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Política

Análise

A oposição e a imprensa queriam o sangue de Dilma

por Mauricio Dias publicado 02/10/2010 18h20, última modificação 02/10/2010 18h30
Debates no Brasil, com a cultura do eleitor, com a diversidade de competidores, só ficam interessantes quando candidatos se lançam uns sobre a jugular de outros. Por Mauricio Dias

Os debates eleitorais em países como o Brasil, notadamente nas campanhas presidenciais onde há mais de dois partidos com efetiva participação política são, geralmente, sonolentos. A contenção provocada pelas regras draconianas normalmente os tornam insuportáveis.

O último confronto dos quatros candidatos frustrou a expectativa da imprensa que vocaliza os interesses da oposição e vice-versa, foi tachado de morno pelas piores razões. A imprensa queria “cenas de sangue” que, naturalmente, só poderiam ocorrer a partir dos fatos que a própria imprensa manipulou e transformou em factóides. Ou seja, o caso da quebra de sigilos fiscais, que sempre aconteceram nos computadores da Receita Federal e, principalmente, do episódio de suposto lobby na Casa Civil que provocou a saída da ministra Erenice Guerra, em decisão acertada do governo.

A imprensa queria mesmo era ver o sangue de Dilma jorrar.

Debates no Brasil, com a cultura do eleitor brasileiro, com a diversidade de competidores, só ficam interessantes quando os candidatos se lançam uns sobre a jugular de outros.

A televisão é um veículo dedicado a nos apanhar pelas emoções e, eventualmente, pelos mais baixos instintos. Esse meio de comunicação convive muito mal com a mensagem racional, a ponderação, o bom senso.

Há uma história que me foi contada pelo economista Roberto Campos, um homem tão conservador quanto perspicaz, que ilustra isso.

Nos primórdios da política na televisão, entre o fim dos anos 1950 e o começo dos 60, Campos enfrentou o ex-governador Carlos Lacerda na televisão. Não havia regras se interpondo entre os debatedores até porque não era um debate de campanha eleitoral.Efetivamente foi um confronto de idéias. Tenso, forte, mas sem sangue derramado.

No dia seguinte caminhando pelas ruas de Ipanema, na Zona do Rio, onde morava, Roberto Campos viu um cidadão forte caminhar resoluto na direção dele. Pensou “Vou apanhar”.

O homem o segurou pela cintura, o ergueu do chão e comemorou com o que julgou ser o sangue de Lacerda que Campos fez jorrar no debate: “Muito bem. Cagou Latim nele.”

Roberto Campos (1917/2001), com vício de ex-seminarista, tinha o hábito de citar célebres frases latinas.

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