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A nova classe média existe?

por André Barrocal publicado 05/09/2014 12h55, última modificação 05/09/2014 17h04
A controvérsia sobre a camada social que melhorou de vida está presente até no debate eleitoral. Classe C é classe média?
Marcelo Camargo/ABr
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A mudança de vida dos membros da "nova classe média" está mais associada a um maior poder de compra do que a valores tradicionais da classe média

A redução da pobreza brasileira neste século fez da classe C a maior do País. Com base em critérios de renda, o grupo engloba atualmente algo como 110 milhões de pessoas, de uma população total estimada há pouco pelo IBGE em 202 milhões de habitantes. Esta numerosa classe costuma ser chamada por autoridades e analistas como “nova classe média”. Não existe, porém, consenso em torno da catalogação. É uma controvérsia inclusive com impacto na eleição presidencial.

Ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o economista Marcio Pochmann é um dos questionadores do rótulo. Ele é autor de um livro lançado recentemente cujo título é explícito na contestação, O Mito da Grande Classe Média.

A tese da obra é simples. “Classe média” é uma expressão historicamente utilizada para definir a estrutura produtiva de uma sociedade. Abrange profissionais liberais, empreendedores, executivos de escalão intermediário das empresas. Deste ponto de vista, não houve mudança significativa no País na última década. Os 40 milhões que saíram a pobreza rumo à classe C são de outra natureza. Beneficiários do Bolsa Família e, mais do que tudo, trabalhadores: de fábricas, lojas, obras de construção civil. De 2003 para cá, foram abertas 20 milhões de vagas com carteira assinada, segundo dados oficiais.

A categorização dos brasileiros por nível de renda ajuda a afastar a hipótese de o País contar com uma “nova classe média” - ao menos, daquela noção comum sobre o que é ser “classe média”. Das pessoas com 15 anos ou mais e que têm rendimento, 68% vivem com até dois salários mínimos mensais, segundo Pochmann. Algo em torno de 1,5 mil reais. Não é uma renda a ser associada a usos e costumes da classe média típica, como jantar fora, trocar de carro com frequência ou passar as férias no exterior.

A discussão sobre a natureza da classe C ampliada não é um capricho acadêmico. Tem repercussão nos rumos do País, como se observa na campanha presidencial. Marina Silva (PSB) e Aécio Neves (PSDB) possuem programas liberais, a defender a menor participação do governo na economia. “Se o que há é uma nova classe média, o papel do Estado perde importância, pois a classe média tradicional não precisa do Estado”, diz Pochmann. “Mas se o que existe são mais trabalhadores, o Estado ganha importância, porque trabalhador precisa de serviços públicos.”

A autoimagem feita pelos novos integrantes da classe C também parece afastá-los da noção comum de “classe média”. É uma das constatações de outro livro lançado há pouco, Um País Chamado Favela, resultado de um mapeamento com dois mil moradores de 63 comunidades. Um dos autores é Renato Meirelles, diretor do Datapopular, instituto de pesquisas especializado nos brasileiros emergentes.

Os recém-chegados à classe C demonstram ter valores distintos dos professados pelas pessoas já nascidas na classe média. A identidade do grupo está ligada a certos bens materiais (roupas, bolsas, celulares) e comportamentos (gosto pelo funk ostentação), e não à partilha de uma mesma visão de mundo. E acreditam que têm e tiveram de “ralar” para subir na vida, ao contrário da classe média tradicional. “Eles valorizam a própria história, tem orgulho da origem. Querem ser ricos, mas não querem ser como os ricos”, afirma Meirelles.