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Política

Anedota socrática

por Menalton Braff publicado 10/04/2015 03h06
O que me ocupa é o modo fácil como a maioria absoluta da população é capaz de sacrificar afinidades, valores éticos, amizades, prazeres e sonhos pela posse de um objeto qualquer
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Sócrates

Sócrates: "Vejam só, meus jovens, de quanta coisa eu não preciso para viver"

Nada contra a posse de bens, mesmo os materiais, pois sem eles nossa pobre carcaça não resistiria às terríveis ações de tempo e espaço. O que causa espanto, desalento, o que causa descrença nesse pequeno ser que se chama “ser humano” é ver como algumas pessoas vendem a alma ao diabo. Não, não vou falar de literatura, que por ela já passeei bastante esta semana. Não vou falar do Fausto, tampouco do Riobaldo, famosas personagens que se deixam seduzir pela ideia de que o diabo pode ajudá-los a alcançar algum objetivo em troca da alma, que a ele deverão entregar após a morte. A venda da alma de que me ocupo é outra. Falo da sedução exercida pelo mercado e que conquista muitas almas.

Tenho um amigo que escrevia poesia da melhor qualidade literária, mas vendia muito pouco, como de resto acontece com toda literatura: na proporção inversa do aumento da qualidade as vendas despencam. Qualquer pessoa mais ou menos bem informada sobre o universo literário sabe disso. Meu amigo também sabia. Começou a praticar um tipo de autoajuda do que se pode chamar de literatura banal e enriqueceu. Hoje ele pode comprar muita coisa que não podia. E o Brasil perdeu um grande poeta. Ele está errado? Claro que não. Sua felicidade dependia de seu poder de compra.

Ser há muito perdeu sua importância. Vivemos, como já se disse por aqui, numa época em que ter vai conquistando a maioria dos corações. Há quem diga que parecer, nos dias atuais, é o canal. Talvez seja, mas o que me ocupa agora é o modo fácil como a maioria absoluta da população é capaz de sacrificar afinidades, valores éticos, amizades, prazeres, sonhos e encantamento pela posse de um objeto qualquer. E muito qualquer. Quase nunca um objeto que lhe trará algum benefício. Não aprendemos com a semiótica que se compra não o objeto, mas sua significação? Em outras palavras, compra-se o objeto que dê status. Resumindo, compra-se status.

E o Sócrates, o grego, aludido no título destes rabiscos? Bem um dia ele passeava pelas ruelas do mercado de Atenas. O Sócrates, como se sabe, gostava de pensar caminhando. Pelo menos isso herdei do filósofo. Ele passeava por ali com seus discípulos, apreciando a infinidade de mercadorias expostas dos dois lados da rua. Cores, cheiros e formas, tudo isso ele ia sentindo. Então parou e, com o braço num amplo gesto, chamou a atenção dos discípulos: − Vejam só, meus jovens, de quanta coisa eu não preciso para viver.

O tempora, o mores! Disse bem mais tarde Cícero e diria hoje se estivesse por aqui.