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Política

Marcha contra a corrupção

'Acorda, Brasil'

por Matheus Pichonelli publicado 09/09/2011 17h50, última modificação 09/09/2011 17h56
Todos têm direito de protestar. Resta saber se os manifestantes de 2011 querem ou temem as transformações de fato

Um dia o Brasil despertou. Cansado das imoralidades promovidas pelo governo eleito, resolveu ir às ruas em marchas que deixavam claro o descontentamento da população com a condução política do País. Igrejas, representantes da sociedade civil e das indústrias engrossavam o coro no ato realizado em 19 de março, dia de São José, o padroeiro da família.

Entre a praça da República e a praça da Sé, 300 mil pessoas marchavam pedindo mudanças. Que não demoraram a surgir. Treze dias depois, em 1º de Abril, o presidente que propunha as reformas de base era apeado do poder. E os militares, atendendo aos apelos de quem via o País à beira da imoralidade e do perigo comunista, ganhavam um tapete vermelho para fazer o que bem entendessem durante os 20 anos seguintes. Como hoje, muitas senhoras daquela passeata, que ficou conhecida como a "Marcha da Família com Deus pela Liberdade",  também gritavam a seu modo: "Acorda, Brasil". Em outras palavras: "Cansei".

Direito de se manifestar todos têm. Goste-se ou não, a pressão dos sem-terra pelas ruas e campos, nas duas últimas décadas, deixou os ouvidos dos governantes tão quentes que hoje parece impossível pensar numa estrutura de Estado que não conte com ao menos uma secretaria de Desenvolvimento Agrário e políticas públicas pensadas para atender demandas que não existiriam sem uma mobilização anterior. E haja mobilização, encontros, bandeiras, passeatas, muitas, todos os anos. O mesmo aconteceu com o movimento negro, o movimento feminista, o movimento em defesa das crianças e dos adolescentes.

Em todos esses casos, as ruas foram apenas o meio pelo qual o recado foi consolidado. Discussões, encontros, estudos e conscientização precediam a mais simplória das mobilizações.

E as mobilizações antecediam os mais simples projetos de lei ou escolha de lideranças eleitas para defender determinadas causas.

A experiência histórica leva a crer que toda transformação tem início num sentimento de indignação. Existe, no entanto, uma única diferença entre os indignados de 64 que legitimaram – muitos sem saber – um golpe de Estado e os indignados que foram às ruas 20 anos depois, pedindo as eleições diretas para presidente.

É que somente estes últimos de fato pediam mudanças. Mudanças no sistema de representação, mudanças na lei, mudança nos diretos sociais, políticos e civis.

Os primeiros não queriam transformações. Temiam transformações. E precisavam que algo mudasse para que tudo permanecesse como estava: antes um general brucutu que um civil na Presidência, desde que não levasse a cabo a ideia de dividir terra para pobres ou estender o direito de voto aos analfabetos.

Daí a dizer que as marchas organizadas pelo País, na quarta-feira 7, Dia da Independência, é uma reedição de um movimento ou de outro vai longe.

O desafio de se entender o que querem esses manifestantes é tão complexo como resumir os tempos atuais.

Basta pensar que hoje uma mensagem de 140 caracteres na internet pode alcançar em segundos um público bem maior do que as 150 mil pessoas que compareceram à Central do Brasil, no Rio, para o comício em que João Goulart anunciou suas reformas que tanto assustaram as elites.

As multidões hoje são outras, e suas demandas, também. Juntar todas as bandeiras num único discurso, como se pretendeu a marcha da corrupção, é tão complexo como atender cada uma das tribos ali reunidas – jovens, anarco-punks, hackers, madames, nerds, militantes, curiosos, pedaleiros, etc.

O risco, então, é transformar o pretenso grito em mera caricatura – ou uma grande oportunidade para a instrumentalização política, como tentou fazer a juventude tucana durante o evento no Masp, do qual foi expulsa praticamente a tapas. Sim, porque, nessa nova forma de mobilização, há um esforço dos organizadores para não se deixar contaminar pelo rótulo dos “partidários”. Esse talvez seja o grande recado para os mandatários do País, como já havia ocorrido na Praça do Sol, em Madri.

Lá, como cá, não havia ditadores a serem derrubados – como no mundo árabe – nem propostas formais que servissem de baliza para os representantes eleitos. Mas lá o grito era contra o próprio modelo de representação: não mais o líder carismático com o microfone nas mãos pedindo amém a tudo o que dizia, mas sim grupos específicos responsáveis por tarefas e debates específicos. Era o anúncio de que a juventude, antes facilmente cooptada, já não aceitava os níveis de desemprego a que estava submetida na Espanha.

Não são poucos os paralelos com o Brasil, embora a sensação seja que tanto espanhóis como brasileiros estejam a anos-luz dos estudantes chilenos - estes, sim, com objetivos, táticas e inimigos definidos.

Em reportagem publicada na edição de número 652 de CartaCapital, Henrique Antoun, especialistas em comunicação e transformação política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), afirmou que os movimentos recentes, em geral, são formados por um novo perfil de jovens, submetidos a condições precárias de estudo ou trabalho (este cada vez mais descontínuo, sem garantias nem direitos consolidados), sem casa própria e cansados de uma realidade de violência. Conectados à internet, acostumaram-se a tomar decisões sem intermediários – como reza a interatividade eletrônica. Essa nova postura, como apontou a mesma reportagem, passava a ser um desafio também ao poder público, já que os partidos ora repudiados precisavam se aproximar desse novo “público” e se colocar como o caminho natural para canalizar as demandas.

Dito isso, parece mais que claro que as manifestações realizadas pela região da Paulista no Dia da Independência acompanham essa tendência, ainda que os números não sejam tão chamativos  – Brasília, entre todos os palcos dos rebeldes, foi o caso mais bem-sucedido, com cerca de 12 mil pessoas.

O desafio que se desenha não é, portanto, convencer as pessoas a sair às ruas com caras-pintadas e narizes de palhaço para mostrar indignação. O mais difícil é entender o que esses manifestantes querem. Uns vão dizer: “ora, queremos o fim da corrupção”. Mas isso todo mundo quer, assim como o fim das guerras, o fim das mortes no trânsito, o fim do estupro e de outros males. Orquestrar o revide é que são outros quinhentos: se o fim da corrupção será feito trollando o deputado para que proponha, ou assine, o fim dos mecanismos que possibilitam desvios e a impunidade ou se com bandeiras e apitaços, permanentes, na frente dos prédios que abrigam o corruptor, sejam nas casas dos Três Poderes nas três esferas ou nas empresas-alvo de operações policiais. Ou teremos a mesma indignação quando a Justiça anular as provas das próximas operações Satiagraha?

Porque passear no vão livre do Masp em pleno feriado e dizer que não está contente com o mundo não vai atrapalhar nem o trânsito da maior cidade do País. Mas pode ser o começo de um movimento que, aos poucos, ganha corpo e pode resultar em propostas. E, sim, é melhor do que simplesmente reclamar da vida deitado no sofá. No mínimo, é tão eficaz quanto.

Resta saber se os manifestantes estão dispostos a tornar os protestos permanentes e se têm de fato interesses em propor, e cobrar, medidas que detonem todas as formas de desvios, com mais transparência, mais participação popular, mais controle sobre o poder público e suas decisões. Ou se a indignação, como em 64, tem como motor somente o medo da perda de certos privilégios antes cercados em determinados rincões de velhos vícios, como escravizar empregadas domésticas e ter cadeira cativa nas universidades, aeroportos e concessionárias de automóveis. Caso contrário, o repúdio dos manifestantes aos militantes do MST e aos beneficiários do Bolsa Família, expresso em fóruns e redes sociais, será apenas mero acaso.

Em recente entrevista a CartaCapital, o filósofo húngaro István Meszáros insistiu para que se recorresse à História antes de qualquer tentativa de se compreender as contradições do mundo atual, envolto em crises econômica, política e de representação. Para isso, lembrava o filósofo, era preciso saber que a História se repete: a primeira vez, como tragédia, e a segunda, como farsa. Tudo para dizer que nada começou em 2008, o chamado auge da crise mundial.

Pelo exemplo de São Paulo, o movimento é simplesmente imaturo, bem intencionado e ainda tem muito a aprender – e ensinar. Mas essa, se levada em conta a perspectiva da história recente do Brasil, é só a melhor das hipóteses.

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