Você está aqui: Página Inicial / Política / Um novo amanhecer

Política

No mundo

Um novo amanhecer

por Cultura e Juventude — publicado 23/09/2011 14h18, última modificação 23/09/2011 15h57
Para Juca Ferreira e Alfredo Manevy, manifestações são crítica radical ao mundo, ao capitalismo, à política e à falta de alternativa

A crise econômico-financeira atingiu em cheio a estabilidade e a paz social do primeiro mundo (Europa e EUA) e estimula o ressurgimento de manifestações de intolerância e radicalismo político como o Tea-Party nos Estados Unidos. Do outro lado do Atlântico, um franco-atirador na Noruega, responsável por uma das maiores tragédias europeias; e que acusa – em seu manifesto - a diversidade cultural e a social democracia, responsabilizando-as pela crise da Europa. Ao mesmo tempo, as revoltas violentas nos guetos negros da Inglaterra e os partidos de extrema direita crescem a cada eleição.

Nada mais fácil em um momento de crise e de insegurança do que arranjar culpados externos. E, é nesses momentos que ideologias xenófobas, racistas e anti-democráticas, aparentemente sem futuro, são resgatadas e passam a ter uma importância política e uma presença na vida social. As ideologias que pregam o uso da força para manter a coesão social, que trabalham com o medo para se fortalecerem e afetarem camadas profundas da subjetividade social, passam a propor abertamente uma saída por fora da narrativa da democracia.

No interior dessas mesmas sociedades, porém, ganha força um novo ativismo de jovens. Podemos citar as manifestações inovadoras em forma e conteúdo em Madrid, na Porta do Sol, que serviram de exemplo e estimularam manifestações semelhantes em várias partes do mundo. Movimento que chegou a ser, poucas semanas atrás, considerado mais confiável pelos espanhóis do que os partidos políticos e a Igreja.

Centenas de milhares em Israel a pedir mais do que lhes é oferecido; os protestos no Chile por uma Universidade pública e de qualidade; “marchas” no Brasil pela ampliação e reconhecimento de liberdades individuais. E, com consequências ainda mais dramáticas para os envolvidos, os protestos dos adolescentes e jovens nos guetos de Londres. A revolta violenta na Inglaterra é um sintoma da inviabilidade das sociedades de bem estar que mantenham parte de sua população marginalizada, excluída. Daí em grande medida a forma como o Brasil vem sendo visto como uma experiência marcante da esquerda: a busca de incorporar os excluídos no desenvolvimento, o mote do governo Lula até nossos dias.

Há algo de maio de 68: a utopia nua e crua recuperada e renovada. Um cenário de mutações profundas, em que se destaca a interiorização da crise no plano da cultura, da linguagem e dos paradigmas de pensamento. Os jovens dessa geração querem felicidade e estão indignados com o que lhes é oferecido. Chegam à política por esse caminho. Se por um lado isso torna difícil a inserção desses movimentos na política institucional - coisa que demonstram não desejarem, pelo menos por enquanto -, por outro, movidos por distintos níveis de indignação, estes jovens estão buscando alternativas.

Apropriando-se das redes digitais, surgem então novas organizações. Trazem temas para o espaço público que a política institucional sequer suspeita, abrem caminhos novos, retomam e renovam velhos sonhos enquanto afirmam uma nova pauta: adotam a organização em redes, recusam os modelos tradicionais de representação e não aceitam subempregos. Afirmam o direito de acesso, compartilhamento e remixagem do conhecimento e da cultura e a afirmação da agenda ambiental como prioritária.

As demandas políticas desse novo ativismo jovem inserem a cultura no centro da discussão. Rebeldia organizada ou desorganizada são partes de um mesmo movimento: quanto mais prolifera a publicidade dos bens de consumo e substituem-se os valores humanistas pela ideologia do consumo, mais denuncia-se a falta de alternativa dos jovens excluídos, vivendo nos guetos dessas grandes cidades europeias, desejando os tênis e gadgets, consumindo as migalhas e as cópias piratas que os contrabandistas jogam no mercado.

O sentimento de exclusão é redobrado quando as políticas para a cultura reforçam a verticalidade da antiga indústria cultural e acusam os jovens de “piratas” enquanto estes fazem do acesso às cópias a base criativa de sua própria produção cultural, com vitalidade e capacidade de reciclagem extraordinárias.

Quem poderia apresentar alternativas e desenvolver a capacidade coletiva de cognição política da realidade seria a esquerda e a social democracia, porque têm aparato conceitual para politizar e fazer desses fatos enzimas de progresso e evolução dessas sociedades. Mas a social-democracia e a esquerda europeia estão atolados na desmoralização geral da política e ninguém parece esperar nada neles.

A direita tem aproveitado a crise para ganhar espaço e oferecer sua receita de diminuição do Estado de bem estar, redução de direitos sociais e estímulo a xenofobia ao culpar os pobres e os imigrantes.

Se a direita usa sua velha linguagem, a esquerda precisa reciclar a sua. Urge a necessidade de rápida renovação política, e não apenas na Europa… Ao invés de cooptar esse movimentos jovens, deixar-se revitalizar por eles. Viver o risco da renovação. Com todas as insuficiências e simplificações, estamos diante de uma linguagem política que obedece a um novo código jovem, faz uma crítica radical ao mundo, ao capitalismo, à política e à democracia que eles conhecem, à falta de alternativa (o desemprego entre os jovens é de 40% na Espanha).

Mas se isso é a motivação inicial, o que estão buscando é bem mais. Prestem atenção aos jovens da Porta do Sol e desses outros pontos de encontro, porque aí está sendo plasmada uma plataforma de demandas contemporâneas, materiais e imateriais. Porta do Sol, belo lugar para um novo amanhecer
Juca Ferreira é embaixador especial da Secretaria Geral Ibero Americana para o Ano Internacional dos Afro-descendentes, ex-Ministro da Cultura no Governo Lula.

Alfredo Manevy, doutor em audiovisual pela USP e Prof. da  Universidade Federal de Santa Catarina. Foi secretario-executivo do MinC (2008-2010).

registrado em: