOX e NBC, também não.

Na seção de tecnologia de seu site, a CNN deu uma bizarra matéria que dizia que o movimento "tentava imitar o Irã". O New York Times não deu uma linha no jornal propriamente dito, mas só uma notinha no blog.

Na noite de sábado, a assembleia popular decidiu passar a noite lá e, permaneceram. Neste domingo, espera-se a chegada de mais gente. Muitos manifestantes falam em permanecer em Wall Street durante semanas ou meses, num grito de revolta contra o capital financeiro. Na segunda-feira, evidentemente, a polícia já não terá como fechar Wall Street, e é nisso que o movimento aposta.

Há algumas fontes para acompanhar esse acontecimento. A tag no Twitter é #OccupyWallStreet. O Anonymous está postando vídeos. A pequena cadeia de televisão de Washington RT Television está cobrindo o evento. Também há notícias e vídeos no Scoop it.

Dada a acumulação de revolta contra o capital financeiro nos EUA, o movimento tem muito potencial para crescer. Pode ser que fique interessante a coisa.

A revista Fórum aproveitou o protesto em Wall Street para uma reportagem ampla sobre o Anonymoyus, que tem realizado ações políticas impactantes em vários cantos do mundo.

Um movimento que não é de esquerda, de direita e nem de centro. O que não significa que guarde qualquer relação “programática” com o partido criado pelo prefeito paulistano. Mas nada nada a ver com o partido inventado pelo prefeito Kassab.

Anonymous, lembra a Fórum, é um típico movimento nascido na era das redes e da revolução cibernética. Não tem hierarquia e, por isso, não tem líderes, liderados e figuras públicas. Não reconhece as organizações intermediárias e não vê muito motivo de ter bandeiras políticas.

Mas, desde 2008, deram muito trabalho para empresas ou instituições públicas que têm atuado contra a liberdade na rede.

O primeiro alvo do grupo foi a Igreja da Cientologia, uma seita desconhecida no Brasil, mas que abriga vários pop-stars de Hollywood, como Tom Cruise e John Travolta.

Depois vieram a Sony, o FBI, a Fox News, os governos da Tunísia, do Egito e da Espanha e, em julho, sites do governo brasileiro, que foram atacados por um braço do grupo que se autodenomina LuzlSec.

Qual o significado dessas ações?, indaga a Fórum.

Talvez mais do que buscar a resposta no conteúdo, nesse caso, vale mais olhar a forma.

Essas ações podem significar que estamos entrando num outro campo das disputas pelo poder. No qual a ação do Anonymous é apenas uma amostra do que ainda está por vir.

Um dos entrevistados da revista, o professor Sergio Amadeu, diz que os próximos conflitos serão entre redes de informação. O que chama de redes contra redes.

Como teria, segundo ele, acontecido no episódio da “Flotilha da Liberdade”, quando defensores da causa da Palestina e do Estado de Israel se enfrentaram na internet para convencer o maior número de pessoas para a sua causa.

Sem dúvida, a dimensão e o cenário do ativismo político mudaram. Quais serão as consequências dessa mudança, ainda é cedo para responder.

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