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Opinião

A perda de relevância do PT

por Luis Nassif publicado 16/12/2014 06h20
O PT envelheceu, perdeu o viço dos movimentos sociais, a vitalidade intelectual, a dimensão pública. E, junto à juventude, a Lava Jato terá um poder corrosivo mil vezes maior do que a AP 470
Richard Casas/PT
Rui Falcão

O isolamento do partido tem muito a ver com a personalidade de Rui Falcão

Lula tem dois enormes desafios pela frente. O mais distante são as eleições de 2018; o mais premente, é dar relevância ao PT.

A proposta de criação de um gabinete de crise ― composto, entre outros, por Gilberto Carvalho, Marco Aurélio Garcia, Luiz Dulci e Humberto Costa ― não se refere propriamente à crise política atual, mas ao próprio partido.

Nos últimos anos, o PT tornou-se um partido insignificante. Tem apenas um porta-voz, o presidente Rui Falcão, que em geral não se pronuncia em momentos cruciais. Intelectuais, personalidades públicas, juristas simpatizantes surgem em seu apoio quando a democracia é ameaçada, mas há muito deixaram de ter voz ativa no partido.

Esse isolamento tem muito a ver com a personalidade de Rui Falcão. Repete-se, em escala nacional, o mesmo que ocorreu com o Sindicato dos Jornalistas nos anos 80.

O Sindicato entrou na década com enorme peso devido à gestão Audálio Dantas e mesmo a de David de Moraes, que presidiu-o na infausta greve de 1979.

Na sucessão de David, montou-se uma frente composta por membros do recém-criado Partido dos Trabalhadores com a esquerda independente contra o Partidão. A frente elegeu Gabriel Romeiro e a chapa contava com diversos jornalistas de peso, mas não alinhados.

Rui era a liderança de fato por trás de Romeiro. E, durante todo o primeiro ano, seu trabalho foi o de ocupar todos os espaços do sindicato, focado muito mais em reduzir o espaço dos aliados do que dos adversários.

Ao final de um ano, todos os independentes ― que nunca haviam feito da política sua missão principal ― afastaram-se. Ficaram Rui e os chamados "tarefeiros" ― a jovem rapaziada pau para toda obra. Com a saída dos independentes, o Sindicato perdeu expressão e tornou-se desinteressante para Rui que, logo, depois de tê-lo utilizado como escada, se afastou.

Nunca mais o Sindicato foi sombra da expressão que havia adquirido na década anterior.

No PT, repetiu-se essa estranha autofagia. Primeiro, Rui tratou de viajar o País tentando consolidar uma estrutura de influência em cima da herança de José Dirceu ― com quem rompeu.

Quando sentiu o terreno consolidado, fechou-se, não deu espaço para mais ninguém e tratou de ocupar todos os espaços internos, deixando o partido do tamanho do seu presidente. As personalidades ligadas ao partido foram se afastando gradativamente. Grandes nomes já haviam saído rumo ao governo.

Aliás, essa autofagia ficou nítida nas disputas com Fernando Pimentel durante a campanha de 2010.

O PT assistiu inerte à eclosão das manifestações de junho de 2013. Perdeu o bonde dos novos movimentos, pois poderiam gerar novas lideranças, colocando em risco o predomínio dos jurássicos. Não se apropriou do intenso trabalho intelectual da Fundação Perseu Abramo, pois dali poderiam emergir novos rumos e, com eles, novas lideranças.

Agora, segundo notícias de ontem, a primeira missão do tal gabinete de crise será correr atrás da nova geração de movimentos que emergiu das manifestações de 2013.

Vai chegar tarde. O PT envelheceu, perdeu o viço dos movimentos sociais, a vitalidade intelectual, a dimensão pública. E, especialmente junto à juventude, a Lava Jato terá um poder corrosivo mil vezes maior do que a AP 470.

Fica o País órfão de partidos, entre o PT, que perdeu a dimensão do nacional, e o PSDB, que tornou-se um partido golpista, com suas principais lideranças se permitindo ser coadjuvantes de revoltados online. E sem Marina, que continua chorando pelos cantos como uma hárpia autocompadecida.