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Política

Entrevista

Amorim quer software brasileiro para defesa

por Marsílea Gombata publicado 17/07/2013 08h59, última modificação 17/07/2013 13h34
Ministro da Defesa reconhece que o Brasil mal despertou para o tema da proteção cibernética
Roberto Parizotti / FPA
amorim ufabc

Ministro da Defesa falou em conferência sobre política externa na Ufabc

O Brasil mal despertou para a defesa cibernética, reconhece o ministro da Defesa, Celso Amorim. No entanto, deve começar a investir pesadamente no desenvolvimento tecnológico, sobretudo de softwares brasileiros para garantir uma defesa própria. “Não é para ter ojeriza ao fato de ser estrangeiro [o programa], mas se você quiser desenvolver uma defesa que não esteja sujeita a uma interferência externa terá de progredir nessa área”, explicou em entrevista a CartaCapital. “Trata-se de um esforço muito grande, não se pode imaginar que conseguiremos resolver de um dia para o outro.”

Para o ex-chanceler e atual titular da pasta de Defesa, o Brasil e toda América do Sul têm de estar preparados para “defender seus recursos naturais cada vez mais escassos”. “[Precisamos] nos defender não somente com as armas do século 19 ou 20, mas também com os escudos do século 21, que incluem a defesa cibernética. É um longo caminho, mas um caminho que  se tem de percorrer”, disse nesta terça-feira 16 na conferência 2003 – 2013: Uma Nova Política Externa, na Universidade Federal do ABC (Ufabc), em São Bernardo do Campo.

Ao se colocar como um crítico feroz da hegemonia americana, o diplomata que foi ministro das Relações Exteriores durante os oito anos do governo Lula lembrou aos alunos, acadêmicos e diplomatas presentes algumas inversões de rota que marcaram sua diplomacia, como a anulação do projeto Alca e o bloqueio do acordo na OMC, que seria "altamente prejudicial" aos interesses do Brasil. “Pusemos o pé na porta e a porta não pôde ser fechada na nossa cara”, lembrou à plateia que o ovacionou antes mesmo da palestra proferida e que ao final formou fila para tirar fotos com o ex-chanceler.

Confira os principais trechos da entrevista dada a CartaCapital.

CartaCapital – Depois das denúncias de espionagem, quais providências efetivas o Ministério da Defesa pensa em tomar?

Celso Amorim – Nós já estamos tomando. É a tal história do copo meio cheio, meio vazio. Você pode dizer que o copo está 5% cheio só, mas começou-se agora. A cibernética só foi definida como uma área estratégica, a defesa cibernética, em 2008. Você sabe como as coisas são: em qualquer relação, qualquer ordem, há dificuldades. O Ministério da Defesa só ganhou a estrutura atual em 2010 e só aí que o Estado Conjunto pôde também atuar. E só em 2012 que foi criado formalmente o Centro de Defesa Cibernética. Então, não se pode esperar que ocorra de um minuto para o outro.

Acho que a primeira maneira de você resolver o problema é ter a consciência de que ele existe. Acho que essa consciência é clara e ainda exigirá muito trabalho nosso. Não haverá milagres. Eu citei [na palestra] o Leon Panetta de propósito. Se quem era o secretário norte-americano de Defesa diz que o país dele está ameaçado de um Pearl Harbor cibernético, obviamente que um país como o Brasil sofre de ameaças. Essas questões não são simples. Nós temos que melhorar, ter capacidade de identificar, de prevenir, e nós já temos feito um pouco disso. Em uma dimensão ainda relativamente pequena, mais eficiente talvez em relação a ataque de indivíduos ou pequenos grupos do que propriamente de um país. Mas nós temos que chegar lá.

Mas, também, se nós fizermos e gastarmos mal, não adianta. Você tem de trabalhar no desenvolvimento de tecnologia nacional, sobretudo na área de software. Eu perguntei se há programas para defesa das redes. Me disseram que existe, mas não são brasileiros. Não é para ter ojeriza ao fato de ser estrangeiro, mas se você quiser desenvolver uma defesa realmente sua, que não esteja sujeita a uma interferência externa, terá de progredir nessa área. É um esforço muito grande, não se pode imaginar que conseguiremos resolver de um dia para o outro.

A consciência do problema é o primeiro passo para se resolver. Tem de haver consciência dentro das Forças em relação à prioridade desse tema, e temos de ter consciência mais ampla da sociedade em relação à prioridade da defesa. O Brasil é um país muito importante, que tem recursos muito importantes e tem de ser capaz de defendê-los.

CC – Ministro, 2012 não é um tanto quanto tarde para se criar um centro de defesa cibernética?

CA – Eu não tenho culpa com o que deixou de acontecer antes.  Essa consciência de que há um risco muito grande em termos de segurança se aguçou nos últimos anos. Em 2008 ela foi inscrita como prioridade, aí o Exército criou um primeiro núcleo. Essas coisas vão indo aos pouquinhos. Não dá para ir de uma vez, não se tem a capacidade humana. Mesmo que se queira comprar aparelhos ou softwares, não se tem capacidade humana para gerir. Então, isso tem de ser formado paulatinamente. Claro que o mais aceleradamente que pudermos. Mas, acho que se você comparar com outras áreas, [o tempo que demorou] não é tão espantoso assim.

CC – Fala-se em algum montante a ser investido em determinada área?

CA – Eu não sei, não posso te dizer isso. O que posso dizer é que há dois níveis em que estamos trabalhando no momento. O grupo que foi criado na primeira reunião interministerial logo depois de identificada essa espionagem inclui Ciência e Tecnologia. Devo dizer que foi por sugestão da Defesa a ideia de prioridade à tecnologia. Então há esse nível em que estão trabalhando com outros ministérios, e o outro nível que pretendo desenvolver na Defesa, onde quero fazer reuniões sobre isso.

CC – E como seria esse outro nível?

CA –  Quero eu próprio entender melhor. Acho que as pessoas têm que ter uma consciência mais bem distribuída, não só de quem está lá no centro, mas nas Forças Armadas também. E isso já começa a existir. Acho que os próprios trabalhos da Rio +20 e na futura Copa vão ser importantes. Esse evento agora aguçou a consciência. E nós temos de ter consciência de que, do ponto de vista de defesa total, a proteção sempre tem uma certa relatividade, aliás, como em qualquer outra área. Então nós temos de ter diversidade de parceiros, cooperar com vários, aprender, desenvolver nossas tecnologias em algumas áreas, proteger as questões mais sensíveis.

Agora, questões como essa, da proteção da defesa do indivíduo, tão importante, você vai ter de atuar mais na área diplomática, na área legal. Nesse aspecto, há pouco o que a Defesa possa fazer. Se você opera com o Google ou Microsoft, há pouco o que a Defesa possa fazer se eles quiserem pegar seus dados. Acho que aí é uma questão de, possivelmente, discussão internacional em torno do tema, quem sabe algum código de ética, e também de marco legal interno.

CC – Existe a possibilidade de se restringir o uso desses gigantes da internet aqui no Brasil?

CA – Isso é uma coisa que vai muito além das preocupações da Defesa. Acho que, como a própria presidenta [Dilma Rousseff] disse, ninguém quer restringir o beneficio que traz a inovação tecnológica. Mas toda inovação tecnológica impõe também desafios, e nós temos de saber como enfrentá-los. Como conciliar essa liberdade de comunicação que permite a criatividade, que permite alcançar tantas coisas que não seriam alcançadas sem ela, e ao mesmo tempo proteger a privacidade, por um lado, e as informações sensíveis do Estado, por outro?

CC – Antes mesmo das denúncias de espionagem, já se falava sobre uma ajuda dos EUA para o setor de inteligência da polícia no Brasil. Isso continua?

CA – Polícia não é da minha competência. Prefiro não falar sobre isso.

CC – Com os grandes eventos que o Brasil vai sediar, tem se debatido a necessidade de tipificação do terrorismo no Brasil. Mas não convivemos com esse terrorismo que convivem EUA ou mesmo a União Europeia. Isso ajuda ou atrapalha? É importante ou pode significar futuras violações a liberdades individuais?

CA – Todas as questões correm riscos. Deve-se ter sempre um equilíbrio entre a segurança e o respeito aos direitos humanos. Acho que o Brasil não pode se deixar levar pela obsessão. O Brasil não está em uma guerra ao terror como outros países, não elegeu essa guerra. Até por sorte, talvez, ou composição ou seu comportamento, nós não fomos alvos dessas coisas, não temos porque atraí-las para nós. Mas, sim, temos de nos proteger de ataques terroristas porque eles podem acontecer em qualquer lugar do mundo, a qualquer momento, por qualquer razão. As pessoas falam de terrorismo internacional como se houvesse um terrorismo internacional controlado por uma única central terrorista no mundo, o que é uma visão totalmente errada. Existem ataques terroristas das mais variadas espécies e das mais variadas origens, e nós temos de estar preparados para enfrentá-los, sem dúvida, na medida do possível.

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