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Internacional

Roberto Amaral

Roberto Amaral

Política no Brasil

06.12.2011 13:09

A vitória da direita: a pós-política

O grande projeto da direita, impressa ou partidária, ideológica ou simplesmente financeira, é a destruição das instituições democráticas, mediante a desmoralização da política. O segundo e último momento é o esvaziamento da soberania popular, como já ocorre na Europa. Daí o ataque aos políticos, uniformemente apontados, ora como incompetentes, ora, caso brasileiro, como corruptos. Todos sabemos como começa esse cantochão, e todos sabemos como termina, aqui e em todo o mundo: na Alemanha, construiu o  nazismo; na Itália, o fascismo; a Grécia dos anos 60 terminou na ditadura dos coronéis (1967-1974). E paro por aqui, para que a listagem não fique enfadonha, com o exemplo brasileiro de 1964, lembrando a campanha da UDN contra a ‘corrupção’ do governo João Goulart, assoalhando o desfile militar. Aliás, sem qualquer originalidade, pois assim fôra construído o golpe de 24 de agosto de 1954, que culminou no suicídio de Vargas.

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Como a História não se repete, a estratégia, agora, não é mais operar mediante ditaduras impopulares (a não ser no Oriente), mas exercer o mando direto, pela associação das grandes multinacionais, que já respondem por mais de 50% do PIB mundial, e o sistema financeiro. A banca, que já governa a economia em todo o mundo, resolveu agora ela mesma dirigir os países nos quais seus interesses (leia-se a hiperacumulação financeira especulativa) possam estar ameaçados. O experimento se inicia, de forma descarada, na Grécia e na Itália.

A Europa, diz-nos o insuspeitíssimo Mário Soares, um dos responsáveis pelo desfalecimento da saudosa Revolução dos Cravos, “está entregue aos especuladores”. E, nessa Europa, alguns países (como Alemanha e França) são mais europeus que outros, como Espanha e Portugal, realmente governados pela troika FMI-BCE-Comissão Europeia, da qual a dupla Merkel-Sarkozy é simples pombo-correio.

À Espanha e a Portugal ainda é permitido escolher seus dirigentes, dentre aqueles que se revelem mais competentes e mais dóceis para aplicar as ordens da dupla. Noutros países, os políticos são responsabilizados pelos crimes da banca financeira e para governá-los são chamados os tecnocratas que engendraram a crise: são chamados pela troika e por ela indicados. Sem o menor respeito à soberania popular, e desrespeitando mesmo suas classes dominantes, que sequer foram ouvidas.

As modificações nos governos da Grécia e da Itália — esqueçamos por um momento os personagens medíocres, principalmente o burlesco Berlusconi — configuram um assalto à democracia, à soberania e à política.

O ex-primeiro ministro Papandreou foi ameaçado de crucificação por haver pretendido consultar suas vítimas, o povo grego, sobre a adoção arrocho exigido pelos tecnocratas para a ‘ajuda’ à Grécia, a qual, por seu turno e pelo mesmo motivo, esteve à beira da expulsão da Comunidade Europeia. Assim ficamos sabendo que Papandreou foi penalizado não pelos erros de sua administração desastrada, mas por haver proposto a realização de um plebiscito, um dos mais festejados institutos da democracia.

Isso irritou os democratas Merkel e Sarkozy, com os olhos voltados para seus respectivos sistemas financeiros. Um dia após receber voto de confiança do parlamento grego, Papandreou renunciou para, ainda por exigência da banca internacional, ser substituído por um tecnocrata, Lucas Papademos, egresso do MIT (EUA), que assume com a missão de compor um gabinete ‘técnico’. Fora com os políticos! Na Grécia, na Itália e em todo o mundo, o mal da política é a política. A demissão do ridículo e corrupto Berlusconi —  que deveria estar na cadeia, tantos são seus crimes —  não se deu por decisão judicial, ou, como deve ser no parlamentarismo, por consequência de um voto de desconfiança. Mas sim pelas mãos do anônimo presidente da Itália cumprindo ordens, de novo, do casal Merkel-Sarkozy, locutores da vontade da banca. Assim foi nomeado o tecnocrata Mário Monti (egresso da Universidade de Chicago), nada mais nada menos do que ex-presidente do Goldman Sachs, o famoso gigante do mercado, com o compromisso de compor o gabinete com outros tecnocratas. Aliás, a intervenção, desta feita, não se fez ‘intra-muros’. Dias antes, o mesmo Goldman Sachs emitira uma ‘nota à imprensa’, na qual, se lia: “Um governo técnico [na Itália] teria maior credibilidade na comparação com outros executivos”. Assim, sem um voto, instala-se a ‘democracia de mercado’, que, em comum a todas as ditaduras, militares ou tecnocráticas, cultiva o sentimento de desapreço ao chamamento da cidadania.

É a pós-política, ou a democracia sem voto.

É o réquiem da União Europeia, e o fim da discurseira que falava nos valores da sociedade ocidental, dentre eles destacando-se a democracia, em nome da qual foram mortos milhões de europeus, argelinos, sírios, líbios, servos, croatas, paquistaneses, indianos, vietnamitas, africanos, afegãos…

Como todo gato escaldado deve temer água fria, seria aconselhável que nossos analistas começassem a dirigir seus olhares para a cena brasileira e fixar-se na campanha unânime que a grande imprensa, não podendo atacar os fundamentos da política econômica do governo de centro-esquerda da presidente Dilma, desenvolve contra a vida política brasileira, tentando fazer com que a cidadania brasileira se convença de que o mal de nosso país não é a desigualdade social da qual ela é servidora, mas a corrupção, da qual é beneficiária (isso não é dito) a classe dominante. Neste país estranho, os que não pagam impostos (os ricos) é que reclamam do apetite da Receita, enquanto os sindicatos silenciam quando deveriam estar nas ruas exigindo taxação progressiva; os jornalões se arvoram em defensores da liberdade de expressão quando foram associados e beneficiários da última ditadura.

A direita impressa quer fazer crer que todos os políticos brasileiros são iguais, isto é, corruptos, donde não haver saída pela política. Foi assim que a direita brasileira criou, em 1964, as condições subjetivas para o golpe militar, o qual, em seu primeiro momento, teve respaldo na sociedade brasileira, principalmente junto à classe-média que naquele então influía mais do que agora na formação do que se chama opinião pública. É construindo a ideia de que o processo representativo não resolve os problemas do país, que os políticos chegam ao poder apenas para realizar suas ‘revoluções’ pessoais, e de que o mal da democracia são os partidos, que a direita constrói o desalento coletivo, tentando fazer com que as grandes massas deixem de ver na democracia a grande alternativa, e na força do voto o poder de mudanças.

A corrupção em nosso país não é maior nem menor do que em qualquer outro país, e nunca foi combatida como está sendo, e não é nem uma deformação da democracia nem da política, porque ao lado do corrupto passivo há sempre um corruptor, que é sempre empresário.

Não é irrelevante (porque, aliás, é inédito) o fato de, em seus onze primeiros meses de governo, sete de seus ministros haverem sido demitidos pela imprensa, seis deles sob acusações de corrupção, ora não comprovadas, ora silenciadas quando o objetivo é alcançado. Os jornais que trazem o pedido de demissão do ministro do Trabalho já anunciam ‘suspeitas’ sobre outro auxiliar imediato da presidente, o honradíssimo ministro Fernando Pimentel.

No caso mais recente, a Comissão de Ética da Presidência, no meu entender exorbitando de sua competência, pede, publicamente, a demissão de um ministro, esvaziando a presidente da República do direito exclusivo de nomear e demitir seus auxiliares, um dos mandatos do sistema presidencialista que vivemos.

Para evitar novos transtornos, na tal reforma ministerial que a imprensa noticia diariamente como forma de exigência, terá antes a presidente de consultar as quatro famílias que monopolizam a informação no Brasil? Além disso, deverá consultar Febraban, FIESP e CNI?

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Sua opinião

  1. Carlos Fuser disse:
    Olá! Quem controla a política européia têm nome: são os liberais (liberais-conservadores, se quiserem, ou neoliberais, como querem outros). Eles se autointitulam liberais pois defendem a liberdade dos agentes econômicos agirem livremente, configurando regras, normas e valores que favoreçam o chamado livre mercado, que é o mercado controlado pelas grandes corporações. Hiistoricamente, duas grandes correntes políticas que contrapõem a isso: os comunistas e os sociais-democratas. Os comunistas trairam suas promessas de libertação da humanidade de toda a opressão, pois sempre constituíram governos totalitários. Os sociais-democratas traíram seu compromisso de controlar o mercado em favor do desenvolvimento social. Na América latina a social-democracia, de fato, se constituiu na forma de movimentos trabalhistas e nacionalistas. Hoje, também por aqui, surgem políticas que mesclam idéias comunistas com idéias sociais-democráticas, trabalhistas, nacionalistas e um tipo de socialismo local, etnicamente orientado. No velho continente, comunistas e sociais-democratas desmoralizados, e liberais se alinhando cada vez mais próximos dos fascistas, o povo desconfia da política! Por que será? Por outro lado, chamar de pós-política a desconfiança do povo em relação à política pode ser adequado, mas compreender esse movimento apenas como manobra da direita, é estreiteza. O que há é uma falta de iniciativa, criatividade, autocrítica e compromisso ético das lideranças políticas em geral, inclusive de socialistas, sociais-democratas e comunistas: presos a ideologias estreitas ou a compromissos de ocasião, tornaram-se, na Europa, aparentemente incapazes de compreender os sentimentos e interesses do povo, que não se encaixam nas teorias pré-fabricadas e muito menos nos compromissos de ocasião. Vamos deixar a definição da expressão "pós-política" aos "pós-modernos", que não são nem liberais, nem neoliberais, nem social-democratas, nem socialistas, nem comunistas - não há um claro desdobramento político da filosofia pós -moderna, apesar dos esforços assanhados de neoliberais e velhos comunas em, respectivamente, se apropriar ou rejeitar, sempre distorcidamente as contribuições de filósofos que ultrapassam em muito os limites da política tradicional, cada vez mais compreendida como polititica, ou seja, a política da titica! Por que será?
  2. Gilson disse:
    Estranho como as opiniões são manipuladas pela grande mídia. Quando se fala em Comunismo, fala-se em ditadura, em totalitarismo de estado, e ainda acrescenta-se o terrorismo contra o povo subjugado e infeliz sob os desmandos comunistas. Pelo que me lembro vivemos no Brasil um terrorismo de estado sob uma ditadura anticomunista. O AI-5 não era uma instituição democrática. A censura, a tortura, e por aí vai. Os defensores do anticomunismo bradam a cada discussão, a lista da cartilha: Cuba, Coréia do Norte, Rússia, Venezuela (!), China. Esqueci algum? Sim do Vietnã. Por que será que o Vietnã não aparece na lista? Lá há uma ditadura comunista e tem os demais quesitos para merecer atenção igual. Seria porque o imperialismo ianque lá levou uma enorme surra, e fica politicamente incorreto fazer propaganda difamatória para não ser desacreditada pelo seu fracasso? Todos odeiam Cuba, diariamente bombardeada na grande mídia. Mas porque ninguém odeia o Vietnã? Qual o papel da grande mídia internacional, cuja sucursal brasileira é ovelha amestrada, na formação dessa “consciência” quanto ao perigo que os países comunistas representam? Excluindo o Vietnã, é claro! O que dizer do apoio dos liberais à primavera árabe? Ah, sim, nesse tema foram amestrados a dizer que foram movimentos legítimos de povos oprimidos por ditadores do mal. Mas porque só se tornaram palco de lutas sangrentas países cujas ditaduras não eram apoiadas pela ONU, FMI, EUA e alguns imperialistas Europeus? Só para citar um exemplo, a democracia da Arábia Saudita deve deixar os críticos cordeiros-sem-cérebro da Democracia Brasileira cheios de inveja. Não houve tragédia porque os EUA dizem que lá está tudo bem. Então, salve o capitalismo ianque e viva a democracia da Arábia Saudita! “Mas o Irã não, o tio Sam me mandou dizer que o Irã é do mal”. O único país que lançou bomba atômica contra civis determina os que são autorizados ou não a ter as suas. Algum questionamento? E as ditaduras não comunistas da África? Quanto sangue derramado, sem que haja qualquer reação imperialista em defesa dos povos oprimidos! Lá pode? Deve poder, porque não nada consta na cartilha. Quanta hipocrisia, covardia, omissão, submissão... “A África não está no contexto financeiramente importante, então nada a fazer”, diriam as madames caucasianas no chá das cinco. Esse é o liberalismo pregado pela grande mídia, com eco do PiG por aqui, formando “opiniões dos lambe botas”. A “imprensa” transparente em defender seus interesses obscuros. Senhor Roberto Amaral, o texto é instigante, provocativo, perturbador. Excelente. É um alerta à prática recorrente de associar qualquer governo que não seja de extrema direita à corrupção, à desmoralização das instituições, pavimentando o caminho para um “governo de pulso forte”. Pode despertar a ira de reacionários “nada-livre-pensadores”, mas é brilhante. Nos faz pensar, e isso, para alguns, dói.
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