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Política

Comissão da Verdade

A razão do pessimismo

por Sergio Lirio publicado 28/09/2011 11h19, última modificação 01/10/2011 18h55
O medo de recuperar a memória da ditadura talvez não seja dos militares, mas dos civis que sustentaram o golpe

De Nilmário Miranda, ex-secretário nacional de Direitos Humanos, a Marco Antônio Barbosa, advogado da revista e um dos principais responsáveis pela recuperação da memória dos tempos sombrios da ditadura, recebi vários telefonemas com reparos ao texto publicado na última edição de CartaCapital sob o título “A Comissão da Meia-Verdade” (). Todos reclamam do tom pessimista da nota e dizem que decretamos antecipadamente o fracasso da comissão.

São observações válidas, tanto que na edição que chegará às bancas na sexta-feira 30 (em São Paulo) daremos a Miranda um espaço para expor suas esperanças em relação ao trabalho da comissão. Mas mantemos nosso tom pessimista. Não bastasse o fato de, por obra do Supremo Tribunal, a possibilidade de levar torturadores e mandantes aos tribunais seja quase nula, o projeto não define nem um orçamento mínimo que permita à comissão trabalhar com autonomia e agilidade. Tanto Miranda quanto Barbosa afirmam que, aprovado o projeto, será necessário encaminhar a Dilma Rousseff um pedido de definição e liberação de verbas. Os dois acreditam ainda que o pequeno grupo de sete integrantes será compensado pela participação de especialistas das universidades e por parentes das vítimas. No Uruguai, apoio semelhante possibilitou que, em determinado momento, mais de 200 pessoas trabalhassem na reconstrução dos acontecimentos.

É, porém, desolador constatar as inúmeras concessões feitas para que a comissão saia do papel antes do próximo calendário eleitoral, em 2012. E é triste ouvir argumentos que recorrem à “correlação de forças no poder” ou às “circunstâncias” ou até mesmo à “governabilidade”. Historicamente, a conciliação sempre serviu à minoria que manda no País.

O poder civil

Talvez o filósofo Vladimir Safatle, professor da USP, tenha razão. A dificuldade em recuperar a memória da ditadura talvez não seja tanto pelo suposto medo da reação dos militares. Tem mais a ver com os civis que sustentaram o golpe, patrocinaram as torturas e assassinatos e ainda estão por aí, no controle da economia e da política brasileiras.

Aviso: desocupados, fardados ou não, com ou sem pijamas, que salivem para postar comentários ridículos sobre a “verdade” da ditadura ou os “crimes dos terroristas de esquerda” ou como nos livramos de “uma ditadura cubana” podem desistir. Serão barrados sumariamente. Sugiro que pousem em outra vitrine de padaria.

Bandidos de toga

César Peluso é um excepcional ministro do Supremo. Difícil entender o motivo de ele ter se unido aos ataques corporativistas contra a atuação do Conselho Nacional de Justiça. Não há nenhum exagero na afirmação da corregedora do CNJ, Eliana Calmon. A Justiça, não é de hoje, está “com gravíssimos problemas de infiltração de bandidos escondidos atrás da toga”.

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