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A nova rotina do poder

por Sergio Lirio publicado 12/01/2011 15h08, última modificação 12/01/2011 17h17
PMDB, os mercados, o general e os compromissos de campanha. A presidenta mandou instalar um relógio de parede no gabinete, para controlar a pontualidade dos ministros. Por Sergio Lirio
A nova rotina do poder

O PMDB, os mercados, o general e os compromissos de campanha. A presidenta mandou instalar um relógio de parede no gabinete, para controlar a pontualidade dos ministros. Por Sergio Lirio. Foto: Roberto Stuckert Filho

PMDB, os mercados, o general e os compromissos de campanha

O fotógrafo Roberto Stuckert Filho não terá a mesma sorte do irmão Ricardo. Este acompanhou Lula por oito anos e produziu centenas de imagens memoráveis de um presidente comunicativo e um animal político em essência. Se a primeira semana de Dilma Rousseff no poder for um parâmetro dos próximos quatro anos, Roberto realizará uma produção bem menos profícua. Não que a presidenta seja totalmente refratária aos holofotes, mas as suas primeiras cem horas no poder reapresentam ao público seu velho estilo: uma dirigente focada, organizada e amante da pontualidade. Um ministro dos tempos de Lula mantido no cargo e que despachou com Dilma duas vezes na primeira semana de governo assim resumiu seu espírito: “Se o Lula disse que precisaria desencarnar da Presidência, posso garantir, a Dilma já a encarnou. Totalmente”.
Dilma tem chegado ao Planalto por volta das 9 da manhã. Antes, na Granja do Torto, onde vive provisoriamente com a mãe, Dilma Jane, enquanto Lula desocupa o Palácio da Alvorada, caminha e lê os jornais. Entre as 9 e as 10 da manhã despacha com os assessores mais próximos: Giles de Azevedo, seu chefe de gabinete, e os ministros Helena Chagas, da Secretaria da Comunicação, e Antonio Palocci, da Casa Civil. É a hora de discutir o noticiário e preparar a agenda do dia.

E haja assunto. Em cinco dias, Dilma teve de lidar com a insaciável fome do PMDB, em disputa por espaço com o PT, e o conhecido jogo dos mercados financeiros, disposto a testar a credibilidade da equipe econômica logo nas primeiras horas. Nada tirou seu bom humor até agora, exceto as declarações do general José Elito Siqueira, do Gabinete de Segurança Institucional (reportagem à pág. 34). Em sua posse, instigado por um repórter da Folha de S.Paulo, disse que o Brasil não precisaria se envergonhar por ainda existirem desaparecidos políticos da época da ditadura. Em consequência, entra para a história como o primeiro ministro a receber uma reprimenda da presidenta. Siqueira pediu desculpas e disse ter sido mal interpretado.

A presidenta optou, na primeira semana, por almoçar no Planalto, mas não fez do momento um horário de trabalho. Não há uma dieta especial – ela tem tentado compensar os quilos ganhos durante a campanha com as caminhadas matutinas. Além de Palocci e Helena Chagas, os ministros Guido Mantega, da Fazenda, e Míriam Belchior, do Planejamento, são figuras constantes em seu gabinete. Sua jornada de trabalho normalmente se estende até as 9 da noite. Uma de suas obsessões é a pontualidade, tanto que ordenou a instalação de um relógio de parede no gabinete, com fundo branco e números pretos para facilitar a visualização e controlar o horário das reuniões.

Ela fez questão de acompanhar as negociações com os peemedebistas, mas manteve certo distanciamento. Quem assumiu a linha de frente foram Palocci, conselheiro-mor, e Luiz Sérgio Nóbrega, das Relações Institucionais. Para conter os ímpetos, decidiu-se que a maior parte dos cargos de segundo escalão só será negociada após a eleição dos presidentes da Câmara e do Senado, em fevereiro. O PT quer eleger Marco Maia, do Rio Grande do Sul, para a presidência da Câmara. O PMDB pretende manter José Sarney à frente do Senado. Dilma fez questão, porém, de nomear Wagner Pinheiro, ex-presidente do fundo de pensão Petros, para a presidência dos Correios (reportagem à pág. 38), sinal de que pretende ser pouco tolerante com desvios éticos. Os Correios foram o principal foco de denúncias de corrupção no governo Lula e eram controlados pelo PMDB.

Na política externa, Dilma preferiu seguir os passos de Lula. A presidente decidiu não comparecer ao seminário de Davos, na Suíca, que todo janeiro invernal reúne líderes políticos e empresariais do hemisfério norte. Sua primeira viagem internacional será à Argentina de Cristina Kirchner, para reforçar os laços do Mercosul.
A economia foi um assunto recorrente na primeira semana. A inflação medida pelo IPCA em 2010, estimada em 5,9%, ficará dentro dos limites da meta do Banco Central, mas acima do número projetado pelo governo. O dólar também continua a derreter. Nos encontros com Mantega e Míriam Belchior, Dilma pediu urgência na definição dos cortes orçamentários, parte do esforço para conter a demanda pública e desacelerar o ritmo de crescimento do Produto Interno Bruto. Na quinta-feira 6, após reunião ministerial, o governo anunciou o contigenciamento de gastos em janeiro. Apenas 2,9 bilhões de reais poderão ser desembolsados pela máquina pública – o orçamento anual previsto é de 2 trilhões. Dificilmente, porém, uma alta da taxa básica de juros (hoje em 10,75% ao ano) será evitada. É uma espécie de pedágio que governos recém-empossados no Brasil costumam pagar aos mercados, embora haja, no momento, um verdadeiro sobreaquecimento da economia. A próxima reunião do Conselho de Política Monetária está marcada para 18 e 19 de janeiro.

Uma nova alta dos juros vai pressionar ainda mais o câmbio. Talvez por esse motivo, Alexandre Tombini, presidente do BC, tenha anunciado na mesma quinta 6 limites para as apostas no dólar. De agora em diante, os bancos terão de recolher, sob a forma de compulsório, 60% de suas posições em moeda estrangeira que excederem o valor de 3 bilhões de dólares ou seu patrimônio de referência. É uma forma de evitar que as instituições financeiras tomem dinheiro emprestado no exterior para apostar contra o real. “Foram medidas prudenciais para não provocar distúrbios”, disse Tombini, para quem o mercado cambial brasileiro está superdimensionado. Sobre a redução da meta de inflação a partir de 2012, o presidente do BC foi esquivo: “É uma discussão para o futuro”. Professor da PUC de São Paulo, o economista Antonio Correa de Lacerda contextualiza: “Por agora, a medida foi boa, mas no médio e longo prazo será necessária a diminuição da taxa de juros”.

Na quarta 5,  Mantega havia tentado, sem melhores resultados, conter a valorização da moeda brasileira ao reafirmar os compromissos do novo governo com a austeridade fiscal. Dois dias antes, durante sua posse, Míriam Belchior havia feito o mesmo. “Como componente da equipe econômica, reitero as palavras da nossa presidenta de manter a estabilidade econômica como valor absoluto”, afirmou Belchior. Apesar do compromisso, a ministra não deixou de alfinetar a ortodoxia: “Acredito que os gastos de custeio não podem ser simplesmente satanizados. Não abriremos mão de prestar serviços públicos à população. Tenho a convicção, no entanto, de que isso pode ser feito com maior eficiência”. Alvo principal da turma que defende um forte arrocho nas contas, os gastos de custeio incluem, por exemplo, a manutenção de hospitais e escolas e o pagamento do Bolsa Família.

O corte nas despesas, a pedido de Dilma, deverá ser realizado de forma a não atrapalhar a principal promessa de campanha, a erradicação da miséria absoluta. O tema tem, aliás, ocupado a maior parte da agenda da presidenta, que quer definir, o mais breve possível, as diretrizes da política social de seu governo. Apegada à precisão dos dados, a presidenta solicitou uma análise detalhada das informações do Censo de 2010 do IBGE – quer trabalhar sobre uma base atualizada de pobres e miseráveis.

Na ampla reunião ministerial da quinta 6, decidiu-se montar um comitê gestor nos moldes do PAC para administrar os programas sociais. Isso significa que, quando em funcionamento, os projetos estarão livres de eventuais contingenciamentos orçamentários. O comitê ficará subordinado à ministra do Desenvolvimento Social, Tereza Campello, e incluirá não só a administração do Bolsa Família como outras iniciativas de ampliação das redes sociais e inclusão produtiva. A iniciativa já ganhou um apelido da mídia: PAC da miséria.

Em sua posse, na segunda 3, Campello havia anunciado o objetivo do ministério de aumentar os programas de treinamento e a oferta de crédito aos beneficiários de programas sociais na tentativa de tirá-los da dependência da transferência de renda do Estado. Independentemente dos próximos rumos, a ministra anunciou um reajuste dos valores do Bolsa Família até meados do ano.

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