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Política

Novo mandato

Adeus, Palácio do Planalto

por André Barrocal publicado 04/01/2015 08h51, última modificação 05/01/2015 12h42
Responsável por abrir centro do poder a remediados sociais, Gilberto Carvalho sai de cena após 12 anos
Agência Brasil

Os motoristas do Palácio do Planalto não precisam mais se ocupar do destino e do paradeiro de Gilberto Carvalho. E lamentam. Às vésperas do Natal, entregaram a ele um manifesto pedindo sua permanência à frente da Secretaria Geral da Presidência, mas não adiantou. Na sexta-feira 2, Carvalho deixou o cargo em uma das mais concorridas cerimônias de troca de comando em Brasília. Era o fim de doze anos de trabalho diário em postos estratégicos no centro do poder, uma proeza em governos civis na história brasileira.

Carvalho sente um gostinho de missão cumprida, mas só saiu por decisão da presidenta Dilma Rousseff. No primeiro mandato dela, ele acumulou desgastes com a chefa, pela disposição de se expor em entrevistas e comentar temas espinhosos para o governo, como o julgamento do “mensalão” ou as dificuldades que Dilma enfrentaria na reeleição. Essa circunstância tende a prevalecer nas análises a respeito da saída de Carvalho, ofuscando uma atuação talvez sem precedentes no currículo do Planalto.

Nos oito anos como chefe de gabinete de Lula e nos quatro na Secretaria Geral com Dilma, o petista, paranaense e palmeirense Carvalho teve um papel decisivo na abertura das portas do Palácio a movimentos populares e remediados de toda a ordem. Catadores de papel, mulheres escalpeladas, hansenianos, ciganos, índios, cegos com seus cães-guias, sem-terra: a cada vez que grupos como estes passaram por gabinetes da Presidência desde 2003, não raro pela primeira vez na vida, havia a digital de Carvalho.

Em 2009, ele abriu a sala de Lula, então fora de Brasília, para doentes mentais defensores de uma reforma psiquiátrica contrária ao tratamento manicomial. Nos dois anos anteriores, o Planalto sediara o anúncio de acordos inéditos costurados por um Carvalho descascador de abacaxis que não tinham uma porta de entrada natural no primeiro escalão. Foi assim que nasceu o pagamento de indenização a mulheres vítimas de escalpo por motores de barcos, acidente comum na Amazônia, e de pensão a hansenianos.

No governo Dilma, Carvalho foi um elo importante com movimentos que explodiram de repente. Foi ele quem procurou representantes do Movimento Passe Livre após a onda de manifestações de junho de 2013 e os colocou numa sala com Dilma antes mesmo que ela conversasse com governadores sobre como reagir aos protestos - embora a presidenta tenha sido obrigada a ouvir dos jovens que “não estava preparada para discutir transporte público”.

O fenômeno dos rolezinhos, que tomaram conta de shoppings centers no início de 2014, invadiu o gabinete de Dilma por obra de Carvalho. Na conversa com a petista, participantes dos rolezinhos deram uma explicação simples para o fenômeno, então a desafiar análises sociológicas: reuniam-se em shoppings porque eram locais seguros e protegidos das chuvas...

A disposição para dialogar com remediados proporcionou momentos curiosos para Carvalho. Uma vez ele recebeu índios xavantes pintados de vermelho para a guerra. No fim da conversa, o petista abraçou-os e foi arrastado para passos de dança indígena. Não pode despachar normalmente depois porque estava com a roupa manchada de tinta. Ao se encontrar certa vez com ciganos, disse o que sempre repetia nestas ocasiões: eles deviam se sentir à vontade, que o Palácio era a casa deles. Mas ciganos não são nômades?

A falta de jogo de cintura do primeiro escalão de Dilma no primeiro mandato transformou  Carvalho em um desaguadouro de insatisfações que não conseguiam ser atendidas em outras áreas do governo, ou até mesmo para enfrentar outras áreas. No Marco Civil da internet, lei aprovada no primeiro semestre de 2014 com regras favoráveis ao usuários, Carvalho uniu-se a entidades de democratização da mídia para combater a intenção do ex-ministro das Comunicações Paulo Bernardo de fazer um acordo com as teles contra a chamada neutralidade de rede. Com a reforma agrária estagnada, o MST encontrou abrigo na Secretaria Geral para pressionar Dilma diante da inatividade do Ministério do Desenvolvimento Agrário.

Quando não estava ocupado com movimentos sociais e remediados, Carvalho cumpria missões políticas delicadas, especialmente no governo Lula, o que faz dele um rico arquivo vivo sobre a era petista no Planalto. Embora tenha se indisposto com Dilma, foi um disciplinado defensor da candidatura dela. Carvalho jamais ouviu do ex-presidente que a então chefe da Casa Civil era seu nome para a campanha de 2010. Mas pegou algumas pistas no ar, como o batismo de “mãe do PAC”.

Sua sala viu uma romaria de parlamentares e ministros petistas inconformados com a preferência de Lula por uma política sem história no PT. Havia quem preferisse o mineiro Patrus Ananias, outros o gaúcho Tarso Genro. A resistência era grande e abriu uma guerra surda nos bastidores. Carvalho organizou reuniões para contornar as resistências e a todos os que o procuravam, sempre defendia a escolha de Dilma e a deixava claro que era esta a decisão de Lula.

No tempo do ex-presidente, Carvalho funcionou como uma espécie de para-raios de crise na Esplanada dos Ministérios. Por várias vezes, atuou como bombeiro em desavenças entre figurões. Em 2008, os então ministros dos Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, e da Advocacia Geral da União, José Antonio Dias Toffoli, brigaram por causa da Lei de Anistia. Vannuchi defendia a revisão da lei pelo Supremo Tribunal Federal, enquanto o segundo mandou à corte um parecer em favor de deixar como está. Carvalho reuniu os dois e, mesmo inclinando-se pela revisão, trabalhou em favor do parecer da AGU, pois essa tinha sido a decisão de Lula.

Quando Marina Silva pediu demissão pela primeira vez do ministério do Meio Ambiente, em 2008, ela mandou uma carta a Carvalho, para ser entregue a Lula. O então chefe do gabinete presidencial segurou o texto por alguns dias, na esperança de que Marina esfriasse a cabeça e desistisse da ideia, um rompimento de profundo significado político no governismo. Ela estava inconformada com a opção de Lula de deixar a coordenação de uma política para a Amazônia com a Secretaria de Assuntos Estratégicas, então comandada pelo filósofo Mangabeira Unger. A insatisfação não passou, e Marina saiu.

O substituto dela na pasta, Carlos Minc, assumiu e logo protagonizaria uma polêmica com o então ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, que alimentaria manchetes administradas por Carvalho. Stephanes deu uma entrevista dizendo-se ressentido com Minc por debates internos sobre Código Florestal e desmatamento, acusando o colega de combinar uma coisa a portas fechadas e dizer outra em público. Minc reagiu dizendo que Stephanes estava descompensado. Carvalho chamou Minc e avisou que Lula o demitiria. Assunto encerrado.

Pelo jeito centralizador e desconfiado de Dilma, Carvalho, visto como demasiadamente lulista, deixou de cumprir tais missões, mesmo tendo sido alçado à condição de ministro. E aos poucos perdeu espaço no Planalto e se indispôs com a presidenta graças, segundo antigos colaboradores, à forma nada tímida com que se pronunciava publicamente, algo pouco tolerado por Dilma em seu Ministério no primeiro mandato. Durante o julgamento do “mensalão” em 2012, por exemplo, Carvalho deu entrevistas declarando-se “muito sofrido”. Dilma telefonou-lhe e o advertiu: no governo, ninguém fala sobre o caso. Em vão. Carvalho seguiu opinando.

Depois dos xingamentos contra a presidenta na abertura da Copa do Mundo, muitos governistas – inclusive Lula – disseram tratar-se de uma ação restrita à “elite branca”. Carvalho destoou. Conhecedor da alma dos movimentos sociais tradicionalmente simpáticos ao PT, tinha a compreensão de que as queixas extrapolavam as camadas mais ricas. Era esta a razão para o então ministro ter prognosticado, em entrevista a CartaCapital na semana anterior ao início do Mundial, que a campanha de 2014 seria “a eleição mais dura” já enfrentada pelo PT desde a chegada de Lula ao Planalto em 2003. Carvalho foi censurado por líderes petistas. O chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, o mais íntimo ministro de Dilma na atualidade, chegou a dizer que “a eleição não será das mais difíceis”. Como as urnas mostrariam, o “grilo falante” estava certo.

Com a eleição liquidada, Carvalho deu outra entrevista polêmica, dizendo que o governo Dilma tinha deixado a desejar no diálogo com a sociedade e que cabia à presidenta dar o exemplo para a Esplanada. O comentário por si só já era indigesto, mas coincidiu com o pedido de demissão de Marta Suplicy do ministério da Cultura feito por uma carta na qual a senadora pelo PT de São Paulo fazia comentários nada agradáveis para Dilma sobre a política econômica. Marta fora uma líder do movimento “Volta Lula” – e, portanto, contra Dilma – e havia procurado Carvalho diversas vezes para pedir ajuda. Aos olhos de Dilma, pareceu uma ação orquestrada. O ex-ministro sentiu o chão gelar e houve entre auxiliares quem temesse uma deselegante demissão por telefone.

Dilma resistiu, porém. E delegou a ele como última missão reunir a maior quantidade possível de gente na festa da nova posse na quinta-feira 1. Carvalho mobilizou movimentos sociais, sindicatos, militantes governistas na internet. Nas contas da polícia do Distrito Federal, 40 mil pessoas estiveram na Esplanada dos Ministérios, mais do que os 30 mil da primeira posse da petista.

Um dia depois, Carvalho passou o cargo ao gaúcho Miguel Rossetto. Não havia dezenas de milhares de pessoas no Planalto, até pela impossibilidade física, mas o Palácio estava lotado. Uma última homenagem ao baixinho ex-seminarista, saudado aos gritos de “guerreiro, do povo brasileiro”.