Você está aqui: Página Inicial / Política / A típica fraude exemplar

Política

Crise do 'mensalão'

A típica fraude exemplar

por Redação Carta Capital — publicado 24/09/2012 20h15, última modificação 24/09/2012 20h15
Relembre como o PL de Valdemar Costa Neto, hoje PR, negociou apoio ao então candidato do PT na campanha de 2002
montagem1

Valdemar. Conspiração ou mero sensacionalismo?

Em agosto de 2005, CartaCapital relembrou como foram feitas as negociações que selaram o acordo entre o PT e o PL, hoje PR, para a campanha presidencial de 2002. O escândalo do chamado "mensalão" acabava de estourar na mídia e, de repente, todos os veículos pareciam dispostos a "revelar" novidades sobre o caso.

Foi o que fez a revista Época ao publicar informações divulgadas três anos antes por CartaCapital. A reportagem, de 20 de outubro de 2002, mostrava o que o então Partido Liberal, em dificuldades para financiar as campanhas de seus candidatos pelos estados, exigia, como contrapartida ao apoio a Luiz Inácio Lula da Lula, cerca de 10 milhões de reais. O fim da história, como se sabe, foi a indicação do vice-presidente da chapa, o empresário José Alencar. Val­de­mar Cos­ta Neto, hoje réu do mensalão, era personagem central da negociação.Nesta terça-feira 24, ele foi condenado pelo revisor do processo no Supremo tribunal Federal, ministro Ricardo Lewandowski, por corrupção e lavagem de dinheiro.

Relembre a história revelada por CartaCapital muito antes de o escândalo vir à tona:

 

Qua­se três anos atrás, mui­to an­tes de a re­vis­ta Épo­ca pu­bli­car a “re­ve­la­ção” do ex-de­pu­ta­do fe­de­ral Val­de­mar Cos­ta Neto como no­tí­cia ex­clu­si­va, Car­ta­Ca­pi­tal mos­tra­va os mes­mos bas­ti­do­res do acor­do en­tre o PT e o PL. Na edi­ção 213, de 30 de ou­tu­bro de 2002, re­por­ta­gem de capa de Bob Fer­nan­des con­ta­va as an­dan­ças da cam­pa­nha do en­tão can­di­da­to à Pre­si­dên­cia Luiz Iná­cio Lula da Sil­va.

O tex­to re­la­ta que na noi­te de 19 de ju­nho de 2002, vés­pe­ra do pra­zo fi­nal para o re­gis­tro das can­di­da­tu­ras no TSE, reu­ni­ram-se no apar­ta­men­to do de­pu­ta­do Pau­lo Ro­cha (PT-PA), em Bra­sí­lia, Lula, José Dir­ceu, José Alen­car, Gil­ber­to Car­va­lho, o te­sou­rei­ro do PT, De­lú­bio Soa­res, e o pre­si­den­te do PL, Cos­ta Neto. Este úl­ti­mo ar­gu­men­ta­va que, sem as fon­tes tra­di­cio­nais de ar­re­ca­da­ção de re­cur­sos, o par­ti­do não te­ria con­di­ções de ban­car as cam­pa­nhas dos can­di­da­tos nos es­ta­dos. Era a se­nha para ne­go­ciar com o PT uma con­tra­par­ti­da para o apoio a Lula.
Se­gun­do a re­por­ta­gem de Car­ta­Ca­pi­tal, os nú­me­ros da ne­go­cia­ção gi­ra­vam em tor­no de R$ 10 mi­lhões. Em mo­men­to al­gum – tan­to em Car­ta­Ca­pi­tal quan­to em Épo­ca – se diz que na­que­la oca­sião Lula sa­bia que a fon­te de re­cur­sos para coop­tar o PL se­ria ile­gal.

Dian­te da di­fi­cul­da­de em fe­char o acor­do com o PL, Lula se ir­ri­ta e pede a José Alen­car: “Essa é uma con­ver­sa en­tre par­ti­dos, se eles pe­di­rem pra você, não dê nada”.

En­tre mui­tos te­le­fo­ne­mas, a cos­tu­ra do acor­do pas­sou por Belo Ho­ri­zon­te, com Pa­trus Ana­nias, que che­gou a ser co­gi­ta­do como pos­sí­vel vice de Lula caso o apoio do PL não vin­gas­se. Ana­nias rea­giu com es­pan­to, qua­se com re­pro­va­ção: “Cês tão doi­do”.

No meio do pe­di­do de aju­da a Ana­nias, a pro­pos­ta vol­tou a ser dis­cu­ti­da em Bra­sí­lia por Dir­ceu e De­lú­bio. As chan­ces de o acor­do ser fe­cha­do pa­re­ciam ser cada vez me­no­res quan­do Cos­ta Neto cha­mou Dir­ceu ao quar­to onde se dava a ne­go­cia­ção (lá aguar­da­va De­lú­bio) e, acom­pa­nha­do de José Alen­car, teve a con­fir­ma­ção de que PT e PL es­ta­riam jun­tos nas elei­ções. “Tudo bem, to­pa­ram”, dis­se Dir­ceu. “Fe­chou”, con­fir­mou De­lú­bio.

Os mes­mos diá­lo­gos fo­ram re­la­ta­dos por Cos­ta Neto à re­vis­ta Épo­ca. Não há coin­ci­dên­cias nes­ta his­tó­ria. Már­cia Dias, as­ses­so­ra de im­pren­sa do Di­re­tó­rio Re­gio­nal do Par­ti­do Li­be­ral de São Pau­lo, es­te­ve na sex­ta-fei­ra 5 na sede da Edi­to­ra Con­fian­ça, que pu­bli­ca Car­ta­Ca­pi­tal. O mo­ti­vo da vi­si­ta foi a aqui­si­ção de dois exem­pla­res da edi­ção 213 da re­vis­ta. Com pro­ble­mas de me­mó­ria, te­ria Cos­ta Neto re­cor­ri­do a Car­ta­Ca­pi­tal para me­lhor con­tar a his­tó­ria a Épo­ca? É o que pa­re­ce.

Ma­ria Chris­ti­na Men­des Cal­dei­ra, ex-mu­lher de Cos­ta Neto, ana­li­sa a coin­ci­dên­cia en­tre o con­teú­do da re­por­ta­gem de Car­ta­Ca­pi­tal de 2002 e de Épo­ca des­ta se­ma­na: “Ele ado­ra re­quen­tar no­tí­cia”. Ma­ria Chris­ti­na está em pé-de-guer­ra com o ex-ma­ri­do e apro­vei­ta para fa­lar da re­la­ção do pre­si­den­te do PL, que re­cen­te­men­te re­nun­ciou ao man­da­to de de­pu­ta­do fe­de­ral dian­te da amea­ça de cas­sa­ção. “Se o Lula pu­des­se, fa­ria como eu e tam­bém se di­vor­cia­ria do Val­de­mar”, diz. Pro­cu­ra­do na sex­ta-fei­ra 12, o ex-de­pu­ta­do não res­pon­deu aos re­ca­dos dei­xa­dos por Car­ta­Ca­pi­tal.

Quando a coincidência não existe

■ Apartamento do deputado Paulo Rocha (PT-PA). Lá estão Lula, José Dirceu, José Alencar, Gilberto Carvalho e o presidente do PL, deputado Valdemar Costa Neto. Na conversa, uma presenca significativa: Delúbio Soares, tesoureiro nacional do PT. Motivo: para fazer a aliança
com o PT, o PL quer uma ajuda.

■ Os números giram em torno dos R$ 10 milhões. O acordo emperra. Lula se irrita, pede a José Alencar: - Essa é uma conversa entre partidos, se eles pedirem pra você, não dê nada.

■ O acordo, parecia, não seria fechado. José Dirceu chegou a deixar o quarto onde se dava a reunião para comentar: – Acabou, não tem jeito.

■ Lula: Olha, Patrus, estamos em Brasília e a coisa com o PL hoje ou vai ou racha. Você se prepare porque, se não der certo, seu nome vai ser anunciado como vice hoje mesmo.

■ José Dirceu e Delúbio voltaram com a notícia que, sabe-se hoje, mudaria os rumos da sucessão presidencial: – Tudo bem, toparam – informou Dirceu.
– Fechou – desabafou Delúbio.
CartaCapital, 30 de outubro de 2002

■ Valdemar – Tudo começou nas negociações para fechar o apoio a Lula em 2002, com José Alencar, do PL, como vice.

■ Valdemar – Foi uma discussão muito grande. No dia 18 de junho de 2002, tive uma reunião com o Dirceu. Ele disse que não tinha jeito de fazer o aporte de dinheiro.

■ A reunião foi no apartamento do deputado Paulo  Rocha (PT). Estavam lá o Lula, o José Alencar, o Dirceu e o Delúbio. O Lula chegou para mim e disse: “Quer dizer então que você é o nosso problema?”. “Não posso matar o nosso pessoal”, respondi.

■ Valdemar – Depois o Lula até falou para o Zé Alencar: “Vamos sair porque esta conversa é entre partidos, não entre candidatos”. Daí o Delúbio chegou perto de mim e disse: “Vamos  conversar”.

■ Valdemar – O Lula mandou ligar para o (hoje ministro) Patrus Ananias e avisou que, se a conversa não desse certo, ele seria o candidato a vice na chapa. Uma hora, o Dirceu chegou a dizer “acabou”. O Zé Alencar veio junto. Falei: “Vamos acertar por R$ 10 milhões”. Voltamos para a sala e avisamos: “Está fechado”.
Época, 15 de agosto de 2005