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Política

Crônica

Marcha do MBL: a megalomania e o fiasco do impeachment

por Wanderley Preite Sobrinho — publicado 27/05/2015 20h34, última modificação 28/05/2015 15h06
A caminhada tragicômica de um grupo que um dia sonhou em derrubar a presidenta da República acabou em um ato esvaziado nesta quarta em Brasília
Divulgação
Esvaziado

Esvaziada, caminhada do MBL percorreu mais de mil quilômetros

Tinha tudo para os planos do Movimento Brasil Livre (MBL) darem certo. Primeiro, duas manifestações que, somadas, levaram mais de 2 milhões de pessoas às ruas pedindo o impeachment da presidenta Dilma Rousseff –segundo os cálculos generosos da Polícia Militar. Logo em seguida, a encomenda de um estudo feito pela oposição para validar juridicamente a cassação da petista. O apoio político e a comoção popular haviam criado o ambiente propício para o que foi vendido como uma manifestação arrojada, nova, diferente de tudo o que se tinha visto no Brasil desde os protestos de 2013. Como resultado, milhares de brasileiros vestindo verde e amarelo se juntariam ao MBL em uma caminhada de 1.175 quilômetros entre São Paulo e Brasília.

O dia, horário e evento no Facebook também foram acertados. Na data, 24 de abril, uma multidão se concentraria no bairro rico de Pinheiros, na zona oeste da capital, onde sairiam em marcha após o Hino Nacional. A história foi bem outra.

Os manifestantes que abarrotaram em festa a avenida Paulista ensolarada nos domingos de 15 de março e 12 de abril caminhariam mesmo por 30 dias? Marchariam mesmo com idade média de 40 anos e o bolso cheio? Cerca de 20% de quem protestou naqueles dias ganhavam mais de 20 salários mínimos por mês, segundo o Datafolha.

MBL e Eduardo Cunha
Cunha recebe o MBL para protocolar o pedido de impeachment
Nada disso passou pela cabeça dos líderes do MBL, nem mesmo pela mais conhecida delas, a de Kim Kataguiri, de 19 anos. “[No dia 27 de maio], ocupemos a frente da Câmara para que os congressistas se sintam pressionados a atender a nossa pauta”, convocou o estudante em um vídeo no Facebook em que explicava cada detalhe da “Marcha pela Liberdade”.

Tudo pronto. Dia 24 de abril, meio-dia, praça Panamericana. Ninguém apareceu. Como há sempre aquele atrasadinho, decidiram esperar por mais uma hora. Às 13h, 22 pessoas iniciaram a marcha. Nem o MBL apareceu direito. Kim esperava pelo menos 60 pessoas do movimento, e o total geral foi de um terço disso.

Para não atrapalhar o trânsito, o grupo foi pela calçada mesmo. Carros e um ônibus, bancado pelo Solidariedade, partido do deputado Paulinho da Força, foram mobilizados para garantir o mínimo conforto a quem pusesse o pé na estrada. Ninguém precisaria levar as mochilas nas costas. Na hora de dormir, os veículos também serviriam de abrigo.

E lá foram eles. Pela rodovia dos Bandeirantes, chegaram a Jundiaí. Naquela cidade, a 57 km da capital, ganharam a rodovia Anhanguera, de onde só saíram para pisar na capital federal. O roteiro incluiu as cidades de Uberlândia, Uberaba, Caldas Novas, Goiânia, Anápolis e cidades satélites de Brasília.

O plano era mobilizar simpatizantes em cada um desses municípios. Pouca gente se animou. Apoio mesmo só de políticos ultraconservadores. No Twitter, o deputado Roberto Freire (PPS-SP) bradou: “Vamos mobilizar todos os partidos de oposição e oposicionistas de todos os partidos para a Marcha e o ato em BSB”.

Onyx Lorenzoni (DEM-RS) chegou a dizer que pretendia participar de um trecho da caminhada, enquanto Ronaldo Caiado (DEM-GO) prometeu receber com festa os manifestantes quando chegassem a Goiânia, sua base eleitoral.

Kim, Feliciano e Bolsonaro
Em Brasília, Kim Kataguiri foi logo tirar uma foto com Bolsonaro (esquerda) e Marco Feliciano
Os dias foram passando, Caiado não deu o ar da graça e a marcha sumiu dos noticiários. A esperança de reunir milhares em frente ao Congresso se esvaiu depois que o parecer jurídico sobre o impeachment da presidenta chegou ao gabinete de Aécio na noite de quarta-feira 20. “Não é agenda para agora”, contemporizou o presidente do PSDB, ao se referir às conclusões do jurista Miguel Reale Júnior, que não viu embasamento jurídico para o impedimento.

Quando pouca gente se lembrava da marcha, Kataguiri e os amigos voltaram às manchetes. Embriagado, José Lino, de 49 anos, colidiu sua caminhonete com outro veículo por volta das 19h do sábado 23 e se viu arremessado contra o acostamento, justamente onde caminhavam os integrantes do MBL.

Kataguiri e Amanda Kailayne Alves, de 28 anos, foram atropelados. Nada grave. Eles foram encaminhados para hospitais da região e medicados. No dia seguinte, Renan Santos (31), outro líder do MBL, compartilhou um vídeo no Facebook politizando o acidente ao revelar sua intenção de averiguar se o motorista era membro do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST).

Os milhares esperados em frente ao Congresso gritando pelo impeachment de Dilma diante de receptivos presidentes da Câmara e do Senado terminaram em um discurso constrangido do coordenador do MBL Rubens Nunes Filho na terça-feira 26 durante a reunião da bancada do DEM: “Conclamo os senhores que recebam a marcha amanhã, às 14 horas. Que estejam na rampa para nos receber e se possível prestar apoio”. 

Na chuva
Grupo coube quase todo em um único guarda-chuva
Nenhum político juntou-se ao minguado grupo que se reuniu no gramado do Congresso nesta quarta-feira, mas, acompanhados por parlamentares da oposição, o movimento conseguiu se reunir com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e protocolar o pedido de impeachment.

Trinta e três dias depois, 35,6 quilômetros supostamente caminhados por dia (lembre-se do ônibus e carros de apoio) e um final melancólico para um movimento megalomaníaco.