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Política

A polêmica como pornografia

por Cláudio Gonçalves Couto* — publicado 20/11/2014 10h46, última modificação 21/11/2014 10h59
Alguns analistas políticos têm estilo semelhante à pornografia. Descrevem a política como forma de prostituição
Marcelo Casal Jr /Agência Brasil
Manifestantes sobem no teto do Congresso Nacional

Os analistas pornôs fazem sucesso porque este é um substancioso filão de mercado. Sempre haverá um público necessitado dessa fonte projetiva de prazer – seja ele sexual ou de ódio político

Verificando em nossos mais prestigiosos dicionários o sentido do termo “pornografia”, encontramos uma certa variação de definições. Uma, comum a quase todos, é a de “estudo da prostituição”. Nesse sentido, a pornografia seria se não uma ciência, um campo de saber como qualquer outro, no âmbito das humanidades.

De forma mais específica, o Aurélio a define como “tudo o que se relaciona à devassidão sexual; obscenidade, licenciosidade; indecência”. O Michaelis fala em “arte ou literatura obscena”, bem como do “caráter obsceno de uma publicação”. Já o Houaiss afirma se tratar de “qualquer coisa feita com o intuito de ser pornográfico, de explorar o sexo tratado de maneira chula, como atrativo”. Por fim, talvez as mais interessantes definições venham do Aulete: “Texto, foto, desenho, filme etc. que, com o objetivo único da excitação ou satisfação sexual das pessoas, apresenta ou descreve pessoas nuas ou copulando”, ou ainda “característica ou condição do que, com o propósito exclusivo de excitação”.

Se nessas definições substituirmos a palavra “sexo” e suas derivações por “política”, teremos uma descrição acurada de um certo tipo de publicística que ganhou público e autores de forma notável nos últimos anos. São pretensos analistas do cenário político cujo estilo e propósito em muito se assemelham à pornografia convencional. Descrevem a política como sendo uma forma de prostituição, relacionando-a ao devasso, ao obsceno, ao licencioso, ao indecente. A ela se referem de forma chula e grotesca, despertando assim os instintos mais primitivos de um público ávido pelo politicamente incorreto e pelo grosseiro. Por isso mesmo, trata-se de uma publicística cujo condão é excitar a audiência por meio dessa escatologia política, causando-lhe um prazer baseado no ódio.

Como atores pornográficos, os publicistas pornôs vivem uma relação confusa com seus personagens – o que lhes diferencia dos atores e dos publicistas normais, respectivamente. Os atores normais, por mais que encarnem seu personagem quando em cena, dele se distinguem claramente; já o ator pornô não tem como se separar por completo de seu personagem, já que o encarna de uma forma muito mais concreta – carnal, no sentido literal do termo. O publicista pornô cria um personagem do qual se torna indissociável, de modo que se torna impossível distinguir se quem fala ou escreve é, afinal, o publicista ou seu personagem. Da mesma maneira, no ato sexual encenado não é possível distinguir o ator pornô de seu personagem – afinal, um e outro efetivamente o praticam.

Por essa razão, debater com tais publicistas é na melhor das hipóteses uma perda de tempo e, na pior delas, um brutal equívoco. No primeiro caso, porque se debate com personagens, em vez de interlocutores reais; no segundo, porque a polêmica com simulacros argumentativos é uma disputa desleal, da qual sempre se sai perdendo. Seria como um ator normal fazer uma pequena ponta num filme pornô. Mesmo que não participe das conjunções carnais, ficará inescapavelmente associado a elas, danificando sua reputação de ator sério.

Aliás, a perda reputacional gera um problema grave aos publicistas pornôs que um dia já tenham sido publicistas normais. Como os atores pornôs que um dia foram atores normais, eles ingressam num caminho sem volta. Muito dificilmente conseguirão se descolar dos personagens aos quais se fundiram carnalmente, de modo a poder novamente atuar da forma convencional. O estigma pornográfico que se autoimpingiram provavelmente lhes acompanhará para sempre.

A razão do sucesso junto ao público também é similar nas duas espécies de pornografia. A encenação – embora farsesca – oferece à audiência uma performance que ela própria não tem a oportunidade de desempenhar. Assim, o prazer não vem da própria atuação, mas daquela que é encenada. O outro faz o que seus espectadores gostariam de estar fazendo, mas não conseguem por falta de oportunidade: razões físicas, intelectuais, emocionais ou simplesmente de acesso aos meios – sejam eles parceiros, momentos, lugares, coragem –, ou espaço para publicação. Torna-se, assim, um substancioso filão de mercado, pois sempre haverá um público necessitado dessa fonte projetiva de prazer – seja ele sexual ou de ódio político.

Os pornógrafos também não têm todos os mesmos atributos. Assim como os atores, alguns publicistas são mais bem dotados do que os outros: argumentam melhor, escrevem melhor, são mais eruditos, mais eloquentes ou, simplesmente, fingem melhor. No caso dos publicistas mais toscos, o espectador sente satisfação porque ele mesmo poderia ter formulado as assertivas do pornógrafo, o que gera uma identificação prazerosa. Já quando o publicista tem um desempenho intelectualmente superior (verdadeiramente ou não), ele se torna um alento para seus espectadores, pois reforça neles o prazer projetivo de performances que requerem atributos inacessíveis para o espectador ordinário – que as assiste embevecido.

No caso dos publicistas digitais, não raro o embevecimento se expressa através de comentários postados nas páginas da internet, demonstrando aprovação, admiração ou mesmo – paradoxalmente – rechaço. Reside aí um típico elemento constitutivo dessa publicística pornô na sua versão digital: os comentários de aduladores e detratores. Eles compõem o cenário junto com o texto do publicista, assim como os gritos da torcida fazem parte do espetáculo esportivo e os aplausos ambientam a apresentação musical. Mesmo quando não se trata apenas de adulação, mas de apupos, isso não deixa de ser verdadeiro.

Os comentários críticos que não são censurados pelos polemistas cumprem sua função: primeiro, mostram-se claramente minoritários, reforçando a sensação de uma relativa unanimidade em torno do publicista; segundo, fazem a escada para que os admiradores reforcem o coro da adulação. Ademais, a possibilidade dos comentários dá aos espectadores a sensação de que eles podem participar efetivamente do espetáculo. Dessa forma, a mera encenação converte-se num espetáculo interativo, aumentando o prazer, reforçando a espiral de ódio e – consequentemente – aumentando mais ainda o prazer. Como naquelas peças de teatro em que os atores interagem com o público, se os encenadores não colocam certos limites à audiência (por exemplo, recriminando-a por seus excessos), tornam-se cúmplices dela. Mesmo porque, alimentaram propositalmente suas reações.

Por fim, para além de um fenômeno relevante da cultura midiática, a publicística pornográfica é um grande negócio – da mesma forma que sua correspondente cinematográfica. Nesta última há os produtores e atores independentes, mas é mais comum que eles se agrupem sob a guarda de alguma organização maior. O mesmo fazem muitos dos publicistas pornôs, com suas colunas e blogs de publicações dedicadas exclusiva ou predominantemente ao gênero. Antigamente era comum chamá-las de revistinhas de sacanagem. Talvez devamos retomar a expressão.

* Cláudio Gonçalves Couto é cientista político, professor adjunto do Departamento de Gestão Pública da Fundação Getúlio Vargas (EAESP) e pesquisador do CNPq