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Política

Pequenas utopias

A tragédia do jacarandá

por Milton Nogueira — publicado 15/11/2010 17h33, última modificação 15/11/2010 17h33
Uma das mais lindas árvores brasileiras, quase sumiu das florestas. Assim, também, inúmeras espécies de plantas, mamíferos, insetos, peixes e pássaros estão sob ameaça de extinção

Co-autor: Alexandre Gontijo*
O jacarandá, uma das mais lindas árvores brasileiras, quase sumiu das florestas. Assim, também, inúmeras espécies de plantas, mamíferos, insetos, peixes e pássaros estão sob ameaça de extinção. Mas, por que somem? Porque elas, como patrimônio comum da humanidade, não têm dono e não são cuidadas por ninguém. É a tragédia do bem comum.

Que tal convidarmos os brasileiros a tornarem-se padrinhos ou madrinhas de uma espécie de sua escolha? O brasileiro tem muito carinho com a figura do padrinho ou madrinha, no casamento e no batismo; quem não se encanta com a madrinha da bateria da escola de samba?

Da mesma forma, poderíamos convidar pessoas a tornarem-se padrinhos ou madrinhas de cada espécie vegetal ou animal, para dar-lhes um olhar amigo e carinhoso. Você, leitor, apadrinharia a arara-azul. Mas sua irmã seria a madrinha do camarão-pitu. Com 185 milhões de habitantes, o Brasil poderia mobilizar um milhão de padrinhos de um milhão de espécies. Cada variedade de pintassilgo, embaúba, onça ou borboleta teria alguém que a olhe, denuncie ameaças ou faça ações para protegê-la.

Mas, atenção! Cada espécie faz parte de uma cadeia de vida em que as superiores se alimentam de outras, que comem outras, até chegar aos menores seres vivos. A onça existe porque outras centenas de espécies também estão na floresta. Assim, se você escolher a arara-azul, deveria também ser padrinho ou madrinha de tudo que ela come, insetos e frutas. Juntos, os padrinhos poderiam proteger todas as espécies vivas do Brasil.

“Nomear padrinho seria bom para ajudar os brasileiros a formarem redes de relações com as diferentes formas de vida. O cidadão que se torna padrinho de uma espécie que o cativa vai também cuidar do bem-estar de seu afilhado e conhecer melhor a teia de relações que une todos os seres vivos, inclusive ele mesmo, numa mesma ‘família’ ecossistêmica”. É Gontijo quem fala.

A Conferência da ONU sobre a Biodiversidade, em novembro de 2010, Nagoya, adotou um acordo para proteger a biodiversidade na Terra. O Brasil, país megadiverso, será um dos principais beneficiários do Protocolo de Nagoya, que dará proteção às espécies de plantas e animais para uso em alimentos, remédios, perfumes, tintas, fibras e todo produto que use a natureza como fonte de matéria-prima. Com ele, as empresas pagarão às populações tradicionais pelos seus saberes sobre espécies de plantas e animais.
De minha parte, quero ser padrinho do jacarandá. E você, caro leitor, de que animal ou planta gostaria de ser padrinho ou madrinha?
*Alexandre Gontijo, mestre em Biodiversidade, Universidade Federal de Ouro Preto.

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